quarta-feira, 2 de junho de 2010

Maus usos da filosofia e ignorância científica Parte 1

INTRODUÇÃO:

Em minhas andanças pela internet, mais uma vez me deparei com um rol de tolices e mau uso, má compreensão e ignorância completa no que se refere a conceitos filosóficos e conhecimentos acerca do universo.

O rol de tolices surgiu a partir dos seguntes textos:

texto 1:

texto 2:

texto 3:

texto 4:

texto 5:

texto 6:

Analisemos cada um deles em 6 partes.


TEXTO 1:


De início, há que entender-se o que significa o argumento teleológico.
A origem deste argumento remonta a Platão, que afirmava ser a explicação para qualquer fenômeno físico teleológica. Platão distingue as causas necessárias e causas suficientes das coisas, que ele identifica, respectivamente, como a causa material e a causa teleológica.

Os materiais que compõem um corpo são condições necessárias para seu movimento e ação de uma determinada maneira Todavia, os materiais não podem ser condições suficientes para seu movimento e ação, que seriam determinados pelas finalidades impostas pelo demiurgo (Deus-artesão, hoje mais conhecido pelo vulgo de "designer").

Após o concílio de Niceia (sec. IV d.C.), o cristianismo finalmente estruturou-se. como religião. Logo, a explicação por causas finais passou a ser considerada a única explicação conveniente para os mistérios divinos.

A filosofia clássica, devido ao pensamento medieval, ganhou feições teológicas sendo que houvea cristianização de Platão ( Agostinho de Hipona - 354 a 430 d.C.) e, posteriormente, a de Aristóteles (Tomas de Aquino - 1.225 a 1.254 d.C.).

Este movimento de inserção da filosofia clássica no pensamento medieval é o que hoje se conhece por Escolástica, que procurava compreender a revelação divina mediante o uso dos conceitos herdados daquele período anterior.

Quanto ao argumento teleológico à época da Idade Média, baseava-se na quinta via no que se refere às provas existencia de deus, elaboradas por Tomás de Aquino em suas cinco vias da demonstração da existência de deus.

Propriamente, ao partir da noção de finalidade ou causa final, ele diz que o universo exibe desígnio e propósito, ou seja, tudo parece agir segundo um plano. Caso contrário, o Universo não tenderia para o mesmo fim ou resultado. Assim, a denominação de teleológico para tal argumento ocorre em razão de que explicações teleológicas sempre consideram um objetivo ou propósito de algo para explicá-lo.
Todavia, com o surgimento das ciências modernas, este argumento perdeu força, uma vez que tanto nas ciências físicas, como nas ciências biológicas, os fenômenos naturais são explicados por causas também naturais além de descartarem a noção de propósito àqueles fenômenos não conscientes.

Por exemplo, o fato de um crocodilo caçar um gnu tem como propósito aquele animal se alimentar, uma vez que sentiu fome e teve de saciar esta necessidade. Isto sem dúvida é um fenômeno consciente.

Mas, qual o propósito de que o crocodilo ou o gnu existam? Não poderíam ser coisas diferentes se a evolução tomasse outros rumos na história da vida?

Ora, animais se adaptam a determinados nichos quando estes se encontram vagos. Foi o que aconteceu com os mamíferos da mega-fauna. Os "bons empregos" que eram ocupados pelos dinossauros ficaram vagos após a extinção KT e isso permitiu que os mamíferos e aves florescessem e se desenvolvessem. Mas qual o propósito disso tudo?

Outra forma que se tinha de pensar era o argumento cosmológico ( ou a terceira via dos argumentos que provam a existência de deus) que significa que a simples existência do Universo significava que alguém o tinha criado. Este argumento se baseia na ideia aristotélica de necessidade e contingência, visando explicar a necessidade da existência do universo (o cosmo).

Segundo este argumento, constata-se a contingência na natureza, mas nem todas as coisas podem ser contingentes (terem uma causalidade direta para os fenômenos naturais) , senão seria possível que não houvesse nada. Mas aquilo que existe somente poderia começar a existir a partir de algo que já existe antes. É preciso assim que algo do que existe seja necessário. Portanto, deus é a origem de toda a necessidade.

Este argumento tem como ponto fraco o fato de que se o cosmo é tão maravilhoso que sua existência precisa de algo mais maravilhoso ainda para explicá-la, então, como explicar este algo mais maravilhoso ainda?

Caso abordemos a questão de modo científico, para cada explicação deve haver outra explicação e assim por diante, o que é o caráter zetético das ciências.

Porém, a questão pode chegar a um ponto estanque, dogmatizando-se ao partir de uma petição de princípio. A resposta para tal, está no argumento ontológico (aquele que se aplica a qualquer discussão sobre a natureza do ser), cuja autoria é de Anselmo de Cantuária (1.033 - 1.109).

Neste argumento reside a ideia de que o maior e mais perfeito ser possível, o qual é imaginado possuir todos os atributos desejáveis, exceto o da existência, não seria o maior e mais perfeito possível, pois um ser que existe é maior e mais perfeito que um que não existe. Portanto, o maior e mais perfeito ser tem de existir. Assim, do conceito de deus como ser perfeito e que deriva sua existência.

A passagem que este argumento faz do campo lógico semântico para a definição de deus é que lhe caracteriza como ontológico, pois com esta passagem, não se pode evitar a existência deste ser.

Já na visão de Tomás de Aquino, sendo este argumento denominado como segunda via das provas sobre a existência de deus, este é o ser supremo maior que qualquer coisa que possa ser pensada. Esta definição de deus assim entendida está no intelécto e pórtanto deve ser esta ideia aceita, pois caso se deus não existisse haveria algo maior que ele, já que existir é mais que não existir, o que gera uma contradição. Portanto, a existência de deus no intelécto, acarreta sua existência.

Este argumento foi contestado por Kant (1.724 - 1.804), com base em que todas estas provas apoiam-se no princípio da causalidade, pois procuram mostrar que deus é a causa do universo. Todavia, o princípio da causalidade somente vale para a experiência sensível, o que invalidaria as provas sobre a existência de deus.

Segundo a doutrina de Kant, nunca poderemos saber ao certo se existe qualquer coisa da qual nosso aparelho corporal não nos dá apreensão. Isso descartaria o conhecimento da existência de deus e das almas imortais. Frise-se aqui que esta forma de pensar não descarta a existência de deus, mas o que ela descarta é o conhecimento para abrir espaço à fé.

Dessa forma, não está sob discussão a existência ou não de deus, mas apenas que sua existência não pode ser provada. Assim, nas palavras de Kant:

O conceito de um ser supremo é uma ideia útil sob muitos aspecto. Mas justamente por ser uma ideia, é incapaz por si só, de ampliar o nosso conhecimento acerca do que existe.

Logo, simples ideias não enriquecem o homem de conhecimento, como um mercador não se enriquece de dinheiro se para melhorar sua própria condição, acrescentasse alguns zeros em seu livro caixa.

Mas, é durante a idade moderna que passa a haver uma mudança nesta forma de pensar, uma vez que o antropomorfismo (pensamento que atribui caractéres humanos a deus) da teleologia não justificava supor qualquer finalidade imposta ao Universo.

Assim, surge o mecanicismo (teoria filosófica determinista a qual defende serem todos os fenômenos explicáveis pela causalidade mecânica ou por analogia a esta) e o deísmo (postura filosófico-religiosa que admite a existência de um deus criador, porém considera a razão como uma via capaz de assegurar da existência de deus, além de desconsiderar, para tal fim, a prática de uma religião denominacional).

Ambos tentaram explicar o mundo pelas causas eficientes com o propósito de descobrir as causas finais que teriam sido arquitetadas por deus sob a metáfora do mundo como um relógio e de deus como o relojoeiro. Futuramente Willian Paley (1.743 a 1.805 d.C.) se apossou desta metáfora, em Natural Theology, e criou as bases para o design inteligente - DI.

O nascimento da ciência moderna relaciona-se ao estudo das causas eficientes (coisa que pode levar outra coisa a existir) dos fenômenos e um crescente abandono da idéia de causa final (antropomórfica). Em suma, a explicação dos fenômenos deixou de ser feita pela teleologia e, em seu lugar, buscou-se explicar os fenômenos como emergentes (processo de formação de sistemas complexos ou padrões a partir de uma multiplicidade de interações simples).

O argumento teleológico também prega uma ordem no universo. Porém, como hoje conhecemos pelas investigações astronômicas, o Universo não é um lugar tão tranquilo assim.

Pelo contrário, é uma zona mortal com asteróides, cometas, super-novas, explosões de raios gama, pulsares, magnetares, quasares, buracos negros, choques intergalácticos, planetas infernais ou mundos gelados, nebulosas ricas em ácido cianídrico, vulcões, violentos movimentos de marés em luas e planetas e, possivelmente outros universos.

Também, não faz qualquer sentido falar-se na soma de todos estes fatores como tendo um propósito.

Entendido o argumento teleológico, podemos partir para uma análise do texto.

O texto se inicia por uma analogia probabilística, supondo que uma condição tida como especial para um indivíduo corrobore, por indução (do particular para o geral) um ajuste fino do Universo, quanto a sua aptidão para a vida.

O argumento teleológico do ajuste fino, apresentado no texto, se perfaz segundo a seguinte estrutura:

1- O ajuste fino do universo se deve à necessidade física, ao acaso ou ao desígnio.
2- Ele não é devido à necessidade física e nem ao acaso
3- Portanto, ele se deve ao desígnio.


