sábado, 5 de junho de 2010

Maus usos da filosofia e ignorância científica Parte 3

TEXTO 3:

Na verdade este ponto não se trata de um texto, mas de uma palestra ou um quiz show em que Lane Craig "O senhor Erística" é a principal personagem.

Vejamos os vídeos e breves comentários sobre eles:

Vídeo 1: Aqui Craig analisa o argumento da contingência o qual diz que o Universo e tudo mais tem de ter uma explicação, devido a sua necessidade ou a uma causa externa, e que para o Universo existir tem de haver uma mente pessoal e transcendente.

Ao comparar a causa da existência das coisas Craig faz falsas analogias, pois compara objetos produzidos pelo homem (mente consciente) com coisas que existem na natureza (processo inconsciente) como se deliberadamente fossem a mesma coisa.

A natureza e o Universo, não demandam uma necessidade para existir, por exemplo, qual a necessidade de Eta-Karina existir? Não tenho a menor ideia, mas quem tiver por favor diga.

Sobre os entes matemáticos, estes não existiam na natureza, mas foram criados pelo homem a fim de representá-la em suas propriedades, por meio de modelos que se aproximam em muito da realidade. Daí os axiomas, postulados, teoremas, conforme tratados aqui.

Craig está correto em afirmar que há causas para as coisas existirem, porém extrapola em seu raciocínio ao colocar como a causa uma inteligência suprema, em vez de assumir que explicações científicas racionais suprem perfeitamente boa parte do que ele acha ser inexplicável. Mas por que motivos esta "consciência superior" teria criado o Universo?

Video 2: Neste ponto Craig analisa o argumento cosmológico. Este argumento é dado por:

(1) Tudo o que existe tem uma causa. (premissa 1)

(2) O Universo existe. (premissa 2)

(3) Portanto, o Universo tem uma causa para a sua existência. (conclusão inferida pelas premissas 1 e 2)

Até aqui, o argumento possui premissas verdadeiras, é logicamente válido e é sólido, pois leva a uma conclusão verdadeira.

Mas vemos ver a sequência deste argumento:

(4) Se o Universo tem uma causa para a sua existência, essa causa é Deus.
Deus aqui surge do nada. Qual é a evidência concreta que atesta ser deus uma causa para o universo?

(5) Logo, Deus existe.
Esta conclusão perde o objeto pela conclusão 2 não ser categoricamente verdadeira e não ter nada que a apóie em termos evidenciais. Tampouco a afirmativa de que deus é a causa do universo guarda relação com as premissas anteriormente expostas.

Vejamos a segunda parte deste raciocínio reestruturada:

Deus existe e é a causa primeira para tudo. (1)

Há uma causa primeira para a existência do universo. (2)

Assim, deus é a causa primeira para o Universo. (C)

No argumento, a premissa (1) é no mínimo duvidosa, não podendo ser tratada como verdadeira pois nada a evidencia.

A premissa (2) é evidenciável, portanto verdadeira.

O raciocínio é logicamente válido pois (1) e (2) inferem (C), há a distribuição do termo médio (causa primeira) de forma correta.

Mas não é sólido, pois (C) não pode ser encarada como uma conclusão verdadeira e pelo fato da premissa (1) ser no mínimo duvidosa.

Como todos já sabemos que a lógica não tem compromisso com a verdade, mas apenas com as estruturas de raciocínio. A lógica apenas preserva a verdade, ou seja, se há premissas verdadeiras e se é aplicada uma forma válida de argumento, obter-se-á uma conclusão verdadeira. Assim, o argumento acima não pode ser tomado como verdadeiro, mas apenas logicamente válido.

Quanto ao conteúdo do vídeo, na terceira premissa do argumento (o Universo tem uma causa), deliberadamente, Craig estabelece esta causa como sendo novamente a inteligência superior como sendo as razões para esta causa.

Ao expor que a teoria da Relatividade geral se aplicada ao universo como um todo demarca um início, Craig omite ou desconhece que a teoria quântica não leva a um início do universo como o começo de tudo, mas à existência de vários universos de 4 tipos, sendo que estes surgem e desaparecem em um ciclo infinito.

A teoria da gravitação quântica pretende unificar a teoria quântica (que descreve a força nuclear forte, a fraca e a eletromagnética, para o micro-mundo) com a teoria da relatividade geral (que descreve a gravidade em estruturas de larga escala), ao tratar a gravidade como uma partícula.

A teoria das cordas previu a existência do graviton (sempre atrativos), a suposta partícula responsável pela transmissão da força gravitacional em modelos de teorias quânticas de campo.

A hipótese é que a força gravitacional é similarmente transmitida por esta partícula elementar, ainda não descoberta, ao invés de descrita em termos de curvatura espaço-tempo como a relatividade geral. No limite clássico, ambas as abordagens fornecem resultados idênticos, e compatíveis com a lei de gravitação de Newton (Feynman, R. P.. Feynman lectures on gravitation; Zee, A.. Quantum Field Theory in a Nutshell; Randall, Lisa. Warped Passages: Unraveling the Universe's Hidden Dimensions).

Dessa forma, flutuações quânticas dentre estas 4 forças podem ser a resposta para a origem do Universo ou de infinitos universos antes e após este e contemporâneos deste.

Certamente, para um Universo em particular, somente podemos falar te espaço-tempo, a partir do momento que uma singularidade se dissocia e irrompe em um processo inflacionário (teoria proposta por Alan Guth) criando um novo Universo.

Segundo a teoria, a inflação foi produzida por uma densidade de energia do vácuo negativa ou uma espécie de força gravitacional repulsiva.

é uma energia de fundo existente no espaço inclusive na ausência de todo tipo de matéria. A energia do vácuo tem uma origem puramente quantica.

A energia do vácuo teria também importantes consequências cosmológicas estando relacionada com o período inicial de expansão inflacionária e com a aparente aceleração atual da expansão do Universo. Esta expansão pode ser modelada com uma constante cosmológica não nula. Consequentemente todo o universo observável poderia ter-se originado numa pequena região.

E, é nesta pequena região que podemos falar que houve uma flutuação quântica do vácuo que tenha gerado este Universo.

Segundo o Efeito Casimir
, proposto em 1948, pelos físicos holandêses Hendrik Brugt Gerhard Casimir (1909-2000) e Dirk Polder (1919-2001) do Philips Research Laboratories, há a existência de uma força (energia) no vácuo, devido a suas flutuações quânticas. Essa força foi primeiro medida por Marcus Spaarnay, também da Philips, em 1958, mas mais precisamente em 1997 (Physical Review Letters, 78, 5), por Steve K. Lamoreaux, do Los Alamos National Laboratory, e por Umar Mohideen, da University of California em Riverside, e seu colaborador Anushree Roy (1998, Physical Review Letters, 81, 4549).

Ver aqui.

Assim, a argumentação de Craig em torno do argumento cosmológico se esvai, pois cientificamente começamos a ter respostas para muitos de seus questionamentos, que excluem a ideia da inteligência ou consciência suprema, a qual demandaria muito mais explicações ou se fecharia em um ponto estanque característico do dogmatismo religioso.

O argumento cosmológico pode ser válido, em termos lógicos, porém não há solidez, pois suas premissas e sua conclusão podem ser falsas ou no mínimo duvidosas.

É aqui que os argumentos de Craig caem por terra. Eles apenas se revestem de uma aparência de veracidade pela lógica, mas no fundo não passam de irreais, pois a lógica não guarda qq correspondência com a realidade. É isso que religiosos não entendem e, portanto, tomam todo o jogo retórico de Craig como se fosse algo que merecesse crédito.

veja aqui as noções de lógica.

Vídeo 3: Neste ponto, Craig analisa o argumento teleológico. Este argumento apresenta duas variantes teleológicas na premissa 1 (necessidade física ou o design) e uma terceira premissa que seria o acaso.

Deliberadamente o argumento exclui a necessidade física e o acaso, o que demonstra estar a premissa do design (a conclusão esperada) implicitamente escondida na premissa 2.

Portanto o argumento é uma falácia da dispersão, construída em um misto entre falso dilema (necessidade física/design e acaso) com um argumento da ignorância (o qual estabelece o designe como resposta).

A explicação para desconstrur este argumento se encontra no ponto em que discorremos sobre a afinação do Universo (aqui).

Analisando-se as falas de Craig, ele deliberadamente estabelece que o Universo foi construído para ter vida inteligente, como se conhecesse profundamente a geração de universos e as propriedades para haver vida neste universo. Entretanto craig onite o fato do Universo ser uma lugar mortal.

Se o fim do Universo fosse a vida, as estrelas não morreriam, não haveria explosões de raios gama, não haveria planetas infernais, infernos gelados e planetas alternados entre extremo calor e extremo frio devido a órbitas super excêntricas e, tampouco, as "ilhas de calmaria" seriam tão escassas.

Assim, o acaso pode ter existido na flutuação quântica do vácuo (possível choque entre duas ou mais branas ou o inchaço e rompimento de um brana), mas a partir daí, pode ser que haja propriedades para que os universos se formem.

Sobre a vida e sua origem, acredita-se em uma origem química. Mas, todos sabemos que em química o acaso depende choques moleculares. Mas há aqueles choques mais propícios de acontecerem e, portanto, mais prováveis devido a propriedades periódicas e aperiódicas dos elementos. Assim, poderiam ter surgido pequenas moléculas associadas em hipercíclos (teoria proposta por Manfred Eigen) que colhiam matéria do meio para se alimentarem, crescerem e se reproduzirem e, portanto, evoluírem (ver aqui).

Portanto, para questões ligadas à vida, o acaso reside em como se comportará o nosso planeta e o que acontecerá com ele; qual será a próxima erupção, o próximo terremoto, o próximo asteróide, que mudança climática irá ocorrer, dentre outras causas naturais, a fim de que os seres se adaptem e evoluam.

Mas estabelecer probabilidades, partindo-se de um hiperciclo para se chegar a um elefante, é algo errôneo, uma vez que não se trata de um projeto o que estamos discutindo, ou seja, a vida nãop planejou que um elefante existisse (não se pode estabelecer para um fenômeno natural uma finalidade, pois não se trata de um fenômeno consciente). O elefante passou a existir por circunstâncias relacionadas aos problemas que nosso planeta enfrentou, o que determinou os caminhos a serem tomaos pela evolução das espécies.