A primeira premissa já começa errada, uma vez que não há qualquer "ajuste fino" no Universo, sendo suas "zonas de relativa calmaria", se é isso que podemos dizer, os locais que dão condições a existirem formas de vida como as que conhecemos, tomando-se como um exemplo concreto o nosso Sistema Solar, e mais particularmente a Terra. Tais "zonas de relativa calmaria" apresentam-se raríssimas pelo Universo.

Digo relativa calmaria porque vez ou outra são perturbadas por objetos como cometas e asteróides, que, algumas vezes já causaram sérios danos ao nosso planeta.
Assim, por não haver ajuste fino, indutor de um propósito para um fenômeno meramente natural, as três premissas impostas caem por terra.

A segunda premissa já apresenta a resposta de sua conclusão implícita, pois simples e deliberadamente descarta a necessidade física e o acaso, sem qualquer evidência científica que ateste sua veracidade ou falsidade.

Quanto à conclusão, esta já está respondida na premissa 2 implicitamente. Portanto, o raciocínio é inválido, ou seja é uma falácia lógica.


A tentadora afinação do Universo:
Parece tentadora a proposta de um designer para o que apresentarei a seguir. Sairemos da filosofia e adentraremos a cosmologia a fim de entendermos que o universo é regido por apenas seis números "escolhidos a dedo".
Dois deles se relacionam às forças básicas, dois fixam o tamanho e a textura geral de nosso Universo (se ele continuará a se expandir ou se colapsará) e os outros dois fixam as propriedades do próprio espaço.

Fisicamente, podemos definir seis números para o Universo, conforme seguem:

1 - N = é a relação entre as forças elétricas que mantêm nossos átomos coesos dividida pela força da gravidade que atua entre eles; A intensidade relativa destas forças é da ordem de 10 ^ 36.

A gravidade é uma força surpreendentemente fraca se comparada com outras que afetam os átomos, sendo seus efeitos mais sentidos nas coisas grandes que nas pequenas.

A gravidade sempre opera como uma força de atração. Se esta gravidade não fosse tão fraca, nada ocorreria com átomos e moléculas, porém, os objetos não necessitariam ser tão grandes a fim de que a gravidade competisse com as demais forças.

Haveria necessidade de menos átomos para que as estrelas se formassem, os planetas teríam menor massa, mantendo ou não órbitas estáveis e a vida seria bem diferente... muito mais lenta e forte.

Galáxias se formariam mais rapidamente, e seriam menores; havería maior número de colisões entre estrelas, o que poderia inviabilizar sistemas planetários estáveis. As estrelas se consumiríam mais rapidamente e a vida correria riscos de não ter tempo para se desenvolver em formas mais complexas.

Mas e uma gravidade mais fraca? neste ponto, poderia haver a formação de estruturas melhor elaboradas e de maior duração. mas isso teria implicações quanto à formação do universo, o que será visto mais adiante.

2 - e = eficiência nuclear: as forças nucleares são cruciais para manter prótons e nêutros nos núcleos atômicos. Estes núcleos são produzidos nas estrelas, sendo que a natureza os faz em 92 variedades, conforme a Tabéla Periódica. Este número é 0,007.

Há elementos além do Urânio denominados de transurânicos, cujos núcleos são mais instáveis e podem sofre fissão nuclear, sendo o plutônio uma exceção, pois tem meia vida de milhares de anos.

Se esta força fosse mais fraca, o hidrogênio seria um combustível menos eficiente e as estrelas não viveriam tanto. Todavia, isso não seria crucial. Entretanto, isso afetaria a síntese de outros elementos a partir do hidrogênio das estrelas, como a formação do hélio a partir do deutério (um próton e um nêutron). Próton e nêutron do deutério seriam difíceis de se manterem coesos, o que daria um caráter instável ao deutério. O hélio não se formaria e haveria um universo de hidrogênio.

As estrelas se formariam, esfriariam e morreriam, sem explodirem em super-novas que espalham seus destroços pelo universo e propiciam a formação de outras estrelas e sistemas solares.

Mas se esta força fosse mais forte do que é, o hidrogênio não teria sobrevivido ao big bang. Isso teria propiciado que dois prótons se unissem, o que não levaria a formação do hidrogênio e, assim, as estrelas não se formariam.

Foi deste conceito que Fred Hoyle cunhou o termo "afinação", a partir da síntese de carbono e oxigênio nas estrelas.

Portanto, forças nucleares mais fracas reduziriam o número de elementos estáveis da Tabela Periódica e vice-versa.

Para a vida, uma biosfera de carbono como a nossa, não poderia existir e, devido às moléculas especiais para a vida não poderem existir, pois o carbono , como ele é, é um elemento muito especial.


3 - o = razão entre densidade real e densidade crítica: este valor se relaciona ao destino do Universo e está em torno de 0,04. Na verdade, o que há é uma competição entre a gravidade e a energia de expansão. Para que a gravidade vença a luta e o universo colapse, depende da quantidade de matéria que exerce a atração gravitacional, ou seja, se a densidade de matéria exceder um valor crítico bem definido, que corresponde a cinco átomos por metro cúbico.

Entretanto, a densidade real para o universo conhecido é de 0,2 átomo por metro cúbico, o que implica uma expansão cósmica.

Mas vamos com calma!!! Há coisas no Universo que não vemos, mas elas estão lá, como a matéria escura. Não sabemos o que ela é mas sabemos que exerce gravidade e funciona como uma estrutura para as galáxias fixarem sua matéria. Esta matéria escura não emite luz ou qualquer outra forma de radiação.

O movimento do universo é que demonstra haver algo invisível exercendo uma attração gravitacional entre os corpos celestes. São movimentos rápidos demais para serem equilibrados apenas pela gravidade.

Assim, o destino do universo depende do valor que a razão ora apresentada assumir. se o=1 o universo se estenderá até um frio extremo.



 Se "o" estiver entre [-1 e 1] o universo colapsará em um "big crunch" e se  "o"  for maior que 1 ele se expandirá até rasgar-se.




4 - L = a constante cosmológica de Einstein: é o número que Einstein encontrou quando de da aplicação de sua teoria da relatividade geral ao Universo. Acreditava-se que o universo fosse estático, mas Einstein descobriu que se assim o fosse, o Universo começaria a se contrair, o que impossibilitava este ideal de Universo estático. É um número muito pequeno, sem representação.

De acordo com o modelo padrão da cosmologia, o Lambda-CDM model, a constante cosmológica medida é da ordem de 10 ^- 35 s ^-2 ou 10 ^- 47 GeV4, ou 10 ^-29 g/m^3 ou em torno de 10 ^-120 na unidade reduzida de Planck.

Logo, havia a necessidade de uma força para contrabalalçar a gravidade e assim, surge a constante cosmológica, a qual designa uma repulsão cósmica. Mas Huble descobriu que galáxias distantes se afastavam de nós.

Einstein considerou este número seu maior erro, mas hoje sabemos que seu valor não pode ser zero, porém é tão pequeno que somente pode competir com a gravidade diluída do espaço intergaláctico. Este número parece controlar e descrever a força mais fraca e mais misteriosa da natureza, ou seja, a expansão do Universo e o seu destino.

Se o valor de L fosse maior, as consequências seriam catastróficas, pois a gravidade seria facilmente dominada, bem mais cedo, durante os estágios de maior densidade. Não haveria galáxias, nem estrelas, planetas ou vida.

Se L fosse igual a zero, as galáxias continuaríam a se afastar, porém sua velocidade diminuiria pouco a pouco, sem nunca chegar a zero. Mas se L for maior que zero, a velocidade de expansão do universo se acelerará, sendo que todas as galáxias desapareceriam de nossa vista e sua velocidade tenderia à velocidade da luz.

A esta força de repulsão cósmica denominamos de energia escura e parece se relacionar com o vácuo do universo, sendo que este espaço vazio pode ser um agitado emaranhado de cordas, com estruturas em dimensões adicionais, conforme preconiza a teoria das super cordas.

Para compreender mais este assunto, consultar os links aqui e aqui.

5 - Q = é a relação entre a intensidade de ligação das estruturas do cosmo (estrelas, galáxiase aglomerados), ou seja, quanta energia seria suficiente para destruí-las e dispersá-las e a sua energia de repouso (E=mc^2): é um número pequeno que demonstra ser a gravidade realmnete muito fraca para os aglomerados e galáxias. Este número também dá mostras de que podemos considerar nosso universo como homogêneo, sendo que suas "ondulações" foram definidas muito cedo, antes dos aglomerados e galáxias.
O número Q ( da ordem de 10^-5) é crucial para se determinar a textura estrutural do Universo. Ele representa a amplitude das ondulações.

É na radiação de fundo de microondas (o brilho do big bang) que está o segredo do Universo referente ao fim de sua "idade das trevas" e a formação das proto-galáxias. A temperatura das microondas parece conservar os registros das flutuações do universo no que se refere a regiões mais e menos densas, as quais se transformariam, respectivamente em galáxias ou vazios.

Se as microondas acarretassem um Universo primordial mais uniforme que uma parte em 100 mil na temperatura de radiação de fundo, isso exigiria uma força adicional além da gravidade que pudesse aumentar os contrastes de densidade ainda mais rapidamente para os aglomerados e galáxias.

Com isso, pode-se afirmar que a gravidade, desde o começo do Universo, moldou as estruturas cósmicas e aumentou os contrastes de temperatura. Sem dúvida, isto foi pré-requisito, para após 10 bilhões de anos, dar condições para a vida, seja ela aqui na Terra (por enquanto o único lugar que conhecemos com uma exuberante biosfera) seja em qualquer outro ponto deste universo.

Assim, a partir de o, L e Q, é que se tem o ponto de partida de um universo em expansão, já definidos quando do universo primordial.

Se Q fosse menor do que é e os demais números se mantivessem inalterados, os agregados na matéria escura levariam mais tempo para se desenvolvere, sendo menores e mais dispersos. a formação estelar seria mais lenta e ineficiente e o material processado seria expulso da galáxia em vez de ser reciclado em novas estrelas e possíveis sistemas planetários. O gás poderia jamais se condensar em estruturas gravitacionalmente ligadas e o Universo seria um lugar escuro, mesmo com a mistura inicial de átomos, matéria escura e radiação existente neste universo.

Mas, se Q fosse maior que o apresentado, havendo ondulações de grande amplitide,o Universo seria um lugar turbulento. Regiões maiores que as galáxias se condensariam muito mais cedo que nossa história demonstra. Estas regiões não se fragmentariam em estrelas, mas em buracos negros gigantescos.

O gás seria tão quente que emitiria raios X e raios gama. Caso as galáxias se formassem, seríam muito mais coesas e as estrelas teriam movimentos instáveis para manterem sistemas planetários. Eis a razão de não haverem sistemas solares (pelo menos até então) próximos ao centro de nossa galáxia.

Q é algo crucial para a vida.

6 - D = número de dimensões espaciais em nosso mundo: este número vale 3. Em mundos com três dimensões, as forças gravitacional e elétrica obedecem a lei de inverso da quadrado da distância.

Três dimensões são cruciais para a vida, uma vez que em um mundo com duas dimensões as estruturas complexas não se formariam, como por exemplo, as moléculas da vida, uma vez que o carbono faz ligações tetraédricas.

O universo 3D, o que significa estarmos em uma tri-brana, nos permite movimentos para onde desejarmos (para frente, para trás, para direita, para a esquerda, para cima e para baixo).

Embora o espaço e o tempo estejam ligados, sendo a taxa que o tempo passa elástica, ou seja dependente de como o relógio que o mede se move e da existência de uma grande massa em suas proximidades, as ideias de Einstein mantêm a distinção entreo que está lá fora no espaço e o que está no passado ou no futuro.

Não há assimetria nas leis básicas que regem o micromundo, ocorrendo transformações irreversíveis em nosso mundo, independentemente da indiferença das leis fundamentais em relação ao passado e ao futuro.

A microestrutura do espaço tem po ainda não é conhecida, mas sabemos que ele não pode ser partido em pedaços arbitrariamente pequenos. Estes detalhes somente podem ser investigados por radiações com pequenos comprimentos de onda, sendo o seu limite o quantum básico de energia, medido pela constante de Planck.

Podemos investigar detalhes cada vez menores usando quanta cada vez mais energéticos associados a comprimentos de onda cada vez menores, mas há um limite. Este limite surge quando os quanta necessários são concentrações extremas de energia os quais colapsam em buracos negros, o que acontece no comprimento de Planck ( da ordem de 10^-19 vezes menor que um próton).

A energia destes quanta é a da massa de repouso de 10^19 prótons, sendo que a luz demora 10^-43 segundos para atravessar esta distância, que é o tempo de Planck , ou seja, o menor tempo possível de ser medido.

Portanto, mesmo o espaço e o tempo se sujeitam aos efeitos quânticos. Mas, como a gravidade é muito fraca, estes efeitos surgem em uma escala muito menor que nos átomos comuns, em que as forças controladoras são elétricas (consequências de N).

Assim, o comprimento de Planck, por enquanto é o nosso limite. Ir além dele significaria que teríamos de criar partículas com energias de um milhão de bilhões de vezes maiores que as que conseguimos produzir em laboratórios.

É obvio que efeitos quânticos podem ser desprezados para efeitos do Universo em seu atual estado, bem como a gravidade pode ser desprezada no mundo quântico. Mas, quando de seu início, estas vibrações quânticas poderiam balançar o universo, sendo a gravidade importante para um único quantum. Isso acontece no tempo de Planck, ou seja, a 10^-43 segundos da existência do Universo.

É de suma importância para a compreensão dos primeiros instantes após o big bang e para entendermos o que ocorre com o espaço tempo nas vizinhanças de um buraco negro que haja uma unificação entre a teoria quântica e a teoria gravitacional.

É aqui que o universo se torna caótico, sendo que o espaço tempo se apresenta como uma espuma sem seta do tempo bem definida, pode assumir uma estrutura em treliça, ser costurado como uma cota de malha, sendo que tempo e espaço podem se tornar semelhantes e em certo sentido não haver começo de tempo.

Flutuações podem dar origem a novos domínios os quais evoluem como universos separados dos seguintes tipos:

tipo 1: Tão distante que não podemos ver, porém está em nosso espaço-tempo tido como infinito;
tipo 2. É um universo em bolhas cada qual com seu universo mas vagando pelo espaço, sendo sua estrutura fractal. Os universos do tipo 1 estão aqui contidos;
tipo 3: Está junto com nosso universo, porém em outra dimensão, existindo em número infinito, separados por diferenças quânticas;
tipo 4: universos em membranas ou flutuações quânticas que podem ser regidos por leis bem distintas, ou seja, os 6 números aqui apresentados variarem.


Estes tipos de universo será melhor explicados em futura postagem, uma vez que o assunto é muito complexo e foge ao escopo deste tema.

A abordagem até então existente é a teoria das super-cordas, a qual propõe a unificação de todas as forças as três do micro mundo (nuclear forte, nuclear fraca e eletromagnética), além de considerar partículas elementares e a gravidade como item essencial.

Esta teoria trata as entidades fundamentais do universo não como pontos mas como aneis entrelaçados de conrdas, sendo as partículas nucleares diferentes formas de vibração destas cordas e sua escala é da orde do comprimento de Planck. Estas cordas vibram em um espaço com dez dimensões, sendo que seis estão embrulhadas no comprimento de Planck e quatro delas estão expandidas (as três espaciais e o tempo).

A partir de 1995, a teoria ganhou novo impulso, pois percebeu-se que as dimensões adicionais podem se enrolar em apenas 5 classes de espaço hexadimensional, podendo em um nível matemático mais profundo serem estruturas separadas, mas relacionadas e encravadas em um espaço de 11 dimensões.

O conceito de cordas também foi ampliado para incluir superfícies bidimensionais, as membranas. Um espaço com dez dimensões pode incluir bibranas, tribranas, tetrabranas e assim por diante. Mas a barreira para tal é que ainda não podemos observar estes fenômenos, sendo que nos resta aceitarmos o que a matemática nos demonstra.

A teoria das supercordas une a teoria da relatividade à física quântica, pois a teoria geral de Einstein interpreta a gravidade como uma curvatura em um espaço-tempo tetradimensional, o que a embute inevitavelmente na teoria das super-cordas, fazendo naturalmente surgir a conexão entre a gravidade e o princípio quântico.

A partir da exposição acima, ainda resta a pergunta: "O que é a afinação?"

Em nosso universo uma intrincada complexidade se desenvolveu a partir de leis simples com a aparente afinação de nossos seis números.

Uma afirmação do tipo tacanha seria que não poderíamos existir se estes seis números não se ajustassem de maneira especial.

Isso leva a argumentos como o do filósofo John Leslie apresentado no texto sob análise, no que concerne ao de enxergar a probabilidade ínfima acontecer ocorrer de fato como algo especial, sob intencionalidade. Porém, a placa especial do carro ou qualquer outra placa teriam a mesma chance de ocorrer. Mas aos nossos olhos se parece algo especial.

Tal como se eu jogar na mega-sena os números 1, 2, 3, 4, 5 e 6 ou 23, 15, 37, 44, 48 e 5. Aparentemente a primeira sequência aos nossos olhos parece a mais improvável, mas não é. Ambas possuem a chance de ocorrer dada por ( p = 1/C60,6). Assim, o argumento de John Leslie não faz sentido.

Mas, há uma diferença: Quanto a questão da mega-sena, as probabilidades são conhecidas, uma vez que conheço o fenômeno que as rege (o sorteio). Mas e para o Universo? Como tratar a questão probabilística se não conhecemos (pelo menos ainda) o fenômeno ou os fenômenos que o originaram? Não seriam os 6 números acima propriedades para que o Universo ou Universos se formem? E caso estes dados se alterem e provoquem uma nova "afinação"; não poderia haver um Universo igual ou ligeiramente diferente deste?

A resposta é: NÃO SABEMOS. Ainda estamos engatinhando no que se refere a muitas formas de conhecimento, os quais são frequentemente contestados pelso fundamentalistas como se a causa para tudo fosse deus, designer dentre outros nomes para seres supremos.

Logo, o argumento de Leslie se esteia naquele proferido por Paley de que há um criador que formulou o universo com a intensão de nos criar, o que se trata do princípio antrópico fraco. O princípio antrópico forte afirma, em geral, que o Universo comportou-se de forma a adaptar-se ao Homem. O fraco diz que o Universo comportou-se de forma a surgir o homem, sem esse pleito pré-definido.

John Polknghorne defende uma variante do argumento de Paley, defendendo que o Universo é um lugar especial e precisamente afinado para a vida, porque é a criação de um "criador" que deseja que ele seja assim (!?).