Ao comentar o acaso, Craig parece demonstrar conhecer tudo sobre o Universo, as origens da vida e a evolução das espécies uma vez que é capaz de falar sobre probabilidades de eventos e excluir deliberadamente o acaso, numa forte alusão ao princípio antrópico fraco.

Craig estabelece que a noção de multiversos seja mera postulação metafísica, como forma de excluir o design, o que é falso. Em sentido aristotélico, a metafísica é algo intocável, que só existe no mundo das idéias.

Obviamente ninguém até o momento sequer viu um universo paralelo, e tampouco sabemos se de fato existem, embora a física quântica leve a estes resultados. Ver aqui e aqui.

Todavia deliberadamente como resposta estabelecer um designer como solução do problema da existência do Universo, não responde absolutamente nada, seja em termos filosóficos ou científicos.

Video 4: Neste ponto Craig explana o argumento moral para a existência de deus. O argumento se resume em:

premissa 1 - Se deus não existe, valores e obrigações objetivas morais não existem;

premissa 2 - Valores e obrigações objetivas morais existem;

conclusão - deus existe


O argumento em si é também falacioso, pois como o próprio Craig diz, embora sendo contrário a esta ideia, de fato os julgamentos morais estão de acordo com a sociedade ou a cultura em que o sujeito vive.

Mas atenção!!! Isso não quer dizer que podemos fazer o que bem entendermos e alegarmos "em nossa cultura ou em nossa sociedade é assim". Para tal temos de nos remeter à noção de sistemas, ou seja, determinadas condutas serão postas de acordo com os três modais deônticos: o obrigatório, o permitido e o proibido.

Mas é claro que se estou vivendo sob um sistema que difere daquele em que cresci, terei de me submeter aos seus modais deônticos, a fim de que não crie problemas que possam prejudicar outros indivíduos e a mim mesmo, o que poderia gerar o conflito e ,os consequentes problemas sociais.

Por exemplo, se nasci em uma sociedade indígena sul americana que não usa roupas, não significa que poderei andar nu em uma sociedade islâmica. É obrigatório que eu me vista segundo um padrão de mínimo aceitável para aquela sociedade.

Caso eu venha de uma sociedade cujo costume é a poligamia, é proibido que aqui no Brasil eu contraia mais de um matrimônio.

Caso eu professe o cristianismo, é permitido que eu o faça no Japão, que é uma sociedade budista e xintoísta.

É por meio destes três modais deônticos que os valores morais ganham um sentido a fim de que em determinada sociedade, os indivíduos convivam uns com os outros, pois do contrário as sociedades entrariam em colápso, o que poderia levar a espécie humana à extinção, fosse em seus primórdios como hoje em dia.

Mas qual a base destes modais deônticos? É necessário criar um padrão de respeito recíproco ao qual todos os indivíduos devem submeter-se, para que o bem comum possa ser garantido. Aqui reside a ética, já em suas fronteiras com a moral. Entende-se, desse modo, que a ética se assenta no conceito sociobiológico de altruísmo, o princípio moral que leva um agente a buscar o bem de outros em vez de defender apenas seus interesses particulares.

Peter Singer, em The Expandede Circle, acredita ser possível explicar a origem da ética a partir do altruísmo.
Singer encontra em Darwin uma melhor explicação da origem da ética (o ramo da filosofia que busca estudar e indicar o melhor modo de viver no cotidiano e na sociedade), pois ele distingue diferentes tipos de altruísmo:

o altruísmo natural de parentesco, voltado à defesa dos interesses de membros da própria espécie;

o altruísmo recíproco, voltado à defesa dos interesses de outros indivíduos não pertencentes à própria linhagem genética, mas capazes de retribuição;

o altruísmo tribal, voltado à defesa dos interesses do próprio grupo.

É por meio destas formas de altruísmo que Henry Sidgwick descreve o desenvolvimento moral humano (fundamentado na obediência a normas, tabus, costumes ou mandamentos culturais, hierárquicos ou religiosos recebidos).

A ética pode encontrar-se com a moral pois a suporta, na medida em que não existem costumes ou hábitos sociais completamente separados de uma ética individual. Da ética individual se passa a um valor social, e deste, quando devidamente enraizado numa sociedade, se passa à lei.

Assim, pode-se afirmar, seguindo este raciocínio, que não existe lei sem uma ética que lhe sirva de alicerce. Mas o que define uma lei ? É a partir da combinatória dos três modais deônticos que se dá a dinâmica operacional do direito e este direito positivado nas sociedades modernas implica o controle do que é ou não lícito, por meio de um sistema jurídico, onde estão as leis.

O altruísmo que é a base para a construção das sociedades humanas é estudado pela sociobiologia.

A sociobiologia é um ramo da biologia que tem estudado o comportamento social dos animais, sendo que ela propõe que tais comportamentos também se verificam nos seres humanos. O termo foi popularizado pelo biólogo Eduard Osborne Wilson, em seu livro Sociobiologia: a nova síntese.

De acordo com esta teoria, o cérebro humano, ao longo de sua evolução, desde nossos ancestrais, sofreu pressões seletivas que o adaptaram a determinadas circunstãncias, sendo uma delas a vida em grupo.

Um organismo geneticamente propenso ao altruísmo, por exemplo, poderia ter ganhos maiores se o ambiente fosse propício a isso, conforme demonstrou o biólogo Robert Trivers. Assim, sentimentos como a compaixão seriam influenciados por fatores genéticos, e portanto deveriam ser estudados com base na biologia.

Entretanto, para a sociobiologia, nenhuma ação humana pode ser considerada genuinamente altruísta.

Para ser ético é preciso que o agente moral seja capaz de fazer uso do intelecto, do pensamento, da razão.

Embora as emoções estejam na base da moralidade, elas se originam-se nas experiências do bom e do ruim, particulares ao indivíduo. Assim, não podem servir de medida objetiva para definir o que se faz de bom ou de ruim a outros seres vivos, especialmente quando esses não privam do mesmo habitat natural, social e emocional do agente moral.

Ao usar a razão, algo que o altruísmo ético (querer o bem dos outros, ainda que disso não tiremos proveito algum) exige, o agente moral pode ser obrigado a contrariar suas intuições morais.

Intuitivamente, seguindo a descrição sociobiológica de nossa natureza, buscamos apenas proteger os interesses dos seres que se parecem conosco. Esta ética tribal animalesca não se presta para reger interações em mundos urbanos compostos por seres absolutamente não identificados uns com os outros.

Ao agir eticamente busca-se o bem-próprio de quem sofre a ação, ainda que este ou esta não se pareça em nada conosco, nem faça parte de nosso grupo, nem possa nos retribuir o ato. O bem desse outro representa para nós o valor a ser preservado.

Os fatos de sua aparência singular, embora não representem valor algum para nós, podem dar-nos algum esclarecimento sobre as condições do paciente moral. Mas fatos não nos levam à ação. Os valores, pelo contrário, são as legítimas motivações para o agir moral. Em suma, nossos genes não escolhem nossas premissas éticas. Nós o fazemos usando nossa razão. Nenhum fato genético mostra direção alguma para nossos atos.

Embora seres humanos também sejam objeto de estudo pela Sociobiologia, eles apresentam um fator que os torna diferentes da maioria dos animais sociais: a cultura.

A cultura é capaz de promover transformações na forma como os humanos interagem com seu ambiente, independente de sua herança genética. Logo, para os sociobiólogos, o comportamento é fenótipo, ou seja, é um produto dos genes com o ambiente.

Mas, predisposições genéticas podem ser influenciadas pelo ambiente, o que pode acarretar o aparecimento de organismos com características comportamentais geneticamente predispostas, sem se esperar chegar ao 100 por cento.

Um tipo de comportamento humano em relação ao qual existe uma forte predisposição genética pode ser considerado como parte da natureza humana. A natureza humana não é vista como algo que force os indivíduos a comportar-se de certa maneira, mas como algo que torna os indivíduos mais inclinados a agir de uma determinada maneira do que noutra.

Entretanto, o conceito de natureza humana é visto com reservas pelos cientistas sociais, sendo que atribuir-lhe um caráter científico é um tanto arriscado. A grande diversidade de sociedades humanas e suas diferenças culturais contradizem a argumentação de uma natureza humana geneticamente determinada e moldada para a seleção natural.

Mas isso não afasta o ser humano da natureza, colocando a cultura como realidade desvinculada das coisas naturais, sem levar suas dimensões biológico-evolucionárias que nitidamente são compartilhadas pelos primatas superiores.

Portanto não são apenas os homens que possuem capacidade de simbolizar. Primatas superiores também o fazem. Mas humanos conseguem fazê-lo de forma muito mais complexa e é isso que leva às diferenças culturais, sendo que hábitos e práticas sociais estão em consonância com a sobrevivência das populações. Porém as diferenças de costumes não se explicam pela necessidade de subsistir, pois o meio ambiente influencia sem determinar.

O costume é o nome dado a qualquer regra social resultante de uma prática reiterada de forma generalizada e prolongada, o que resulta numa certa convicção de obrigatoriedade, de acordo com cada sociedade e cultura específica. O costume se perfaz por duas vias integradas:

Repetição constante e uniforme de uma prática social - o uso - obediência a uma conduta por parte de uma coletividade;

Convicção de que prática social reiterada, constante e uniforme é necessária e obrigatória - psicológico.

A reiteração do uso forma o costume, que, na lição de Vicente Ráo, vem a ser a regra de conduta criada espontaneamente pela consciência comum do povo, que a observa por modo constante e uniforme, e sob a convicção de corresponder a uma necessidade jurídica.

Embora o meio não determine nossos costumes, estes têm esteio também nos três modais deônticos, cuja base estána moral que se assenta na ética a qual se constrói pelo altruísmo sob suas três vertentes.

Assim, a necessidade do altruísmo da ética e da moral humanas, não se trata em meramente subsistir, mas conviver, crescer e progredir, conceitos estes que diferem da consciência animal que busca apenas sobreviver.