Mas deixando de lado as perspectivas providenciais, resta-nos aquela em que nosso big bang pode não ter sido o único e que universos distintos podem ter surgido ou surgem, sob o domínio de leis distintas e definidos por números diferentes dos do nosso Universo.

Isso não parece ser uma hipótese econômica que passasse pela "navalha de Ockham" (a ser analisada mais adiante), mas deduz-se a partir de teorias que sugerem nosso universo como apenas um átomo selecionado a partir de um multiverso infinito.

Para estes multiversos, suas leis básicas são mais tolerantes, pois propiciam que eles evoluam de formas diferentes, sob números diferentes daqueles cruciais para a formação do nosso Universo. Estes universos podem mesmo apresentar números de dimensões diferentes do nosso (quantas das 9 dimensões iniciais se tornaram compactas e quantas se desenrolaram).

Pode haver uma microfísica distinta em espaçõs tridimensionais com "L" representado por diferentes valoresque dependerá do espaço hexadimensional no qual as demais dimensões se enrolam. pode haver valores diferentes para "o" e "Q" oque afetaria seu ciclo de duração e que tipo de estrutura se formaria nele.

Pode ser que "L" e "e" estivessem fora de seus intervalos e assim a química e a formação de galáxias, estrelas e planetas não ocorresse. Pode ainda ser que N seja ou maior ou menor que 10^36 e influa no tempo de duração das estrelas ou mesmo em sua formação.

Portanto, para que haja um "Universo interessante", tem de haver um grande número de átomos, uma longa extensão temporral, ter ocorrido uma inflação com "L" da ordem de 120 vezes ao que é hoje, o que dá três soluções para o enigma do decaimento de "L":

1 - a microestrutura do espaço, que talvez envolva um conjunto de minúsculos buracos negros interligados, como uma espuma, se ajuste para que este decaimento ocorra;

2 - o decaimento seria graduale rastreia a densidade da amtéria comum, o que não seria coincidência o vácuo ter agora o mesmo "peso" que a matéria comum na formação de "o", de modo que este seja da ordem de 0,3, mas o vácuo ainda tenha energia para produzir os 0,7 restantes para levar a densidade geral até o valor crítico requerido para um universo chato;

3 - pode-se imaginar que "L" neutralize a gravidade em uma densidade particular, conforme o universo estático de Einstein. assim, à medida que o Universo se expande, o material comum fica mais difuso e a densidade cai para valores abaixo de certo limite. Portanto, a repulsão passa a ganhar da gravidade. Para o multiverso, "L" varia entre muitos valores possíveis, sendo determinado por como as dimensões se enrolam. Nos demais universos "L" apresenta um valor maior que o do nosso Universo. Entretanto podemos fazer parte do subconjunto de universos propícios a formar galáxias e que possibilite a vida complexa.

Assim, se as leis básicas determinassem de maneira única que nenhum outro tipo de Universo fosse matematicamente consistente com estas leis, teríamos de aceitar a "afinação" como fato puro e simples ou como obra divina. Por outro lado, as teorias apontam para um multiverso cuja evolução é marcada por repetidos big bangs, o que permite a diversidade nos universos individuais.

Portanto, seja filosófica como cientificamente, o argumento do designer não é adequado a qualquer especulação acerca do universo.

Primeiro pelas premissas com as quais o raciocínio é apresentado serem falaciosas, pois a resposta da conclusão já se encontra implícita nas premissas.

Segundo porque o designer simplesmente não explica nada acerca da formação do universo nem de qualquer coisa.

Terceiro porque sua presença exige um propósito, uma vez que todos os fenômenos naturais passam a ser fenômenos, conscientes conforme os desígnios de uma inteligência superior.

Quarto, porque fugir da explicação sobre a pessoa do designer em si, é o mesmo que fugir da pergunta "quem" fez os artefatos encontrados pelos nossos astronautas, "de onde" este ser veio, "o que" veio fazer aqui, "por que" veio aqui, "como" veio até aqui, conforme dado pela analogia feita pelo texto, ou seja, dizer "foi o designer" não responde nada. Trata-se de um argumento da ignorância do tipo: "É porque é e ponto."

Quinto, porque a idéia que o Universo é desenhado é algo subjetivo, sendo que as diferentes observações no mundo natural podem produzir diversas teorias sobre sua existência e desenvolvimento. As evidências para o designer são calcadas em analogias com os propósitos humanos. Todavia estes requerem ordem, o que não ocorre no universo, o qual é governado pelo caos. Desse modo, a ideia do designer se esvai, também por analogia.

Sexto, porque a ideia de um designer não dispensa explicações naturais acerca de um processo natural. Simplesmente acrescenta mais uma hipótese à explicação, sendo tal hipótese plenamente dispensável.

Sétimo porque a hipótese de um designer elimina o caráter zetético da ciência e lhe confere um aspecto dogmático em que se parte de uma petição de princípio ( foi o designer) para se traçar uma explanação acerca de um fenômeno natural qualquer.

Oitavo: abandonando-se a ideia de multiverso como propõe o texto, como poderia existir um designer antes da formação do universo? Então este designer seria nada mais que um deus ou algo parecido, uma vez que seria atemporal, adimensional e não estaria em lugar algum, portanto não existiria.

Assim, podemos claramente perceber que o designer, projetista cósmico, arquiteto do mundo, demiurgo, etc, nada mais é que um eufemismo para a palavrinha deus. Ou seja, o DI nada mais é que um criacionismo requentado, em que o designer é assim chamado a fim de dar uma maqueada em seu conteúdo religioso e assim seus proponentes terem a pretensão de elevá-lo ao caráter de ciência.

domingo, 30 de maio de 2010

Fundamentalismo cristão e a embrulhada na aposta de Pascal















Um tema sob a denominação de “Estão Avacalhando a Aposta de Pascal”, extraído daqui, muito me intrigou em sua argumentação.

O autor do texto aparenta não conhecer o contexto em que tal aposta fora feita por Blaise Pascal, uma vez que faz uma tremenda embrulhada, demonstrando um conhecimento nulo no que concerne à teoria dos sistemas e sua aplicação dentro dos diversos planos do conhecimento humano e ao próprio contexto em que fora formulada a aposta.

A Aposta de Pascal se encontra no título 233 de Pensamentos, obra de Blaise Pascal. Quem quiser conhecer a vida deste brilhante pensador, basta acessar aqui.

A obra Pensamentos, em si se trata de uma série de considerações pessoais acerca da fé professada por Pascal. No entanto, o autor deixa claro que não pretende ter a logicização da fé, mas que apenas devemos crer pelo simples fato de crermos.

Quem tiver a curiosidade de ler esta magnífica obra (sim, magnífica, não estou de gozação), poderá perceber que se trata de um grande esforço deste pensador em justificar suas crença, o Jansenismo, frente à Igreja Católica.

O Jansenismo era uma doutrina não muito bem vista pela Igreja. Assim, suas idéias eram um tanto que antagônicas às da Igreja de sua época e, portanto, por ela não muito bem aceitas. O Jansenismo possuía um viés político e de postura dogmática extremada. Ou seja, não estava aberto a novidades.

Assim, a aposta em si e a obra Pensamentos foram delineadas no contexto jansenista, o que acaba por caracterizá-la como uma visão fechada do que pode ser deus, o além e a alma. A aposta representa o seguinte raciocínio: “se A e B, então C, do contrário D" o que será visto mais adiante.

A aposta de Pascal possui 3 premissas:

Uma é a imortalidade da alma e a outra e o fato de crer-se no deus bíblico. Ambas lhe concedem a glória divina se a terceira premissa se verificar (a existência do tal deus bíblico).

Mas vejamos:

Caso sejamos imortais, para termos um pós-vida e creiamos neste deus ou deuses durante nossas vidas e, após a morte, o que garante que no além encontraremos um deus ou deuses? Veja que uma premissa (ser imortal ou crer neste deus ou deuses) não garante que este deus ou deuses exista (am).

Quanto à aposta, Pascal brinca com as probabilidades, sob o seguinte raciocínio:

Se eu tiver uma chance de ganhar a vida eterna (o infinito) em milhões de outras chances em que nada ganharei, vale a pena apostar.

Segue a aposta de Pascal, conforme extraído de Pensamentos:

*Se você acredita em Deus e nas Escrituras e estiver certo, será beneficiado com a ida ao paraíso.


* Se você acredita em Deus e nas Escrituras e estiver errado, não terá perdido nada.

* Se você não acredita em Deus e nas Escrituras e estiver certo, não terá perdido nada.

* Se você não acredita em Deus e nas Escrituras e estiver errado, você irá para o fogo eterno.


A aposta de Pascal se denomina argumento ad baculum ou da força, bem como é um falso dilema, pois somente dá duas opções (crer ou não no deus judaico-cristão -o deus que Pascal reconhecia).

Entretanto, contrariu sensu ao que o texto sob crítica faz, não podemos simplesmente ignorar outros sistemas religiosos e tomar esta aposta com apenas duas alternativas: crer no deus cristão ou não crer.

Não adianta fazer um corte metodológico, como propõe o autor do texto, a fim de que a aposta se restrinja ao deus reconhecido por Pascal. Isso seria ignorar os demais sistemas religiosos.A aposta, em si, trata realmente em se crer ou não no deus cristão.

Devemos reconhecer e ter compreensão histórica de que este deus era o único reconhecido pelo sistema religioso europeu, vigente e ratificado à época do filósofo. Assim, a aposta pode claramente ser direcionada não somente àqueles que professavam (às escondidas) outros cultos, mas também a ateus viventes nas regiões européias.

Atualmente, não podemos encerrar esta aposta apenas para o mundo cristão, o único que era reconhecido como verdadeiro e obrigatório de ser seguido pela sociedade em que Pascal vivia e para o contexto no qual ela foi proposta por seu autor.

Afinal, houve o contato com muitas culturas e todos sabemos que onde os.cristãos chegaram, impuseram suas crenças sob a espada contra os que resistiram e dando uma condição de seres inferiores àqueles que a adotaram.

Há que se considerar também que em solo europeu havia certa proibição em se professarem outros credos que divergissem daquilo que a Igreja dizia (os judeus que o digam, os hereges e as brigas entre protestantes e, católicos, idem).

Portanto, para a atualidade, em que temos de conviver com a diferença, uma vez que finalmente entenderam a liberdade de crença como um direito fundamental da pessoa humana (isso não é um pleonasmo, é corrente seu uso no direito), há que se considerarem os diversos sistemas religiosos em todas as suas nuances, sejam eles do passado anteriores a Pascal, de acordo com nossas descobertas arqueológicas, sejam aqueles posteriores ao filósofo.


A aposta de Pascal deveria, em tese, ser vislumbrada à luz de cada um destes sistemas, o que demonstraria suas falhas gritantes em termos de ser logicamente válido, bem como no que concerne na veracidade das premissas adotadas (verdadeiras apenas para o pensamento judaico cristão islâmico e, com reservas).

Por exemplo:

Sistema judaico: não aceitam o novo testamento como escrituras.

Sistema Islâmico: idem e, ainda, possuem o corão como escrituras.

O que dirá de sistemas como o budista, o afro, o indígena o das religiões do extremo oriente, etc.


O falso dilema de Pascal:

Conforme a existência de outros sistemas religiosos e, por Pascal ter ignorado o que eles propõem, após a morte (reencarnação, vagar pela terra, descanso eterno, finalismo, ida ao valhala, ao samsara, às nuvens, ao mar, as estrelas), que se traduz em não necessariamente ir-se ao céu ou ao inferno, a aposta em si é um falso dilema.

Na verdade a aposta de Pascal exclui outras hipóteses como:existirem outros deuses; qual a forma correta de se adorar este deus que ela descreve; se em vez de céu e inferno, como pregam os cristãos protestantes existir um mundo dos mortos, como pensavam os gregos; ou a existência de um mundo dos espíritos, segundo os espíritas; ou ainda a existência de um purgatório, como dizem os católicos; ou a existência de diversos níveis de evolução espiritual como dizem os budistas e hinduístas.

Quando confrontamos a proposta de crença no deus que Pascal reconhece como verdadeiro, se estivermos errados quanto a este deus? E caso seja outro ou outros que estiver/ estiverem no comando?

A aposta de Pascal mais uma vez se esvai.

Ou seja, de raciocínio lógico (validade/invalidade), bem como na concretude de suas premissas, para a variedade de sistemas religiosos existentes (veracidade/falsidade), o argumento em si não possui nada. É uma falácia.

Não nego ser a aposta dele valida ao sistema do cristianismo, também com ressalvas, uma vez que no catolicismo existe uma zona de reabilitação da alma, denominada de purgatório.

Não vejo ser a descrença em deus ou nas escrituras como um pecado que levaria diretamente ao inferno, pois tal pecado seria bem mais leve que muitos pecados dignos do purgatório.

Dessa forma, somente sistemas religiosos que ignoram outros sistemas e que assumem a sua verdade como aquela acima de tudo é que consideram a aposta de Pascal não somente válida sob o ponto de vista lógico, como verdadeira quando do exame das premissas adotadas.

Em suma, admiro Pascal pelo seu gênio na matemática e na física, bem como pela beleza de suas obras filosóficas, mesmo considerada toda a apologia religiosa existente em Pensamentos.No entanto, sua aposta sequer deve ser entendida como algo que mereça credibilidade, exceto naqueles segmentos onde se esteia o fundamentalismo de certas seitas menores do cristianismo.


Como disse um colega lá do Clube Cético:

Mesmo que se queira dar uma enorme "colher de chá" para a Aposta de Pascal e partir da hipótese de que o deus da aposta é esse e que você o está cultuando da forma correta (já que muitas seitas cristãs partem do princípio de que são a única verdadeira e as outras são heresias - você vai para o inferno só por não ser seguidor da "interpretação" correta), ela ainda sofre de um problema mortal.

Parte do princípio de que Deus é tão desesperado por adoração que vai automaticamente mandar para o paraíso um cristão falso que o adora apenas por não ter nada a perder. Se existe mesmo o tal deus judaico-cristão não há qualquer garantia de que ele vai se comportar dessa forma mesquinha tão típica dos humanos.

Então, partindo disso, eu poderia dizer que a aposta tem mais dois resultados possíveis:Se você aposta na crença e Deus não gosta desse tipo de atitude mercenária, você vai para o inferno tal qual o ateu.

Se você aposta na crença e Deus não só não gosta dessa atitude mercenária como a considera um pecado mortal e, por outro lado, dá enorme valor a franqueza e honestidade de caráter, você vai para o inferno por sua hipocrisia e o ateu vai para o céu.
Claro, se eu não quiser dar tanta "colher de chá", surgem outras possibilidades interessantes. Por exemplo, já pararam para pensar na hipótese de que talvez Deus tenha profundo ódio por quem o adora da forma errada e segue heresias das falsas interpretações do verdadeiro cristianismo (seja ele qual for) e esteja pouco se importando com os ateus, já que eles não o adoram, mas também não o ofendem com falsos cristianismos?

Nesse caso é mais seguro ser ateu. Ser cristão seria como brincar de roleta-russa com 5 balas no tambor, enquanto ser ateu é roleta-russa sem balas.
Se fosse possível provar a existência de Deus por meio de argumentos não seria necessária qualquer aposta. Isso porque ela é antes de tudo um argumento do tipo "Ok, você venceu! Não posso te provar que Deus existe. Mas pelo menos você tem que concordar comigo que o mais sensato a fazer é acreditar na sua existência, "just in case"". Ou seja, é apenas uma tentativa final desesperada de cooptar o seu interlocutor quando a sua argumentação em prol da divindade falha por absoluta falta de qualquer evidência.


Como disse outro colega:

Em Philosophy & Phenomelogical Research, um artigo de Larimore Nicholl, considera o argumento de Pascal como imoral e epistemologicamente irresponsável e critica os utilitaristas por apoiá-lo.

O próprio raciocínio de Pascal ao meu ver vai contra os fundamentos (ao menos os expostos) cristãos... acreditar para tirar proveito do mesmo dentro da concepção católica não garantiriam uma ascensão divida.

Mas se seguirmos o raciocínio dele, e se levarmos em consideração a infinidade de religiões e deuses, o que melhor garantiria uma boa pós-vida (levando também em consideração que se Deus existir ele não se importar em crer por oportunismo) seria não ter uma religião e crer numa força genérica, compreensiva e boa. Pois seria um tiro no escuro apostar na existência de algum Deus intolerante do tipo: "acredita em mim vai pro céu, acredita em outro vai pro inerno".

Caso acredite num deus genérico, bom e compreensivo, certamente compreenderá que na Terra existem tantas religiões que seria impossível escolher alguma, e por ser genérico você não perderá ou se reprimirá por dogmas impostos... logo não teria o que perder, mas teria o que ganhar.

Conclusão:

Assim, há que se considerar que o contexto da aposta de Pascal é cristão jansenista e não ecumenista, o que a anula de pronto frente às diferenças hoje existentes em termos religiosos. Portanto, temos de analisar o texto de acordo com seu contexto e, jamais, aplicá-lo indiscriminadamente a qualquer situação, da vida, da sociedade, de culturas, ou realidade, como fazem certas marcas de cristão.

A aposta vale, desde que o indivíduo seja um cristão jansenista ou um fundamentalista protestante. sem o mínimo de senso crítico. Todavia, ela perde seu valor se colocada frente aos diversos sistemas culturais, filosóficos, sociais e religiosos hoje reconhecidos e frente à dinamicidade social, o que não mais permite tal corte metodológico, como fizera Pascal ao propô-la.

Mas, analisemos: Seria este o tema da aposta de Pascal?

“Independente de ser quem você é de fato, basta acreditar que está tudo certo”.

Acredito que se existir algum deus, não é nada disso. O que será visto e pesado, serão suas atitudes e o que de fato existe em seu interior.

Então, faço um apelo a todos, inclusive aos religiosos hipócritas:

Removam suas máscaras de bonzinhos para os outros, principalmente para aqueles do seio de vossa igreja; apostem em ser pessoas boas, francas, éticas, solidárias e sinceras. Porém, jamais tenham tais atitudes para barganhar com os deuses e sim para fazer do nosso mundo um mundo melhor.


Stupid Design

Dr. Neil De Grasse Tyson fala neste vídeo sobre o "Design Inteligente" melhor classificado como Design Estúpido.

Vejamos porque:





O Dr. Neil deGrasse Tyson é um astrofísico norte-americano e, desde 1996, o Diretor do Planetário Hayden no Museu Americano de História Natural em Manhattan's Upper West Side.