Dessa forma, a moral é a chave para o progresso de uma sociedade, no momento em que os indivíduos se vêm obrigados a agir dentro de certos padrões que, enraizados na sociedade, que se tornam, de início um costume. Posteriormente estes costumes convertem-se em regras de Direito e, por fim, normas positivadas ao que denominamos de leis.

Portanto, afirmar com base no argumento moral que a existência de deus é necessária para a moralidade, é algo muito temerário, uma vez que o argumento se assenta na premissa de que existem valores e obrigações morais objetivos, o que é falso, conforme a variedade social em cultural em que o ser humano vive.

Em toda sua exposição, Craig não citou sequer um exemplo de valor moral e obrigação objetivos. Entendemos o que é errado, intolerante e detestável.

Por exemplo, enviar jovens para a travessarem um campo minado para estes morrerem e permitir que tropas avancem em uma ofensiva, nos parece abarcar todos estes conceitos, negativos, mas isso ocorreu na Guerra entre Irã e Iraque. Porém, famílias iranianas vêem estes jovens como mártires.

Fazer genocídios de tribos indígenas matando-se mulheres e crianças e escravizar índios e negros, também nos parece tudo de ruim, mas aconteceu aqui nas Américas, sendo que tudo era visto com normalidade.

Portanto, nossa moral não depende da existência de deus mas de nosso desenvolvimento moral humano, calcado na ética (cuja matriz é o altruísmo), na medida em que não existem costumes ou hábitos sociais completamente separados de uma ética individual, a qual passa a um valor social, (orientado pelos três modais deônticos) e, quando devidamente enraizado numa sociedade, torna-se uma lei.

Ética e moral não nos obrigama seguir condutas, pois a máxima sanção que poderemos ter é de cunho social, mas a lei nos obriga a segur determinadas condutas, pois do contrário teremos sanções penais que podem atingir nossa liberdade e patrimoniais que poderão avançar sobre nossos bens.

Ler: aqui, aqui, aqui , aqui , aqui e aqui


Vídeo 5: Neste ponto Craig trata do argumento da ressurreição. De início Craig se restringe apenas aos monoteísmos judaico, cristão e islâmico.

Todavia ele considera deliberadamente que deus se revelou na pessoa de Jesus, pois este afirmou ser o filho de deus (SIC). Porém, tais afirmativas foram corroboradas pela ressurreição.

Craig se baseia no Novo Testamento, mencionando historiadores experts nesta área. Entretanto, não há menções históricas sobre estes fatos exceto na bíblia. Uma questão se refere ao Testimonium Flavianum, escrito por Flavio Josefo em Antiguidades Judaicas, o qual menciona ter existido Jesus.

Segundo historiadores isso é falso, pois Flavio Josefo teria dito que Jesus era o Cristo e, portanto teria negado sua fé de judeu, o que não se tem conhecimento.

Mas Craig baseia sua argumentação no livro de N.T. Wright, o qual dá sua "opinião profissional" de que a tumba vazia e as aparições pós morte de Jesus são tão bem atestadas que chegam a se comparar com eventos como a queda de Jerusalém e aos Césares.

Craig também aposta na sinceridade das pessoas que escreveram os textos antigos que mencionavam Jesus e afirma serem estes fonte de vasta informação , conferindo a Jesus o título de pessoa mais popular da antiguidade.

Porém, não é o que se verifica historicamente, exceto se analisarmos a bíblia em si.

Entretanto, a fim de concluir que o deus cristão é o verdadeiro, Craig se baseia no argumento da tumba vazia,e das aparições de Jesus, assumindo deliberadamente serem estas premissas c verdadeiras.

Esta premissa leva a hipótese de que Jesus foi ressussitado ser a explicação para o fato da tumba vazia, e das aparições, sem considerar qualquer outra hipótese, como por exemplo o furto do corpo, imaginação das pessoas ou mesmo a hipótese de Jesus ter escapado com vida de seu martírio.

Como consequencia, Craig estabelece que isso foi a revelação de deus na pessoa de Jesus e, portanto o deus verdadeiro é o cristão.

Vemos que em sí o argumento é uma falácia, pois a conclusão já se encontra embutida em suas premissas.

Vídeo 6:Neste ponto Craig trata do problema do mal. Craig começa dizendo que realmente o problema do mal, quando analisado sob a óticas das emoções, causa muitas dúvidas sobre a existência ou mesmo sobre o caráter de deus.

Mas ao se analisar a questão sob a ótica filosófica, é impossível estabelecer um parâmetro para se afirmar que deus é improvável ou que ele não existe. Entretanto, filosofica, científica ou emocionalmente, também é impossível afirmar-se qualquer coisa que ateste a existência deste ser.

Craig se pauta em um argumento que ele diz ser lógico (SIC) em que deus e o mal são incompatíveis e que se um existe o outro não pode existir. Todavia não há contradições entre deus ser "onitudo" e o mal existir.

Craig assenta esta premissa no livre arbítrio, ou seja, as criaturas capazes de raciocinar podem escolher entre bem e mal. Na visão de Craig, se deus criasse então um mundo sem o mal, removeria a capacidade das pessoas conhecerem o bem moral. Assim, para Craig um mundo sem mal seria imperfeito, pois eliminaria a possibilidade de se conhecer o bem moral (como se em um mundo perfeito fosse necessário se ter domínio do que é bom).

Ainda, Craig aventa que a onipotência não significa que deus possa fazer o que bem entender. Mas onipotência, segundo o dicionário Houaiss, significa a capacidade de um ser poder fazer tudo. Portanto deus não é onipotente segundo o que Craig diz.

No que se refere sobre a onibenevolência de deus para um mundo onde não haja o mal, Craig aventa a hipótese de que deve haver muitas vezes o mal para que um bem maior sobrevenha. Mas para que haveria a necessidade de um bem maior em um mundo perfeito onde todos fossem felizes?

Craig prova a compatibilidade entre a existência do mal e de deus no argumento de que deus não poderia criar um mundo que tivesse mais bem que o mundo real mas com menos mal, uma vez que ele tem razões morais para que o mal exista. Por meio deste argumento Craig considera a questão do mal solucionada.

Mas se deus se atrela a questões morais para que o mal exista, então ele não possui onipotência e, tampouco, possui onibenevolência, mas nenhuma destas características se opõe a sua existência ou inexistência. Este foi o erro de Hitchens, que não deveria jamais ter questionado a existência de deus, mas apenas suas características.

A conclusão para estas análises, é a de que Craig cria uma aura de que argumentos filosóficos assumam a característica de reais, o que confunde a platéia leiga. Pelo menos por enquanto, não podemos provar a existência ou não dos deuses, do mundo dos espíritos, ou da veracidade desta ou daquela religião.

Em suma, o compromisso de Craig não é com a verdade, mas em apenas vencer debates por meio de argumentos erísticos que beiram ao ridículo. Caso Hitchens seguisse os conselhos de Craig, em estudar mais a temática da argumentação e a filosofia em si, poderia pegar suas falácias no pulo e evitaria ele próprio em cair nesta classe de argumentos.

Nem ateus e nem crentes estão corretos em suas premissas e conclusões, pois como asseverou Kant, é impossível provar que deus exista, porém isso não implica afirmar que ele não exista.


quinta-feira, 3 de junho de 2010

Maus usos da filosofia e ignorância científica Parte 2

TEXTO 2:

O segundo texto vai na linha do primeiro. Em virtude da contestação de um leitor, a explicação agora ganha o auxílio de nada mais que J. P. Moreland e William Lane Craig, este denominado de "senhor erística" (técnica empregada com o objetivo de vencer uma discussão e não necessariamente de descobrir a verdade sobre determinada questão).

Não sei qual dos dois escreveu o texto, mas me parece bem ao gosto de Lane Craig, uma vez que implicitamente se vale das probabilidade para criar o ofuscamento da realidade.
O texto já começa com bobagem, ao tocar no tema da matéria e da antimatéria primordiais, conforme segue:

"Se a matéria e a antimatéria primordiais tivessem proporções diferentes, se o universo tivesse se expandido um pouco mais lentamente, sem que a entropia do universo fosse magistralmente maior, qualquer desses e de outros ajustes teria impedido a existência do “universo com vida”, embora tudo pareça perfeitamente possível no aspecto físico."
Ora, matéria e antimatéria no universo primordial tinham quantidades diferentes, pois se assim não fosse teriamos um mar de energia apenas.


Uma brevíssima história do universo:
No início, a 10^-11 segundos após o início do universo, quarks e antiquarks existiam em taxas iguas e se aniqulavam em radiação e devido às altas temperaturas se recriavam por meio desta radiação, para novamente se aniquilarem.

Com a expansão, o Universo começou a esfriar. Com este resfriamento, reduziu-se a possiblidade de criação de pares quark/antiquark e mais números de quarks que de antiquarks passaram a existir. Isso se verifica pois hoje temos mais quarks que antiquarks e prótons e nêutros são feitos de quarks.

A 10^-10 segundos, começam a se formar as partículas responsáveis pela força nuclear fraca. Os bósons são as partículas que transmitem a força nuclear fraca (que propicia a fissão de núcleos) e estes são muito pesados. A força nuclear fraca é a que propicia a cisão das partículas, e é responsável pelo decaimento beta (emissão de um elétron ou de um pósitron).

O seu ganho de massa se deve a um processo denominado quebra espontânea de simetria que ocorre em uma escala definida de energia. Acima desta escala, os bósons não possuem massa, assim como os fótonse glúons. abaixo desta escala os bósons são grandes e pesados e a força nuclear fraca passa a agir em distâncias da ordem de 10^-18 m.

Em 10^-4 s, os quarks e os glúons se uniram confinando-se nos mésons (méson pi) e nos bárions (próyons e nêutrons). A esta coesão denominamos de força nuclear forte.

Em 1 s, nêutrons e prótons cambiavam-se uns nos outros devido a emissão e absorção de neutrinos. Com o resfriamento do universo, este processo diminuiu e foram deixados 7 prótons para um nêutron. Isso ocorreu devido ao nêutron decair em próton, em um elétron e um elétron antineutrino. Mas os prótons não decaem em nada.

Com a expansão do universo e seu resfriamento, a conversão de prótons em nêutrons se reduziu, mas os nêutrons continuaram a decair em prótons. Para o hidrogênio é necessário apenas um próton e para o hélio são necessários 2 prótons e 2 nêutrons. Esta é a "razão de existir" mais hidrogênio que qualquer coisa no Universo.