Tyson escreveu, ao longo de sua carreira profissional, diversos livros populares sobre astronomia. Já participou de diversas séries televisivas sobre o Universo. Ele foi condecorado com a Distinguished Public Service Medal, a maior honra civil conferida pela NASA.

Seu site oficial se localiza aqui.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Ainda a Verdade Absoluta - Parte IV

A verdade:


A palavra verdade pode ter vários significados, desde “ser o caso”, “estar de acordo com os fatos ou a realidade”, ou ainda ser fiel às origens ou a um padrão.

Para Nietzsche, a verdade é um ponto de vista. Ele não define nem aceita definição da verdade, porque não se pode alcançar uma certeza sobre a definição do oposto da mentira.

Sobre os tipos de verdade tem-se:

Verdade material é a adequação entre o que é e o que é dito.

Verdade formal é a validade de uma conclusão à qual se chega seguindo as regras de inferência a partir de postulados e axiomas aceitos.

É uma verdade analítica a frase na qual o predicado está contido no sujeito.

É uma verdade sintética a frase na qual o predicado não está contido no sujeito.
Sofisma é todo tipo de discurso que se baseia num antecedente falso tentando chegar a uma conclusão lógica válida.

Definir a verdade não é tarefa fácil.

Pode-se compreende-la como uma interpretação mental da realidade transmitida pelos sentidos,e confirmada por equações matemáticas e regras lingüísticas formadoras de modelos capazes de preverem ou predizerem acontecimentos sujeitos a determinadas regras.

A verdade pode também ser compreendida como um resultado lógico (verdadeiro ou falso) de uma operação mental que depende de dois tipos de conjuntos de juízos: juízos a priori e a posteriori.

Os juízos a priori são conhecidos pela mente antes da realização da experiência, exemplo: a linha reta é a menor distancia entre dois pontos.

Os juízos a posteriori dependem do resultado final de uma experiência científica, que deve ser realizada inúmeras vezes para que exista a comprovação de que um fenômeno sobre determinadas condições só produz um único tipo de resultado que pode ser verdadeiro ou falso.
Todavia, há que se lembrar que não existem mecanismos científicos totalmente eficazes de se prever qualquer acontecimento, pois a realidade poder ser alterada por elementos imprevisíveis ao conhecimento humano.

A verdade, nesta visão pode ser compreendida como um fato, que só é real depois de confirmado ou refutado pelo uso da razão.

Dessa forma, é melhor compreender a verdade em suas formas, conforme segue:


1- Verdade científica (ver/perceber):

É aquela aplicada às ciências naturais. Algo se torna cientificamente verdade se não for rechaçado por testes que confirmem o contrário. Assim, mesmo nas ciências naturais, nada é 100% verdade, mas tende a sê-lo caso sempre as hipóteses formuladas acerca do problema se confirmem, segundo estabelece o método Popperiano.

Neste ponto, o verdadeiro é o ser (aquilo que é), ou seja, a verdade é uma manifestação dos seres à visão humana, por ser uma qualidade das coisas ao mostrarem-se a si mesmas, o que significa que verdade é a manifestação da realidade.

Para este tipo de verdade, há a necessidade da evidência, a qual se trata da visão intelectual e racional da verdade, o que é a marca do conhecimento verdadeiro, calcado na visão intelectual e racional da realidade de como ela é em si mesma.

Assim, a idéia é verdadeira quando existe fora de nosso espírito ou de nosso pensamento, sendo que nosso intelecto deve estar adequado às coisas, representadas pelas idéias.

2 - Verdade matemática (abstrato):

As ciências são calcadas no método indutivo (é experimental e parte-se do particular para se estabelecer uma lei geral) e no método dedutivo (parte de idéias e verdades abstratas gerais das quais se extraem leis ou conseqüências menos gerais ou equivalentes).

O método dedutivo é racional uma vez quer parte de uma proposição geral para chegar a uma conseqüência particular. Seu ponto de partida é um princípio tido como verdadeiro a priori. Seu ponto de chegada é a tese ou conclusão, que é aquilo que se deseja provar.

O método indutivo é o raciocínio que se baseia em observação de fenômenos e fatos da realidade objetiva e estuda as leis que os regem, como seu ponto de partida. Seu ponto de chegada é o estabelecimento de leis ou regularidades regentes dos fatos e dos fenômenos analisados. É o método científico por excelência e, por isso, o método fundamental das ciências naturais e sociais.

Um princípio é uma proposição (tese ou teoria) muito geral, fundamental, suficientemente demonstrada e por essa razão considerada verdadeira, da qual as leis já descobertas podem ser consideradas como consequências. Por exemplo, o princípio da conservação da energia.

Uma lei é o enunciado de uma relação necessária e constante entre fatos e fenômenos, relação essa decorrente da natureza interna das coisas, isto é, de sua essência. Por exemplo a lei da gravitação universal.

As matemáticas são essencialmente dedutivas, sendo seu princípio basilar o da identidade e, consequentemente o da não contradição de onde se extraem os axiomas.

Desse modo, a matemática não estuda noções empíricas, mas noções ideais, construídas por definições, sendo sua linguagem sintática (relação dos signos consigo mesmos, que busca coerência e pertinência recíprocas, sem atender em princípio, os fatos do mundo exterior) e não semântica (relação dos signos com o mundo, que busca sua relação de referência com as realidades empíricas).

Vale aqui a digressão acerca da construção da matemática.

O aparecimento dos números depende das diversas necessidades dos povos. Assim, a criação de certos tipos de conjuntos numéricos se coadunam a determinadas necessidades. À medida que tais necessidades evoluem, há a imposição de satisfazê-las e assim, criam-se novos números, desenvolvendo-se sua teoria.

Este processo de construção é denominado sintético.

Por exemplo, na antiguidade não se conhecia o zero e algo como 1-1 não possuia qualquer significado. Apenas se conheciam os números naturais N = {1,2,3...n}. Depois passamos a ter os números naturais incluído o zero N* = {0,1,2,...n}

Ao aprendermos a subtração surge o conjunto dos números inteiros Z = {-n ...-2,-1, 0 ,1,2,...n}.

Ao aprendermos operações com a divisão, surgiram os números racionais Q = {...-2, -3/2, -1 -3/4, 0, 1/2, 1...}

Após estes surgem os números reais R = {... -2, -(2^(1/2)), -1, 0, (0,9^(1/3)), 1, 2,5, e....}

Devido a necessidades impostas pela eletrônica, surgem os números complexos I = {...-1, -(-1^1/2), 0, 1 , (-2^(1/2))...}.

Criada e desenvolvida a teoria pelo processo sintético, os matemáticos passaram a querer purificar tal teoria. Ou seja, eliminar causas estranhas à matemática que impusessem o desenvolvimento da teoria. Assim, passou-se a definir e a construir a teoria com recursos somente da lógica.

Este processo é denominado de analítico ou axiomático.

Por esta teoria, existem proposições que se demonstram ou são demonstráveis, as quais são denominadas de teoremas. O teorema é ou pode ser consequência lógica ou necessária de outros teoremas, previamente estabelecidos, que por sua vez devem ser provados e assim por diante, o que determina uma corrente de proposições unidas entre si.

Mas até onde esta corrente deverá ser prolongada? É impossível uma regressão infinita. Assim há que parar-se em uma determinada ou determinadas proposições.

Estas proposições são admitidas a priori, sem demonstração, daí serem chamadas de proposições não demonstradas, sendo elas o primeiro elo da corrente que construirá o raciocínio matemático.

Estas proposições não demonstradas são meramente aceitas como verdadeiras e se denominam axiomas.

O axioma, no sentido restrito de princípio lógico e racional, é uma proposição evidente por si mesma, aceita como verdadeira e sem demonstração. Serve de ponto de partida para a construção de um sistema hipotético-dedutivo. Assim, na matemática, os axiomas não se tratam de juízos sintéticos a priori (aqueles em que não se pode chegar à verdade por pura análise de suas proposições) e nem de fatos experimentais, são, conforme a acepção de Henri Poincaré, meras convenções.

O conceito tradicional de axioma estabelece que este é uma proposição de evidência absoluta por si mesma, indemonstrável, por ser o princípio e a condição de toda a demonstração.

Além das proposições não demonstradas, há também as proposições não definidas ou entes primitivos, os quais devem ser aceitos uma vez que há a impossibilidade de reduções infinitas a partir de noções mais complexas para as mais simples, seja por demonstração, como por definição.

Um exemplo, é a noção de conjunto, a qual não apresenta definição.

O estudo axiomático dos números naturais é devido ao matemático Peano que considerou os seguintes entes matemáticos como noções não definidas ou primitivas:

o número natural;
o número 1;
o número que é um sucessor;

Peano afirmou também que os números naturais devem satisfazer as seguintes proposições não demonstradas ou axiomas:

- o número 1 é um número natural;
- para cada número natural "a" existe exatamente um outro número chamado sucessor de "a" representado por "a´";
- o número 1 não é sucessor de nenhum número natural;
- se dois números naturais possuem um mesmo sucessor eles são iguais;

Disso tudo resulta o postulado da indução matemática, conforme segue:

Se A for um conjunto de números naturais tal que:
a) o 1 pertence a A,
b) o fato de um número natural "a" pertencer ao conjunto A, implica que seu sucessor "a´" também pertence a ; então o conjunto A conterá todos os números naturais.

A partir deste postulado, temos o processo de formação dos números que é feito pela adição de 1 ao número anterior para obter um novo número do conjunto.