A 100 s, com a expansão e o resfriamento, prótons e nêutrons puderam então mantêrem-se coesos formando núcleos atômicos de elementos leves (hidrogênio, hélio e lítio). A este processo se denomina nucleossíntese. Com isso pode-se perceber reduções da entropia local devido a queda de temperatura que permitiu a aproximação entre prótons e nêutrons.

Após 10 mil anos, mais e mais matéria passa a ser criada a partir da radiação de alta energia. Esta matéria formada determinou como o Universo se expandiria.

Em 500 mil anos, com o resfriamento do universo, os elétrons puderam ser capturados pelos núcleos e assim, formaram-se os átomos, e as primeiras moléculas, mas ainda de elementos leves.

No intervalo de 1 bilhão de anos, com os átomos formados, as forças gravitacionais começaram a se tornar importantes. O gás hidrogênio coalesceu e colapsou, dando início à fusão nuclear, criando as primeiras estrelas.

Em um intervalo de 2 a 13 bilhões de anos, os elementos pesados começaram a ser cozidos no interior das estrelas e, com a morte destas, eram ejetados no espaço.
O assunto sobre estas forças será mais profundamente tratado em postagem específica.

Isso propiciou a formação de sistemas planetários que passaram a circundar estrelas de segunda ou de terceira ordem. Na periferia destes sistemas se formaram os gigantes gasosos e mais interiormente os planetas rochosos, os quais se estiverem em uma "zona goldilocks" podem dar origem a vida.

Assim, como vimos na postagem anterior, para este universo, os 6 números estudados se ajustaram para dar condições para a vida complexa, mas não que isto possuísse um propósito determinado por alguma inteligência superior.

No que concerne à teoria das cordas, as 11 dimensões foram matematicamente determinadas e não meramente postuladas, como parece ser a mensagem deixada no artigo. Este número de dimensões poderia ser um novo número nas constantes de nosso universo, sendo quatro delas desenroladas (3 espaciais e uma temporal) e 7 outras dimensões espaciais enroladas no comprimento de Planck, o que permitiria a estabilidade de nossas cordas para formarem as partículas fundamentais, cada qual vibrando conforme sua energia.

A teoria dos multiversos não toma os 6 números estudados anteriormente como se devessem ser fixos e mesmo as dimensões do universo no que consiste a sua formação. Apenas conhecemos este universo e os numeros para este universo se ajustam conforme vimos.

Não necessariamente há uma necessidade física de que as coisas sejam assim, como não há um desígnio para tal.

O que temos são flutuações quânticas que ao acaso podem geram muitos tipos de universo. Alguns com durações efêmeras, outros longas e outros que mesmo propiciem vida simples ou complexa.

Quanto á questão da entropia (de novo não!!!) se partirmos de que o Universo tenha tido sua origem numa singularidade, as regras que hoje a ele se aplicam, não se aplicariam à singularidade, exatamente como ocorre com o buraco negro. Assim, somente é interessante falar-se em entropia após o big bang, sendo que neste, as 4 forças se separaram e, com o resfriamento do universo, as partículas elementares se formaram, cada qual vibrando com sua energia específica.

Mais adiante, passou a haver a possiblidade da nucleossíntese destas partículas elementares em prótons, nêutros e finalmente átomos, moléculas, matéria, estrélas primordiais e, mais futuramente estrelas de segunda ordem e sistemas planetários que deram condições para haver vida.

Assim, tanto a necessidade física como o designer, nada mais são que variantes do argumento teleológico.

Nos resta assim o acaso como a via para a existência do universo e de tudo o que nele há.

Abaixo segue uma sequência acerca do universo como o conhecemos:

Basta clicar next para ver o filminho.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Maus usos da filosofia e ignorância científica Parte 1

INTRODUÇÃO:

Em minhas andanças pela internet, mais uma vez me deparei com um rol de tolices e mau uso, má compreensão e ignorância completa no que se refere a conceitos filosóficos e conhecimentos acerca do universo.

O rol de tolices surgiu a partir dos seguntes textos:

texto 1:

texto 2:

texto 3:

texto 4:

texto 5:

texto 6:

Analisemos cada um deles em 6 partes.


TEXTO 1:


De início, há que entender-se o que significa o argumento teleológico.
A origem deste argumento remonta a Platão, que afirmava ser a explicação para qualquer fenômeno físico teleológica. Platão distingue as causas necessárias e causas suficientes das coisas, que ele identifica, respectivamente, como a causa material e a causa teleológica.

Os materiais que compõem um corpo são condições necessárias para seu movimento e ação de uma determinada maneira Todavia, os materiais não podem ser condições suficientes para seu movimento e ação, que seriam determinados pelas finalidades impostas pelo demiurgo (Deus-artesão, hoje mais conhecido pelo vulgo de "designer").

Após o concílio de Niceia (sec. IV d.C.), o cristianismo finalmente estruturou-se. como religião. Logo, a explicação por causas finais passou a ser considerada a única explicação conveniente para os mistérios divinos.

A filosofia clássica, devido ao pensamento medieval, ganhou feições teológicas sendo que houvea cristianização de Platão ( Agostinho de Hipona - 354 a 430 d.C.) e, posteriormente, a de Aristóteles (Tomas de Aquino - 1.225 a 1.254 d.C.).

Este movimento de inserção da filosofia clássica no pensamento medieval é o que hoje se conhece por Escolástica, que procurava compreender a revelação divina mediante o uso dos conceitos herdados daquele período anterior.

Quanto ao argumento teleológico à época da Idade Média, baseava-se na quinta via no que se refere às provas existencia de deus, elaboradas por Tomás de Aquino em suas cinco vias da demonstração da existência de deus.

Propriamente, ao partir da noção de finalidade ou causa final, ele diz que o universo exibe desígnio e propósito, ou seja, tudo parece agir segundo um plano. Caso contrário, o Universo não tenderia para o mesmo fim ou resultado. Assim, a denominação de teleológico para tal argumento ocorre em razão de que explicações teleológicas sempre consideram um objetivo ou propósito de algo para explicá-lo.
Todavia, com o surgimento das ciências modernas, este argumento perdeu força, uma vez que tanto nas ciências físicas, como nas ciências biológicas, os fenômenos naturais são explicados por causas também naturais além de descartarem a noção de propósito àqueles fenômenos não conscientes.

Por exemplo, o fato de um crocodilo caçar um gnu tem como propósito aquele animal se alimentar, uma vez que sentiu fome e teve de saciar esta necessidade. Isto sem dúvida é um fenômeno consciente.

Mas, qual o propósito de que o crocodilo ou o gnu existam? Não poderíam ser coisas diferentes se a evolução tomasse outros rumos na história da vida?

Ora, animais se adaptam a determinados nichos quando estes se encontram vagos. Foi o que aconteceu com os mamíferos da mega-fauna. Os "bons empregos" que eram ocupados pelos dinossauros ficaram vagos após a extinção KT e isso permitiu que os mamíferos e aves florescessem e se desenvolvessem. Mas qual o propósito disso tudo?

Outra forma que se tinha de pensar era o argumento cosmológico ( ou a terceira via dos argumentos que provam a existência de deus) que significa que a simples existência do Universo significava que alguém o tinha criado. Este argumento se baseia na ideia aristotélica de necessidade e contingência, visando explicar a necessidade da existência do universo (o cosmo).

Segundo este argumento, constata-se a contingência na natureza, mas nem todas as coisas podem ser contingentes (terem uma causalidade direta para os fenômenos naturais) , senão seria possível que não houvesse nada. Mas aquilo que existe somente poderia começar a existir a partir de algo que já existe antes. É preciso assim que algo do que existe seja necessário. Portanto, deus é a origem de toda a necessidade.

Este argumento tem como ponto fraco o fato de que se o cosmo é tão maravilhoso que sua existência precisa de algo mais maravilhoso ainda para explicá-la, então, como explicar este algo mais maravilhoso ainda?

Caso abordemos a questão de modo científico, para cada explicação deve haver outra explicação e assim por diante, o que é o caráter zetético das ciências.

Porém, a questão pode chegar a um ponto estanque, dogmatizando-se ao partir de uma petição de princípio. A resposta para tal, está no argumento ontológico (aquele que se aplica a qualquer discussão sobre a natureza do ser), cuja autoria é de Anselmo de Cantuária (1.033 - 1.109).

Neste argumento reside a ideia de que o maior e mais perfeito ser possível, o qual é imaginado possuir todos os atributos desejáveis, exceto o da existência, não seria o maior e mais perfeito possível, pois um ser que existe é maior e mais perfeito que um que não existe. Portanto, o maior e mais perfeito ser tem de existir. Assim, do conceito de deus como ser perfeito e que deriva sua existência.

A passagem que este argumento faz do campo lógico semântico para a definição de deus é que lhe caracteriza como ontológico, pois com esta passagem, não se pode evitar a existência deste ser.

Já na visão de Tomás de Aquino, sendo este argumento denominado como segunda via das provas sobre a existência de deus, este é o ser supremo maior que qualquer coisa que possa ser pensada. Esta definição de deus assim entendida está no intelécto e pórtanto deve ser esta ideia aceita, pois caso se deus não existisse haveria algo maior que ele, já que existir é mais que não existir, o que gera uma contradição. Portanto, a existência de deus no intelécto, acarreta sua existência.

Este argumento foi contestado por Kant (1.724 - 1.804), com base em que todas estas provas apoiam-se no princípio da causalidade, pois procuram mostrar que deus é a causa do universo. Todavia, o princípio da causalidade somente vale para a experiência sensível, o que invalidaria as provas sobre a existência de deus.

Segundo a doutrina de Kant, nunca poderemos saber ao certo se existe qualquer coisa da qual nosso aparelho corporal não nos dá apreensão. Isso descartaria o conhecimento da existência de deus e das almas imortais. Frise-se aqui que esta forma de pensar não descarta a existência de deus, mas o que ela descarta é o conhecimento para abrir espaço à fé.

Dessa forma, não está sob discussão a existência ou não de deus, mas apenas que sua existência não pode ser provada. Assim, nas palavras de Kant:

O conceito de um ser supremo é uma ideia útil sob muitos aspecto. Mas justamente por ser uma ideia, é incapaz por si só, de ampliar o nosso conhecimento acerca do que existe.

Logo, simples ideias não enriquecem o homem de conhecimento, como um mercador não se enriquece de dinheiro se para melhorar sua própria condição, acrescentasse alguns zeros em seu livro caixa.

Mas, é durante a idade moderna que passa a haver uma mudança nesta forma de pensar, uma vez que o antropomorfismo (pensamento que atribui caractéres humanos a deus) da teleologia não justificava supor qualquer finalidade imposta ao Universo.

Assim, surge o mecanicismo (teoria filosófica determinista a qual defende serem todos os fenômenos explicáveis pela causalidade mecânica ou por analogia a esta) e o deísmo (postura filosófico-religiosa que admite a existência de um deus criador, porém considera a razão como uma via capaz de assegurar da existência de deus, além de desconsiderar, para tal fim, a prática de uma religião denominacional).

Ambos tentaram explicar o mundo pelas causas eficientes com o propósito de descobrir as causas finais que teriam sido arquitetadas por deus sob a metáfora do mundo como um relógio e de deus como o relojoeiro. Futuramente Willian Paley (1.743 a 1.805 d.C.) se apossou desta metáfora, em Natural Theology, e criou as bases para o design inteligente - DI.

O nascimento da ciência moderna relaciona-se ao estudo das causas eficientes (coisa que pode levar outra coisa a existir) dos fenômenos e um crescente abandono da idéia de causa final (antropomórfica). Em suma, a explicação dos fenômenos deixou de ser feita pela teleologia e, em seu lugar, buscou-se explicar os fenômenos como emergentes (processo de formação de sistemas complexos ou padrões a partir de uma multiplicidade de interações simples).

O argumento teleológico também prega uma ordem no universo. Porém, como hoje conhecemos pelas investigações astronômicas, o Universo não é um lugar tão tranquilo assim.

Pelo contrário, é uma zona mortal com asteróides, cometas, super-novas, explosões de raios gama, pulsares, magnetares, quasares, buracos negros, choques intergalácticos, planetas infernais ou mundos gelados, nebulosas ricas em ácido cianídrico, vulcões, violentos movimentos de marés em luas e planetas e, possivelmente outros universos.

Também, não faz qualquer sentido falar-se na soma de todos estes fatores como tendo um propósito.

Entendido o argumento teleológico, podemos partir para uma análise do texto.

O texto se inicia por uma analogia probabilística, supondo que uma condição tida como especial para um indivíduo corrobore, por indução (do particular para o geral) um ajuste fino do Universo, quanto a sua aptidão para a vida.

O argumento teleológico do ajuste fino, apresentado no texto, se perfaz segundo a seguinte estrutura:

1- O ajuste fino do universo se deve à necessidade física, ao acaso ou ao desígnio.
2- Ele não é devido à necessidade física e nem ao acaso
3- Portanto, ele se deve ao desígnio.


A primeira premissa já começa errada, uma vez que não há qualquer "ajuste fino" no Universo, sendo suas "zonas de relativa calmaria", se é isso que podemos dizer, os locais que dão condições a existirem formas de vida como as que conhecemos, tomando-se como um exemplo concreto o nosso Sistema Solar, e mais particularmente a Terra. Tais "zonas de relativa calmaria" apresentam-se raríssimas pelo Universo.

Digo relativa calmaria porque vez ou outra são perturbadas por objetos como cometas e asteróides, que, algumas vezes já causaram sérios danos ao nosso planeta.
Assim, por não haver ajuste fino, indutor de um propósito para um fenômeno meramente natural, as três premissas impostas caem por terra.

A segunda premissa já apresenta a resposta de sua conclusão implícita, pois simples e deliberadamente descarta a necessidade física e o acaso, sem qualquer evidência científica que ateste sua veracidade ou falsidade.

Quanto à conclusão, esta já está respondida na premissa 2 implicitamente. Portanto, o raciocínio é inválido, ou seja é uma falácia lógica.


A tentadora afinação do Universo:
Parece tentadora a proposta de um designer para o que apresentarei a seguir. Sairemos da filosofia e adentraremos a cosmologia a fim de entendermos que o universo é regido por apenas seis números "escolhidos a dedo".
Dois deles se relacionam às forças básicas, dois fixam o tamanho e a textura geral de nosso Universo (se ele continuará a se expandir ou se colapsará) e os outros dois fixam as propriedades do próprio espaço.

Fisicamente, podemos definir seis números para o Universo, conforme seguem:

1 - N = é a relação entre as forças elétricas que mantêm nossos átomos coesos dividida pela força da gravidade que atua entre eles; A intensidade relativa destas forças é da ordem de 10 ^ 36.

A gravidade é uma força surpreendentemente fraca se comparada com outras que afetam os átomos, sendo seus efeitos mais sentidos nas coisas grandes que nas pequenas.

A gravidade sempre opera como uma força de atração. Se esta gravidade não fosse tão fraca, nada ocorreria com átomos e moléculas, porém, os objetos não necessitariam ser tão grandes a fim de que a gravidade competisse com as demais forças.

Haveria necessidade de menos átomos para que as estrelas se formassem, os planetas teríam menor massa, mantendo ou não órbitas estáveis e a vida seria bem diferente... muito mais lenta e forte.

Galáxias se formariam mais rapidamente, e seriam menores; havería maior número de colisões entre estrelas, o que poderia inviabilizar sistemas planetários estáveis. As estrelas se consumiríam mais rapidamente e a vida correria riscos de não ter tempo para se desenvolver em formas mais complexas.

Mas e uma gravidade mais fraca? neste ponto, poderia haver a formação de estruturas melhor elaboradas e de maior duração. mas isso teria implicações quanto à formação do universo, o que será visto mais adiante.

2 - e = eficiência nuclear: as forças nucleares são cruciais para manter prótons e nêutros nos núcleos atômicos. Estes núcleos são produzidos nas estrelas, sendo que a natureza os faz em 92 variedades, conforme a Tabéla Periódica. Este número é 0,007.

Há elementos além do Urânio denominados de transurânicos, cujos núcleos são mais instáveis e podem sofre fissão nuclear, sendo o plutônio uma exceção, pois tem meia vida de milhares de anos.

Se esta força fosse mais fraca, o hidrogênio seria um combustível menos eficiente e as estrelas não viveriam tanto. Todavia, isso não seria crucial. Entretanto, isso afetaria a síntese de outros elementos a partir do hidrogênio das estrelas, como a formação do hélio a partir do deutério (um próton e um nêutron). Próton e nêutron do deutério seriam difíceis de se manterem coesos, o que daria um caráter instável ao deutério. O hélio não se formaria e haveria um universo de hidrogênio.

As estrelas se formariam, esfriariam e morreriam, sem explodirem em super-novas que espalham seus destroços pelo universo e propiciam a formação de outras estrelas e sistemas solares.

Mas se esta força fosse mais forte do que é, o hidrogênio não teria sobrevivido ao big bang. Isso teria propiciado que dois prótons se unissem, o que não levaria a formação do hidrogênio e, assim, as estrelas não se formariam.

Foi deste conceito que Fred Hoyle cunhou o termo "afinação", a partir da síntese de carbono e oxigênio nas estrelas.

Portanto, forças nucleares mais fracas reduziriam o número de elementos estáveis da Tabela Periódica e vice-versa.

Para a vida, uma biosfera de carbono como a nossa, não poderia existir e, devido às moléculas especiais para a vida não poderem existir, pois o carbono , como ele é, é um elemento muito especial.


3 - o = razão entre densidade real e densidade crítica: este valor se relaciona ao destino do Universo e está em torno de 0,04. Na verdade, o que há é uma competição entre a gravidade e a energia de expansão. Para que a gravidade vença a luta e o universo colapse, depende da quantidade de matéria que exerce a atração gravitacional, ou seja, se a densidade de matéria exceder um valor crítico bem definido, que corresponde a cinco átomos por metro cúbico.

Entretanto, a densidade real para o universo conhecido é de 0,2 átomo por metro cúbico, o que implica uma expansão cósmica.

Mas vamos com calma!!! Há coisas no Universo que não vemos, mas elas estão lá, como a matéria escura. Não sabemos o que ela é mas sabemos que exerce gravidade e funciona como uma estrutura para as galáxias fixarem sua matéria. Esta matéria escura não emite luz ou qualquer outra forma de radiação.

O movimento do universo é que demonstra haver algo invisível exercendo uma attração gravitacional entre os corpos celestes. São movimentos rápidos demais para serem equilibrados apenas pela gravidade.

Assim, o destino do universo depende do valor que a razão ora apresentada assumir. se o=1 o universo se estenderá até um frio extremo.



 Se "o" estiver entre [-1 e 1] o universo colapsará em um "big crunch" e se  "o"  for maior que 1 ele se expandirá até rasgar-se.




4 - L = a constante cosmológica de Einstein: é o número que Einstein encontrou quando de da aplicação de sua teoria da relatividade geral ao Universo. Acreditava-se que o universo fosse estático, mas Einstein descobriu que se assim o fosse, o Universo começaria a se contrair, o que impossibilitava este ideal de Universo estático. É um número muito pequeno, sem representação.

De acordo com o modelo padrão da cosmologia, o Lambda-CDM model, a constante cosmológica medida é da ordem de 10 ^- 35 s ^-2 ou 10 ^- 47 GeV4, ou 10 ^-29 g/m^3 ou em torno de 10 ^-120 na unidade reduzida de Planck.

Logo, havia a necessidade de uma força para contrabalalçar a gravidade e assim, surge a constante cosmológica, a qual designa uma repulsão cósmica. Mas Huble descobriu que galáxias distantes se afastavam de nós.

Einstein considerou este número seu maior erro, mas hoje sabemos que seu valor não pode ser zero, porém é tão pequeno que somente pode competir com a gravidade diluída do espaço intergaláctico. Este número parece controlar e descrever a força mais fraca e mais misteriosa da natureza, ou seja, a expansão do Universo e o seu destino.