A respeito do postulado, em seu conceito também tradicional, este é uma proposição não absolutamente evidente e nem demonstrável, mas se trata de uma verdade legítima, estabelecida, também por convenção, sem violar qualquer princípio de razão ou de lei formal de pensamento. Por exemplo, por um ponto fora de uma reta, não se pode traçar senão uma e apenas uma paralela a esta reta (postulado de Euclides).

A convenção se trata de um ajuste, um acordo sobre determinado assunto ou fato. Ela dá valor, sentido ou realidade a uma questão, mediante acordo recíproco ou explicação prévia. Assim, para que axiomas e postulados sejam aceitos como verdades, os matemáticos se reunem, discutem e chegam a um acordo sobre sua aceitação.

Mas seriam estes conceitos dogmas das ciências? É claro que não.

O dogma é uma proposição indemonstrável e indiscutível aceito na base somente da crença e da fé, sem a participação crítica da razão ou da confirmação científica. Por exemplo, o dogma da criação do mundo pelos deuses, o dogma da imortalidade da alma, o dogma da ressurreição de Jesus.

O dogma difere do postulado e do axioma, uma vez que estes são aceitos por convenções, onde muito se discute e podem ser revistos ou variar, como veremos mais adiante. Já o dogma encontra-se blindado a qualquer discussão ou revisão de seus conceitos.

No entanto, o conceito de axioma varia, conforme o espaço onde lidamos (plano, esférico e em cela) e com o sistema matemático a ser aplicado. E, portanto, o mesmo ocorre com os postulados e teoremas aplicados aos diversos tipos de espaço ou sistema matemático. Assim, a evidência mediante a intuição axiomática não é mais aceita como base para a certeza veritativa.

A fim de que se aceite determinada proposição como axioma, exige-se a manutenção da coerência nas deduções de outras proposições, o que forma um sistema.

A doutrina é um conjunto de teorias e de princípios que servem como bases a um sistema científico ou filosófico, por exemplo, a doutrina do epicurismo.

Um sistema é um conjunto de teorias e princípios científicos ou filosóficos que constituem um todo orgânico, cujas bases se esteiam nas doutrinas.

Atualmente, vemos a geometria plana como algo relativo em função de novas convenções nascidas do avanço da geometria e da matemática, no que concerne aos espaços esféricos, em cela, de Hilbert, de Kolmogorov, em relação à álgebra vetorial, da teoria dos grupos e dos anéis.

Dessa forma, o conceito de axioma perdeu sua expressividade puramente objetiva, como algo de per si evidente, para ser considerado como axioma, mediante convenção, ou pelo menos mediante um acordo sobre determinado ponto de partida.

Assim, passa-se a ter elementos oriundos do acordo, da convenção e da suposição, ou seja, elementos pertencentes à subjetividade volitiva.

Portanto, renuncia-se a capacidade absoluta da razão a qual intui o axioma como algo objetivo e independente que qualquer lampejo de subjetividade.

Em uma identidade concebida pela razão, o axioma, sob a ótica tradicional, é essencialmente a priori e analítico, daí não poder ser rejeitado sem que se caia na contradição.

Já o postulado tem caráter sintético e a posteriori, uma vez que acrescenta ao sujeito a idéia de alguma propriedade especial, revelada pela experiência. Assim, o postulado pode ser negado sem que se caia na contradição.

Na geometria plana, a linha reta é o caminho mais curto entre dois pontos. Porém, tal idéia está plenamente subvertida para o espaço esférico e em cela.

Quando afirmamos que 2+2=4, isso ocorre porque há provas matemáticas para tal em teoria dos números, conforme explanado acima, a partir dos axiomas propostos por Peano.

Logo, tais provas derivam de axiomas e postulados da álgebra. Porém, uma simples operação de soma muda por completo suas características quando adentramos a álgebra vetorial, ao cálculo tensorial, à teoria dos grupos, dos nós e à dos anéis ou mesmo se estivermos lidando com sistemas diferentes do decimal, como o binário, sexagesimal ou octagesimal.

Por exemplo, a = 2 + 2; se forem módulos de vetores teremos que:

a = { (2^2) + (2^2) +2*(2)*(2) cos(x)}^(1/2), sendo x o ângulo formado entre estes vetores.

Se estivermos em sistemas de base qualquer, por exemplo base 2, teremos que:

2 + 2 = 4 será dado por: 10 + 10 = 100

Em base 3 teremos:

2 + 2 = 11

em base 4 teremos:

2+2 = 10

Assim, para uma simples soma, nossa verdade depende de em que sistema nos encontramos, se no sistema decimal ou se em qualquer outro sistema de bases, ou se em um tipo diferente de álgebra.

Em geometria a coisa ainda fica mais emocionante:



Suponhamos um triângulo no espaço plano (euclidiano). Qualquer um sabe que a soma de seus ângulos internos perfaz 180 graus.






Mas se estivermos em um espaço esférico;













Ou em um espaço em cela , o hiperbólico?




Ai a coisa muda!!!

Para o espaço esférico a soma dos ângulos internos será maior que 180 graus e no espaço hiperbólico, será menor.

Ou seja, nossos axiomas, postulados e teoremas variarão conforme o sistema em que nos encontramos, o que os torna relativos ao sistema em que são utilizados. Ou seja, é a teoria dos sistemas de Luhmann aplicada à matemática, onde um subsistema não se sobrepõe ao outro, mas apenas se comunicam, criam diferenças e estabelecem as fronteiras entre os sistemas.

Assim, cada subsistema deste será importante de acordo com sua função a ser realizada, ou seja, como irá atender a evolução do conhecimento matemático, sendo distinto dos demais subsistemas.


3 - A verdade relatada (falar/dizer):


Esta forma de verdade volta-se a precisão e a exatidão de um relato que diz com pormenores o que aconteceu. Assim, o verdadeiro é a linguagem como narrativa dos fatos, sendo que os enunciados devem expressar fielmente como as coisas aconteceram.

Desse modo, o relato será veraz, quando a linguagem enunciar os fatos reais, sendo que tais enunciados deverão corresponder à verdade. Portanto, os relatos e enunciados sobre as coisas (reais ou imaginarias) é que deverão ser verdadeiros ou falsos.

Esta forma de verdade depende da precisão da linguagem que expressam nossas idéias e acontecimentos ou fatos exteriores a nós. Assim, as idéias serão verdadeiras se obedecerem aos princípios, regras e normas de uma linguagem rigorosa.

Dessa forma, o critério da verdade e dado pela coerência interna ou coerência lógica das idéias ou de sua cadeia formadoras do raciocínio. Tal coerência depende da obediência às regras e leis dos enunciados corretos. Logo a marca do verdadeiro passa a ser a validade lógica dos argumentos.

Há que se salientar que a lógica não possui compromisso com a verdade, mas, apenas, em estruturar um raciocínio. Podemos perfeitamente ter raciocínios válidos com premissas ou conclusões falsas e vice-versa.

Neste ponto, não significa que o raciocínio estruturado seja representante da verdade como naquele referente às verdades científicas. Pode ser falso, no que concerne à evidencia, mas será plenamente válido sob o ponto de vista lógico.


4 - Verdades da confiança (crer/confiar):


Nesta forma de verdade, tanto as pessoas como os deuses é que são verdadeiros, que devem cumprir aquilo que prometem.

A verdade se funda na crença, esperança e confiança de uma promessa.

A maior expressão sobre esta forma de verdade é revelação divina a qual não se justifica, mas é meramente revelada e calcada no dogma da crença. Suas revelações são intrínsecas ao sistema em que cada povo vive, conforme suas respectivas sociedades.

Assim como ocorre com a ideologia, aqui é uma questão de crer ou não crer naquilo que é pregado.

Neste ponto, a verdade depende de um acordo ou pacto de confiança entre os indivíduos, que definem um conjunto de convenções universais sobre determinado conhecimento tido como verdadeiro, sendo que tais regras ou convenções devem ser por todos respeitadas.

Portanto, a marca da verdade será o consenso e a confiança recíprocos entre os membros da comunidade.

O consenso se estabelece baseado em três princípios:

Que somos seres racionais e que nosso pensamento obedece aos quatro princípios da razão (identidade, não contradição, terceiro excluído e razão suficiente – para tudo o que existe há uma causa);

Que somos seres dotados de linguagem e que ela funciona segundo regras lógicas convencionadas e aceitas por determinada comunidade;

Que os resultados de qualquer investigação devem ser submetidos à discussão e avaliação pelos membros da comunidade de investigadores que lhe atribuirão ou não o valor de verdade.

Esta forma de verdade se aproxima da teoria da coerência interna, cuja base são os argumentos lingüísticos e lógicos do discurso da comunicação.


5 - Verdade pragmática:

O conhecimento aqui se torna verdadeiro de acordo com seus resultados e aplicações práticas e é verificado pela experiência. Tal concepção se aproxima da teoria da correspondência coisa/idéia.

Aqui, são os resultados que recebem a denominação de verdadeiros ou falsos, pois há um acordo entre pensamento e realidade.

Feita a explanação acima, passemos as perguntas elaboradas pelo Sr. Jean e o sofisma da existência da verdade absoluta:

Mas respondamos as perguntas elaboradas pelo Sr. Jean:


[“Toda verdade é relativa” (a contradição é simples e para quebrar pergunte: “essa é relativa?”);“Não existe uma verdade absoluta” (você está absolutamente certo disto?”) ]

Até o momento, conforme acima debatido, nenhuma verdade absoluta foi verificada. Lembre-se, nas ciências naturais nada é 100%, na matemática depende em que espaço me encontro, na dialética vale o melhor argumento, independente de ser verdadeiro, e na religião minha verdade varia conforme o credo que professo.