Se o valor de L fosse maior, as consequências seriam catastróficas, pois a gravidade seria facilmente dominada, bem mais cedo, durante os estágios de maior densidade. Não haveria galáxias, nem estrelas, planetas ou vida.

Se L fosse igual a zero, as galáxias continuaríam a se afastar, porém sua velocidade diminuiria pouco a pouco, sem nunca chegar a zero. Mas se L for maior que zero, a velocidade de expansão do universo se acelerará, sendo que todas as galáxias desapareceriam de nossa vista e sua velocidade tenderia à velocidade da luz.

A esta força de repulsão cósmica denominamos de energia escura e parece se relacionar com o vácuo do universo, sendo que este espaço vazio pode ser um agitado emaranhado de cordas, com estruturas em dimensões adicionais, conforme preconiza a teoria das super cordas.

Para compreender mais este assunto, consultar os links aqui e aqui.

5 - Q = é a relação entre a intensidade de ligação das estruturas do cosmo (estrelas, galáxiase aglomerados), ou seja, quanta energia seria suficiente para destruí-las e dispersá-las e a sua energia de repouso (E=mc^2): é um número pequeno que demonstra ser a gravidade realmnete muito fraca para os aglomerados e galáxias. Este número também dá mostras de que podemos considerar nosso universo como homogêneo, sendo que suas "ondulações" foram definidas muito cedo, antes dos aglomerados e galáxias.
O número Q ( da ordem de 10^-5) é crucial para se determinar a textura estrutural do Universo. Ele representa a amplitude das ondulações.

É na radiação de fundo de microondas (o brilho do big bang) que está o segredo do Universo referente ao fim de sua "idade das trevas" e a formação das proto-galáxias. A temperatura das microondas parece conservar os registros das flutuações do universo no que se refere a regiões mais e menos densas, as quais se transformariam, respectivamente em galáxias ou vazios.

Se as microondas acarretassem um Universo primordial mais uniforme que uma parte em 100 mil na temperatura de radiação de fundo, isso exigiria uma força adicional além da gravidade que pudesse aumentar os contrastes de densidade ainda mais rapidamente para os aglomerados e galáxias.

Com isso, pode-se afirmar que a gravidade, desde o começo do Universo, moldou as estruturas cósmicas e aumentou os contrastes de temperatura. Sem dúvida, isto foi pré-requisito, para após 10 bilhões de anos, dar condições para a vida, seja ela aqui na Terra (por enquanto o único lugar que conhecemos com uma exuberante biosfera) seja em qualquer outro ponto deste universo.

Assim, a partir de o, L e Q, é que se tem o ponto de partida de um universo em expansão, já definidos quando do universo primordial.

Se Q fosse menor do que é e os demais números se mantivessem inalterados, os agregados na matéria escura levariam mais tempo para se desenvolvere, sendo menores e mais dispersos. a formação estelar seria mais lenta e ineficiente e o material processado seria expulso da galáxia em vez de ser reciclado em novas estrelas e possíveis sistemas planetários. O gás poderia jamais se condensar em estruturas gravitacionalmente ligadas e o Universo seria um lugar escuro, mesmo com a mistura inicial de átomos, matéria escura e radiação existente neste universo.

Mas, se Q fosse maior que o apresentado, havendo ondulações de grande amplitide,o Universo seria um lugar turbulento. Regiões maiores que as galáxias se condensariam muito mais cedo que nossa história demonstra. Estas regiões não se fragmentariam em estrelas, mas em buracos negros gigantescos.

O gás seria tão quente que emitiria raios X e raios gama. Caso as galáxias se formassem, seríam muito mais coesas e as estrelas teriam movimentos instáveis para manterem sistemas planetários. Eis a razão de não haverem sistemas solares (pelo menos até então) próximos ao centro de nossa galáxia.

Q é algo crucial para a vida.

6 - D = número de dimensões espaciais em nosso mundo: este número vale 3. Em mundos com três dimensões, as forças gravitacional e elétrica obedecem a lei de inverso da quadrado da distância.

Três dimensões são cruciais para a vida, uma vez que em um mundo com duas dimensões as estruturas complexas não se formariam, como por exemplo, as moléculas da vida, uma vez que o carbono faz ligações tetraédricas.

O universo 3D, o que significa estarmos em uma tri-brana, nos permite movimentos para onde desejarmos (para frente, para trás, para direita, para a esquerda, para cima e para baixo).

Embora o espaço e o tempo estejam ligados, sendo a taxa que o tempo passa elástica, ou seja dependente de como o relógio que o mede se move e da existência de uma grande massa em suas proximidades, as ideias de Einstein mantêm a distinção entreo que está lá fora no espaço e o que está no passado ou no futuro.

Não há assimetria nas leis básicas que regem o micromundo, ocorrendo transformações irreversíveis em nosso mundo, independentemente da indiferença das leis fundamentais em relação ao passado e ao futuro.

A microestrutura do espaço tem po ainda não é conhecida, mas sabemos que ele não pode ser partido em pedaços arbitrariamente pequenos. Estes detalhes somente podem ser investigados por radiações com pequenos comprimentos de onda, sendo o seu limite o quantum básico de energia, medido pela constante de Planck.

Podemos investigar detalhes cada vez menores usando quanta cada vez mais energéticos associados a comprimentos de onda cada vez menores, mas há um limite. Este limite surge quando os quanta necessários são concentrações extremas de energia os quais colapsam em buracos negros, o que acontece no comprimento de Planck ( da ordem de 10^-19 vezes menor que um próton).

A energia destes quanta é a da massa de repouso de 10^19 prótons, sendo que a luz demora 10^-43 segundos para atravessar esta distância, que é o tempo de Planck , ou seja, o menor tempo possível de ser medido.

Portanto, mesmo o espaço e o tempo se sujeitam aos efeitos quânticos. Mas, como a gravidade é muito fraca, estes efeitos surgem em uma escala muito menor que nos átomos comuns, em que as forças controladoras são elétricas (consequências de N).

Assim, o comprimento de Planck, por enquanto é o nosso limite. Ir além dele significaria que teríamos de criar partículas com energias de um milhão de bilhões de vezes maiores que as que conseguimos produzir em laboratórios.

É obvio que efeitos quânticos podem ser desprezados para efeitos do Universo em seu atual estado, bem como a gravidade pode ser desprezada no mundo quântico. Mas, quando de seu início, estas vibrações quânticas poderiam balançar o universo, sendo a gravidade importante para um único quantum. Isso acontece no tempo de Planck, ou seja, a 10^-43 segundos da existência do Universo.

É de suma importância para a compreensão dos primeiros instantes após o big bang e para entendermos o que ocorre com o espaço tempo nas vizinhanças de um buraco negro que haja uma unificação entre a teoria quântica e a teoria gravitacional.

É aqui que o universo se torna caótico, sendo que o espaço tempo se apresenta como uma espuma sem seta do tempo bem definida, pode assumir uma estrutura em treliça, ser costurado como uma cota de malha, sendo que tempo e espaço podem se tornar semelhantes e em certo sentido não haver começo de tempo.

Flutuações podem dar origem a novos domínios os quais evoluem como universos separados dos seguintes tipos:

tipo 1: Tão distante que não podemos ver, porém está em nosso espaço-tempo tido como infinito;
tipo 2. É um universo em bolhas cada qual com seu universo mas vagando pelo espaço, sendo sua estrutura fractal. Os universos do tipo 1 estão aqui contidos;
tipo 3: Está junto com nosso universo, porém em outra dimensão, existindo em número infinito, separados por diferenças quânticas;
tipo 4: universos em membranas ou flutuações quânticas que podem ser regidos por leis bem distintas, ou seja, os 6 números aqui apresentados variarem.


Estes tipos de universo será melhor explicados em futura postagem, uma vez que o assunto é muito complexo e foge ao escopo deste tema.

A abordagem até então existente é a teoria das super-cordas, a qual propõe a unificação de todas as forças as três do micro mundo (nuclear forte, nuclear fraca e eletromagnética), além de considerar partículas elementares e a gravidade como item essencial.

Esta teoria trata as entidades fundamentais do universo não como pontos mas como aneis entrelaçados de conrdas, sendo as partículas nucleares diferentes formas de vibração destas cordas e sua escala é da orde do comprimento de Planck. Estas cordas vibram em um espaço com dez dimensões, sendo que seis estão embrulhadas no comprimento de Planck e quatro delas estão expandidas (as três espaciais e o tempo).

A partir de 1995, a teoria ganhou novo impulso, pois percebeu-se que as dimensões adicionais podem se enrolar em apenas 5 classes de espaço hexadimensional, podendo em um nível matemático mais profundo serem estruturas separadas, mas relacionadas e encravadas em um espaço de 11 dimensões.

O conceito de cordas também foi ampliado para incluir superfícies bidimensionais, as membranas. Um espaço com dez dimensões pode incluir bibranas, tribranas, tetrabranas e assim por diante. Mas a barreira para tal é que ainda não podemos observar estes fenômenos, sendo que nos resta aceitarmos o que a matemática nos demonstra.

A teoria das supercordas une a teoria da relatividade à física quântica, pois a teoria geral de Einstein interpreta a gravidade como uma curvatura em um espaço-tempo tetradimensional, o que a embute inevitavelmente na teoria das super-cordas, fazendo naturalmente surgir a conexão entre a gravidade e o princípio quântico.

A partir da exposição acima, ainda resta a pergunta: "O que é a afinação?"

Em nosso universo uma intrincada complexidade se desenvolveu a partir de leis simples com a aparente afinação de nossos seis números.

Uma afirmação do tipo tacanha seria que não poderíamos existir se estes seis números não se ajustassem de maneira especial.

Isso leva a argumentos como o do filósofo John Leslie apresentado no texto sob análise, no que concerne ao de enxergar a probabilidade ínfima acontecer ocorrer de fato como algo especial, sob intencionalidade. Porém, a placa especial do carro ou qualquer outra placa teriam a mesma chance de ocorrer. Mas aos nossos olhos se parece algo especial.

Tal como se eu jogar na mega-sena os números 1, 2, 3, 4, 5 e 6 ou 23, 15, 37, 44, 48 e 5. Aparentemente a primeira sequência aos nossos olhos parece a mais improvável, mas não é. Ambas possuem a chance de ocorrer dada por ( p = 1/C60,6). Assim, o argumento de John Leslie não faz sentido.

Mas, há uma diferença: Quanto a questão da mega-sena, as probabilidades são conhecidas, uma vez que conheço o fenômeno que as rege (o sorteio). Mas e para o Universo? Como tratar a questão probabilística se não conhecemos (pelo menos ainda) o fenômeno ou os fenômenos que o originaram? Não seriam os 6 números acima propriedades para que o Universo ou Universos se formem? E caso estes dados se alterem e provoquem uma nova "afinação"; não poderia haver um Universo igual ou ligeiramente diferente deste?

A resposta é: NÃO SABEMOS. Ainda estamos engatinhando no que se refere a muitas formas de conhecimento, os quais são frequentemente contestados pelso fundamentalistas como se a causa para tudo fosse deus, designer dentre outros nomes para seres supremos.

Logo, o argumento de Leslie se esteia naquele proferido por Paley de que há um criador que formulou o universo com a intensão de nos criar, o que se trata do princípio antrópico fraco. O princípio antrópico forte afirma, em geral, que o Universo comportou-se de forma a adaptar-se ao Homem. O fraco diz que o Universo comportou-se de forma a surgir o homem, sem esse pleito pré-definido.

John Polknghorne defende uma variante do argumento de Paley, defendendo que o Universo é um lugar especial e precisamente afinado para a vida, porque é a criação de um "criador" que deseja que ele seja assim (!?).

Mas deixando de lado as perspectivas providenciais, resta-nos aquela em que nosso big bang pode não ter sido o único e que universos distintos podem ter surgido ou surgem, sob o domínio de leis distintas e definidos por números diferentes dos do nosso Universo.

Isso não parece ser uma hipótese econômica que passasse pela "navalha de Ockham" (a ser analisada mais adiante), mas deduz-se a partir de teorias que sugerem nosso universo como apenas um átomo selecionado a partir de um multiverso infinito.

Para estes multiversos, suas leis básicas são mais tolerantes, pois propiciam que eles evoluam de formas diferentes, sob números diferentes daqueles cruciais para a formação do nosso Universo. Estes universos podem mesmo apresentar números de dimensões diferentes do nosso (quantas das 9 dimensões iniciais se tornaram compactas e quantas se desenrolaram).

Pode haver uma microfísica distinta em espaçõs tridimensionais com "L" representado por diferentes valoresque dependerá do espaço hexadimensional no qual as demais dimensões se enrolam. pode haver valores diferentes para "o" e "Q" oque afetaria seu ciclo de duração e que tipo de estrutura se formaria nele.

Pode ser que "L" e "e" estivessem fora de seus intervalos e assim a química e a formação de galáxias, estrelas e planetas não ocorresse. Pode ainda ser que N seja ou maior ou menor que 10^36 e influa no tempo de duração das estrelas ou mesmo em sua formação.

Portanto, para que haja um "Universo interessante", tem de haver um grande número de átomos, uma longa extensão temporral, ter ocorrido uma inflação com "L" da ordem de 120 vezes ao que é hoje, o que dá três soluções para o enigma do decaimento de "L":

1 - a microestrutura do espaço, que talvez envolva um conjunto de minúsculos buracos negros interligados, como uma espuma, se ajuste para que este decaimento ocorra;

2 - o decaimento seria graduale rastreia a densidade da amtéria comum, o que não seria coincidência o vácuo ter agora o mesmo "peso" que a matéria comum na formação de "o", de modo que este seja da ordem de 0,3, mas o vácuo ainda tenha energia para produzir os 0,7 restantes para levar a densidade geral até o valor crítico requerido para um universo chato;

3 - pode-se imaginar que "L" neutralize a gravidade em uma densidade particular, conforme o universo estático de Einstein. assim, à medida que o Universo se expande, o material comum fica mais difuso e a densidade cai para valores abaixo de certo limite. Portanto, a repulsão passa a ganhar da gravidade. Para o multiverso, "L" varia entre muitos valores possíveis, sendo determinado por como as dimensões se enrolam. Nos demais universos "L" apresenta um valor maior que o do nosso Universo. Entretanto podemos fazer parte do subconjunto de universos propícios a formar galáxias e que possibilite a vida complexa.

Assim, se as leis básicas determinassem de maneira única que nenhum outro tipo de Universo fosse matematicamente consistente com estas leis, teríamos de aceitar a "afinação" como fato puro e simples ou como obra divina. Por outro lado, as teorias apontam para um multiverso cuja evolução é marcada por repetidos big bangs, o que permite a diversidade nos universos individuais.

Portanto, seja filosófica como cientificamente, o argumento do designer não é adequado a qualquer especulação acerca do universo.

Primeiro pelas premissas com as quais o raciocínio é apresentado serem falaciosas, pois a resposta da conclusão já se encontra implícita nas premissas.

Segundo porque o designer simplesmente não explica nada acerca da formação do universo nem de qualquer coisa.

Terceiro porque sua presença exige um propósito, uma vez que todos os fenômenos naturais passam a ser fenômenos, conscientes conforme os desígnios de uma inteligência superior.

Quarto, porque fugir da explicação sobre a pessoa do designer em si, é o mesmo que fugir da pergunta "quem" fez os artefatos encontrados pelos nossos astronautas, "de onde" este ser veio, "o que" veio fazer aqui, "por que" veio aqui, "como" veio até aqui, conforme dado pela analogia feita pelo texto, ou seja, dizer "foi o designer" não responde nada. Trata-se de um argumento da ignorância do tipo: "É porque é e ponto."

Quinto, porque a idéia que o Universo é desenhado é algo subjetivo, sendo que as diferentes observações no mundo natural podem produzir diversas teorias sobre sua existência e desenvolvimento. As evidências para o designer são calcadas em analogias com os propósitos humanos. Todavia estes requerem ordem, o que não ocorre no universo, o qual é governado pelo caos. Desse modo, a ideia do designer se esvai, também por analogia.

Sexto, porque a ideia de um designer não dispensa explicações naturais acerca de um processo natural. Simplesmente acrescenta mais uma hipótese à explicação, sendo tal hipótese plenamente dispensável.

Sétimo porque a hipótese de um designer elimina o caráter zetético da ciência e lhe confere um aspecto dogmático em que se parte de uma petição de princípio ( foi o designer) para se traçar uma explanação acerca de um fenômeno natural qualquer.

Oitavo: abandonando-se a ideia de multiverso como propõe o texto, como poderia existir um designer antes da formação do universo? Então este designer seria nada mais que um deus ou algo parecido, uma vez que seria atemporal, adimensional e não estaria em lugar algum, portanto não existiria.

Assim, podemos claramente perceber que o designer, projetista cósmico, arquiteto do mundo, demiurgo, etc, nada mais é que um eufemismo para a palavrinha deus. Ou seja, o DI nada mais é que um criacionismo requentado, em que o designer é assim chamado a fim de dar uma maqueada em seu conteúdo religioso e assim seus proponentes terem a pretensão de elevá-lo ao caráter de ciência.

domingo, 30 de maio de 2010

Fundamentalismo cristão e a embrulhada na aposta de Pascal















Um tema sob a denominação de “Estão Avacalhando a Aposta de Pascal”, extraído daqui, muito me intrigou em sua argumentação.

O autor do texto aparenta não conhecer o contexto em que tal aposta fora feita por Blaise Pascal, uma vez que faz uma tremenda embrulhada, demonstrando um conhecimento nulo no que concerne à teoria dos sistemas e sua aplicação dentro dos diversos planos do conhecimento humano e ao próprio contexto em que fora formulada a aposta.

A Aposta de Pascal se encontra no título 233 de Pensamentos, obra de Blaise Pascal. Quem quiser conhecer a vida deste brilhante pensador, basta acessar aqui.

A obra Pensamentos, em si se trata de uma série de considerações pessoais acerca da fé professada por Pascal. No entanto, o autor deixa claro que não pretende ter a logicização da fé, mas que apenas devemos crer pelo simples fato de crermos.

Quem tiver a curiosidade de ler esta magnífica obra (sim, magnífica, não estou de gozação), poderá perceber que se trata de um grande esforço deste pensador em justificar suas crença, o Jansenismo, frente à Igreja Católica.

O Jansenismo era uma doutrina não muito bem vista pela Igreja. Assim, suas idéias eram um tanto que antagônicas às da Igreja de sua época e, portanto, por ela não muito bem aceitas. O Jansenismo possuía um viés político e de postura dogmática extremada. Ou seja, não estava aberto a novidades.

Assim, a aposta em si e a obra Pensamentos foram delineadas no contexto jansenista, o que acaba por caracterizá-la como uma visão fechada do que pode ser deus, o além e a alma. A aposta representa o seguinte raciocínio: “se A e B, então C, do contrário D" o que será visto mais adiante.

A aposta de Pascal possui 3 premissas:

Uma é a imortalidade da alma e a outra e o fato de crer-se no deus bíblico. Ambas lhe concedem a glória divina se a terceira premissa se verificar (a existência do tal deus bíblico).

Mas vejamos:

Caso sejamos imortais, para termos um pós-vida e creiamos neste deus ou deuses durante nossas vidas e, após a morte, o que garante que no além encontraremos um deus ou deuses? Veja que uma premissa (ser imortal ou crer neste deus ou deuses) não garante que este deus ou deuses exista (am).

Quanto à aposta, Pascal brinca com as probabilidades, sob o seguinte raciocínio:

Se eu tiver uma chance de ganhar a vida eterna (o infinito) em milhões de outras chances em que nada ganharei, vale a pena apostar.

Segue a aposta de Pascal, conforme extraído de Pensamentos:

*Se você acredita em Deus e nas Escrituras e estiver certo, será beneficiado com a ida ao paraíso.


* Se você acredita em Deus e nas Escrituras e estiver errado, não terá perdido nada.

* Se você não acredita em Deus e nas Escrituras e estiver certo, não terá perdido nada.

* Se você não acredita em Deus e nas Escrituras e estiver errado, você irá para o fogo eterno.


A aposta de Pascal se denomina argumento ad baculum ou da força, bem como é um falso dilema, pois somente dá duas opções (crer ou não no deus judaico-cristão -o deus que Pascal reconhecia).