Perguntar se a afirmação "Toda a verdade é relativa" é uma verdade relativa, simplesmente é descabido, uma vez que esta é uma questão aberta e depende muito de questões plenamente filosófico-sociais. A verdade poderá ser absoluta para determinado sistema, mas não para outro, conforme exaustivamente debatemos ao longo deste tópico.

Se o Sr. Jean pensa que não é esta a tendência, deixe a conversa mole de lado e faça o que não fez ao longo de 4 tópicos apresentados na introdução:

Traga-me uma e apenas uma verdade absoluta (válida em qualquer dos campos acima), ou melhor, defina o que é “verdade absoluta”.


Resumindo, a questão levantada pelo sr. Jean não passa de um sofisma.


[ “É verdade para você, mas não é para mim!” (essa afirmação é verdadeira apenas para você ou para o mundo?”).]


Sim, esta afirmação é para o mundo e para tudo que nele há, pois dependendo de onde nos encontrarmos, as verdades variarão muito.

Seja em termos das ciências naturais (física da gravidade na Terra e em um buraco negro), da matemática (a soma dos ângulos de um triângulo esférico, de um plano e de um hiperbólico, o sistema de bases numéricos, a soma de números se vetor ou se algarismo), da dialética (conforme o ponto de vista da escola humana que vc defende, ou do argumento apresentado), na questão do argumento (aquele melhor sustentado) e da religião (sobre os dogmas relativos a cada crença, seus rituais e prescrições); tudo é uma questão de em que sistema nos encontramos.


[É impossível tais afirmações se manterem de pé como verdades uma vez que são falsas em si mesmas.]

 
Bem, isso o autor deve ter retirado de uma demonstração com uma linha de raciocínio errônea, acerca da redução ao absurdo conforme segue:

Tese a ser provada: não existe verdade absoluta: ~ A

Presunção oposta: existe verdade absoluta: A



O sofisma: Não existe verdade absoluta é uma verdade absoluta: ~A = A


A conclusão: Logo, existe verdade absoluta: A


A redução ao absurdo é um argumento lógico por prova indireta, no qual a conclusão é estabelecida mostrando que, presumindo-se o contrário, o resultado será absurdo. Assim, há que se aceitar a conclusão.

O argumento da redução ao absurdo se descreve como:


Tese a ser provada: A

Presunção oposta: ~A

Argumentar que a partir do presumido teríamos de concluir: B

Mostrar que a conclusão B é falsa (o contraditório)

Conclusão: A tem de estar correto



Vejamos o caso apresentado sobre a existência ou não da verdade absoluta:


 
A ser provado: Não existe verdade absoluta: ~A;


Presunção oposta: Existe a verdade absoluta: A;


Argumentar que a partir do presumido teríamos de concluir B; A verdade absoluta tem de ser unânime, ou seja, não só verdadeira como válida para qualquer sistema;


Mostrar que a conclusão B é falsa (o contraditório):


Mas, conforme se percebe, via estudos científicos de ciências naturais (física, química, biologia meteorologia, geologia, etc.), matemáticos, sociológicos, psicológicos, antropológicos, teológicos e a partir da história, quer sejam as verdades cientificas, as verdades matemáticas, as verdades dialéticas e as verdades religiosas, estas variam conforme cada sistema, no decorrer do tempo e a partir de novas descobertas, tanto nas ciências naturais, quanto nas matemáticas. Portanto, verdades unânimes, para todos os sistemas do conhecimento humano não se verificam. Cada sistema assim terá a sua verdade específica.



Conclui: ~A tem de estar correto: Portanto, a verdade absoluta não existe.

Ou seja, como se pode perceber, o argumento anterior à estrutura ora apresentada, não passa de um sofisma, ou seja, não representa uma estrutura lógica de raciocínio e, tampouco, tece qualquer argumento para fundamentar o que deseja provar, no caso a existência da verdade absoluta.


Mas o primeiro raciocínio acima apresentado é falho, pois na redução ao absurdo há a necessidade de premissas que apóiem a sua tese, o que simplesmente não ocorre e, deliberadamente, sem qualquer critério, iguala a tese a ser provada com a presunção oposta, sem qualquer argumento que sustente esta presunção. Ou seja, o argumento que, em tese, sustentaria a presunção oposta é um sofisma.

Como sabemos, a lógica não se compromete com a verdade, mas apenas com a validade ou não do argumento. Assim, as leis da lógica não garantem a demonstração da verdade, pois há que se ter a validade das premissas as quais não são objeto de estudo da lógica, mas de outras ciências.

Tais demonstrações provêm:


Por evidência intelectiva (a intuição racional), no caso dos axiomas ou postulados;


Por argumentações corretas a partir de verdades evidentes quando não forem evidentes por si mesmas;


Por evidência empírico-sensorial, cuja confirmação surge a partir da experiência e da observação, ou seja, intuição sensorial.


Vale-se da lei da não-contradição: uma declaração não pode ser concomitantemente verdadeira e falsa.


Assim, dentro da lógica terá de haver uma relação formal correta entre as premissas a fim de sustentar ou justificar uma conclusão, que é conseqüência daquelas, independente de serem verdadeiras ou não.

Para demonstrar-se a verdade, não basta a validade do argumento, há que se confirmarem as premissas. assim, para se obter um raciocínio sólido (aquele que leva à verdade), a inferência tem de estar correta, bem como as premissas e a conclusão evem ser verdadeiras. Estas são duas condições necessárias e suficientes.


Dai, pelo que se pode notar, os pontos levantados pelo sr. Jean não passam de sofismas, uma vez que se revestem de mera aparência de racionalidade.

Toda sua linha argumentativa se trata de retórica vazia, sem qualquer fundamento seja ele de cunho filosófico, sociológico, científico, empírico, antropológico, histórico e mesmo teológico, uma vez que está calcada em fundamentalismo ideológico-religioso.

Não há qualquer justificativa que respalde seu posicionamento ou que sirva de esteio ao seu raciocínio e as suas conclusões.


 

Conclusão:

Desse modo, conforme o exposto acima, a questão da verdade é algo que merece ser vista sob uma ótica relacionada à teoria de sistemas, ou seja, sob a diferenciação funcional, onde importa a função de cada um dos subsistemas cuja possibilidade de postular prerrogativas de qualquer ordem a outros subsistemas encontra-se obstada.

Também há que se compreender que a questão da verdade é intrínseca ao sistema, uma vez que, cada um deles, cria seus próprios padrões valorativos, que interagem com outros subsistemas, sem, entretanto, se sobreporem uns aos outros.

No que concerne à lógica, esta não tem compromisso com a verdade. Apenas estrutura raciocínios como válidos ou inválidos, sendo que suas premissas, as quais devem ficar a cargo do cientista, é que serão consideradas verdadeiras ou falsas, tornando o raciocínio além de válido, verdadeiro ou falso.

A respeito da verdade, esta é relativa, seja ela uma verdade científica, matemática, argumentativo-dialética ou religiosa, uma vez que cada um destes sistemas se encontra fragmentado em outros sistemas, decorrentes da evolução do conhecimento, bem como da evolução histórica e da sociedade como um todo.

Dessa forma, postular que há verdades absolutas, sem ao menos exemplificar uma delas, sem defini-las, sendo que tal definição deveria estar pautada em bases sólidas é no mínimo sem sentido, exceto que se ignorem os avanços do conhecimento e os diversos sistemas culturais de que o mundo é formado, ao tratarmos de seres humanos e sociedades que se comunicam entre si.

Tal perspectiva de negação de diversas formas de verdade todas aceitas e, muitas delas excludentes entre si, somente partiria de sistemas onde impera o fundamentalismo ideológico-religioso, bem como a ignorância sobre o mundo que nos cerca, sobre a capacidade argumentativa e a consistência dos argumentos de nossos interlocutores, sobre as particularidades que existem, no campo das ciências naturais, bem como da matemática propriamente dita.

Sistemas fundamentalistas negam tudo aquilo que difere de suas sistemáticas de pensar, traduzindo as diferenças, numa visão conspiratória, como ameaças a sua existência e como corrupção de seu modo de ver o mundo. Ou seja, valem-se do argumento ad baculum ( o argumento da força), referente ao pecado, no que concerne à capacidade crítica de pensamento dos indivíduos, a fim de dominarem e imporem seu modo de pensar e suas crenças sem fundamento.

Portanto, o fundamentalismo se nega a corrigir suas posições frente aos outros subsistemas, o que o faz entrar em choque com a realidade e, assim, distorcer aspectos externos ao seu conteúdo a fim de adaptá-los a sua pseudo-realidade.

Logo, tais subsistemas pretendem impor suas prerrogativas sobre outros, ou seja, deliberadamente, buscam subverter outros subsistemas, como a ciência e a educação, por meio de teorias como criacionismo e design inteligente , além de buscar o descrédito referente a outras ideologias e crenças religiosas, estabelecendo como verdades acima de tudo o que suas seitas pregam.

Simplesmente, a negação fundamentalista se aparta da realidade do mundo e ainda se mantém no âmbito da sociedade estratificada, onde a posição da religião, o pensamento de seus líderes e seus dogmas são incontestáveis e verdadeiros acima de tudo.


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