Entretanto, contrariu sensu ao que o texto sob crítica faz, não podemos simplesmente ignorar outros sistemas religiosos e tomar esta aposta com apenas duas alternativas: crer no deus cristão ou não crer.

Não adianta fazer um corte metodológico, como propõe o autor do texto, a fim de que a aposta se restrinja ao deus reconhecido por Pascal. Isso seria ignorar os demais sistemas religiosos.A aposta, em si, trata realmente em se crer ou não no deus cristão.

Devemos reconhecer e ter compreensão histórica de que este deus era o único reconhecido pelo sistema religioso europeu, vigente e ratificado à época do filósofo. Assim, a aposta pode claramente ser direcionada não somente àqueles que professavam (às escondidas) outros cultos, mas também a ateus viventes nas regiões européias.

Atualmente, não podemos encerrar esta aposta apenas para o mundo cristão, o único que era reconhecido como verdadeiro e obrigatório de ser seguido pela sociedade em que Pascal vivia e para o contexto no qual ela foi proposta por seu autor.

Afinal, houve o contato com muitas culturas e todos sabemos que onde os.cristãos chegaram, impuseram suas crenças sob a espada contra os que resistiram e dando uma condição de seres inferiores àqueles que a adotaram.

Há que se considerar também que em solo europeu havia certa proibição em se professarem outros credos que divergissem daquilo que a Igreja dizia (os judeus que o digam, os hereges e as brigas entre protestantes e, católicos, idem).

Portanto, para a atualidade, em que temos de conviver com a diferença, uma vez que finalmente entenderam a liberdade de crença como um direito fundamental da pessoa humana (isso não é um pleonasmo, é corrente seu uso no direito), há que se considerarem os diversos sistemas religiosos em todas as suas nuances, sejam eles do passado anteriores a Pascal, de acordo com nossas descobertas arqueológicas, sejam aqueles posteriores ao filósofo.


A aposta de Pascal deveria, em tese, ser vislumbrada à luz de cada um destes sistemas, o que demonstraria suas falhas gritantes em termos de ser logicamente válido, bem como no que concerne na veracidade das premissas adotadas (verdadeiras apenas para o pensamento judaico cristão islâmico e, com reservas).

Por exemplo:

Sistema judaico: não aceitam o novo testamento como escrituras.

Sistema Islâmico: idem e, ainda, possuem o corão como escrituras.

O que dirá de sistemas como o budista, o afro, o indígena o das religiões do extremo oriente, etc.


O falso dilema de Pascal:

Conforme a existência de outros sistemas religiosos e, por Pascal ter ignorado o que eles propõem, após a morte (reencarnação, vagar pela terra, descanso eterno, finalismo, ida ao valhala, ao samsara, às nuvens, ao mar, as estrelas), que se traduz em não necessariamente ir-se ao céu ou ao inferno, a aposta em si é um falso dilema.

Na verdade a aposta de Pascal exclui outras hipóteses como:existirem outros deuses; qual a forma correta de se adorar este deus que ela descreve; se em vez de céu e inferno, como pregam os cristãos protestantes existir um mundo dos mortos, como pensavam os gregos; ou a existência de um mundo dos espíritos, segundo os espíritas; ou ainda a existência de um purgatório, como dizem os católicos; ou a existência de diversos níveis de evolução espiritual como dizem os budistas e hinduístas.

Quando confrontamos a proposta de crença no deus que Pascal reconhece como verdadeiro, se estivermos errados quanto a este deus? E caso seja outro ou outros que estiver/ estiverem no comando?

A aposta de Pascal mais uma vez se esvai.

Ou seja, de raciocínio lógico (validade/invalidade), bem como na concretude de suas premissas, para a variedade de sistemas religiosos existentes (veracidade/falsidade), o argumento em si não possui nada. É uma falácia.

Não nego ser a aposta dele valida ao sistema do cristianismo, também com ressalvas, uma vez que no catolicismo existe uma zona de reabilitação da alma, denominada de purgatório.

Não vejo ser a descrença em deus ou nas escrituras como um pecado que levaria diretamente ao inferno, pois tal pecado seria bem mais leve que muitos pecados dignos do purgatório.

Dessa forma, somente sistemas religiosos que ignoram outros sistemas e que assumem a sua verdade como aquela acima de tudo é que consideram a aposta de Pascal não somente válida sob o ponto de vista lógico, como verdadeira quando do exame das premissas adotadas.

Em suma, admiro Pascal pelo seu gênio na matemática e na física, bem como pela beleza de suas obras filosóficas, mesmo considerada toda a apologia religiosa existente em Pensamentos.No entanto, sua aposta sequer deve ser entendida como algo que mereça credibilidade, exceto naqueles segmentos onde se esteia o fundamentalismo de certas seitas menores do cristianismo.


Como disse um colega lá do Clube Cético:

Mesmo que se queira dar uma enorme "colher de chá" para a Aposta de Pascal e partir da hipótese de que o deus da aposta é esse e que você o está cultuando da forma correta (já que muitas seitas cristãs partem do princípio de que são a única verdadeira e as outras são heresias - você vai para o inferno só por não ser seguidor da "interpretação" correta), ela ainda sofre de um problema mortal.

Parte do princípio de que Deus é tão desesperado por adoração que vai automaticamente mandar para o paraíso um cristão falso que o adora apenas por não ter nada a perder. Se existe mesmo o tal deus judaico-cristão não há qualquer garantia de que ele vai se comportar dessa forma mesquinha tão típica dos humanos.

Então, partindo disso, eu poderia dizer que a aposta tem mais dois resultados possíveis:Se você aposta na crença e Deus não gosta desse tipo de atitude mercenária, você vai para o inferno tal qual o ateu.

Se você aposta na crença e Deus não só não gosta dessa atitude mercenária como a considera um pecado mortal e, por outro lado, dá enorme valor a franqueza e honestidade de caráter, você vai para o inferno por sua hipocrisia e o ateu vai para o céu.
Claro, se eu não quiser dar tanta "colher de chá", surgem outras possibilidades interessantes. Por exemplo, já pararam para pensar na hipótese de que talvez Deus tenha profundo ódio por quem o adora da forma errada e segue heresias das falsas interpretações do verdadeiro cristianismo (seja ele qual for) e esteja pouco se importando com os ateus, já que eles não o adoram, mas também não o ofendem com falsos cristianismos?

Nesse caso é mais seguro ser ateu. Ser cristão seria como brincar de roleta-russa com 5 balas no tambor, enquanto ser ateu é roleta-russa sem balas.
Se fosse possível provar a existência de Deus por meio de argumentos não seria necessária qualquer aposta. Isso porque ela é antes de tudo um argumento do tipo "Ok, você venceu! Não posso te provar que Deus existe. Mas pelo menos você tem que concordar comigo que o mais sensato a fazer é acreditar na sua existência, "just in case"". Ou seja, é apenas uma tentativa final desesperada de cooptar o seu interlocutor quando a sua argumentação em prol da divindade falha por absoluta falta de qualquer evidência.


Como disse outro colega:

Em Philosophy & Phenomelogical Research, um artigo de Larimore Nicholl, considera o argumento de Pascal como imoral e epistemologicamente irresponsável e critica os utilitaristas por apoiá-lo.

O próprio raciocínio de Pascal ao meu ver vai contra os fundamentos (ao menos os expostos) cristãos... acreditar para tirar proveito do mesmo dentro da concepção católica não garantiriam uma ascensão divida.

Mas se seguirmos o raciocínio dele, e se levarmos em consideração a infinidade de religiões e deuses, o que melhor garantiria uma boa pós-vida (levando também em consideração que se Deus existir ele não se importar em crer por oportunismo) seria não ter uma religião e crer numa força genérica, compreensiva e boa. Pois seria um tiro no escuro apostar na existência de algum Deus intolerante do tipo: "acredita em mim vai pro céu, acredita em outro vai pro inerno".

Caso acredite num deus genérico, bom e compreensivo, certamente compreenderá que na Terra existem tantas religiões que seria impossível escolher alguma, e por ser genérico você não perderá ou se reprimirá por dogmas impostos... logo não teria o que perder, mas teria o que ganhar.

Conclusão:

Assim, há que se considerar que o contexto da aposta de Pascal é cristão jansenista e não ecumenista, o que a anula de pronto frente às diferenças hoje existentes em termos religiosos. Portanto, temos de analisar o texto de acordo com seu contexto e, jamais, aplicá-lo indiscriminadamente a qualquer situação, da vida, da sociedade, de culturas, ou realidade, como fazem certas marcas de cristão.

A aposta vale, desde que o indivíduo seja um cristão jansenista ou um fundamentalista protestante. sem o mínimo de senso crítico. Todavia, ela perde seu valor se colocada frente aos diversos sistemas culturais, filosóficos, sociais e religiosos hoje reconhecidos e frente à dinamicidade social, o que não mais permite tal corte metodológico, como fizera Pascal ao propô-la.

Mas, analisemos: Seria este o tema da aposta de Pascal?

“Independente de ser quem você é de fato, basta acreditar que está tudo certo”.

Acredito que se existir algum deus, não é nada disso. O que será visto e pesado, serão suas atitudes e o que de fato existe em seu interior.

Então, faço um apelo a todos, inclusive aos religiosos hipócritas:

Removam suas máscaras de bonzinhos para os outros, principalmente para aqueles do seio de vossa igreja; apostem em ser pessoas boas, francas, éticas, solidárias e sinceras. Porém, jamais tenham tais atitudes para barganhar com os deuses e sim para fazer do nosso mundo um mundo melhor.


Stupid Design

Dr. Neil De Grasse Tyson fala neste vídeo sobre o "Design Inteligente" melhor classificado como Design Estúpido.

Vejamos porque:





O Dr. Neil deGrasse Tyson é um astrofísico norte-americano e, desde 1996, o Diretor do Planetário Hayden no Museu Americano de História Natural em Manhattan's Upper West Side.

Tyson escreveu, ao longo de sua carreira profissional, diversos livros populares sobre astronomia. Já participou de diversas séries televisivas sobre o Universo. Ele foi condecorado com a Distinguished Public Service Medal, a maior honra civil conferida pela NASA.

Seu site oficial se localiza aqui.