sábado, 26 de junho de 2010

Maus usos da filosofia e ignorância científica Parte 4

Texto 4:

Este texto retoma a ideia de ajuste fino do universo, já devidamente tratada de forma científica em nossa primeira postagem, em resposta ao que propôs o primeiro texto sob análise (Texto 1).

Os argumentos apresentados neste texto insistem em um universo finamente ajustado que possibilite a existência de vida e em sua improbabilidade de existir por mera casualidade.

A argumentação tem seu ponto em um raciocínio proposto por John Leslie, o qual tenta fazer uma analogia entre a possibilidade de existir o Universo e a de um tiro disparado aleatóriamente acertar uma única mosca pousada em uma grande área livre de uma parede. Se o resto da parede, fora da área de nossa mosca, estivesse coberto de moscas o tiro teria boas chances de acertar uma mosca.

Todavia o argumento proposto por Leslie em sua pseudo-analogia com a questão da existência do Universo ou de multiversos, parece excluir estes da análise, relembrando que temos os seguintes tipos de universos:

tipo 1: Tão distante que não podemos ver, porém está em nosso espaço-tempo tido como infinito;

tipo 2. É um universo em bolhas cada qual com seu universo mas vagando pelo espaço, sendo sua estrutura fractal. Os universos do tipo 1 estão aqui contidos;

tipo 3: Está junto com nosso universo, porém em outra dimensão, existindo em número infinito, separados por diferenças quânticas;

tipo 4: universos em membranas ou flutuações quânticas que podem ser regidos por leis bem distintas, ou seja, os 6 números aqui apresentados variarem.

O texto se encerra com o designer sendo a resposta para o argumento proposto por Leslie.

Bem, aqui devemos fazer uma viagem ao passado, voltando a Grécia de Leucipo, em 450 a.C., uma vez que a questão acaso x necessidade remonta aos gregos e ainda, em nossos dias, está sendo debtida.

Leucipo afirmara: "Nada acontece aleatoriamente; tudo acontecepor alguma razão e por necessidade." Tal pensamento era sustentado pela "Escola Atomista", sendo que seus pensadores identificavam o acaso como "causa oculta".

este argumento continuou a ser sustentado por Demócrito (460 - 370 a.C.), o sucessos de Leucipo. Para demócrito, o acaso representava a "ignorância da causa determinante".

Os estóicos também repudiaram a ideia de evento sem causa. Crísipo (280 - 207 a.C. ?) afirmara: "Não existe nada que se possa chamar de ausência de causa ou espontaneidade. Nos chamados pulsos acidentais, inventados por alguns, existem causas ocultasà nossa visão que determinam o impulso numa determinada direção."

Já os epiciristas que a crença na necessidade (que eventos são predeterminados e a consequente eliminação de eventos sem causa) era incompatível com o livre arbítrio. Epicuro (341 - 270 a.C.)aceitava a teoria básica dos atomistas, mas se distanciava deles ao acreditar que um desvio sem causa, espontâneo, dos átomosfazia com que colidisse, e que a incerteza do desvio admitiria o elemento do livre arbítrio.

A filosofia epicurista é bem documentada por Lucrécio (96 a 55 a.C.?) no poema De rerum natura. Para Epicuro e Lucrécio, o acaso abrangia o aspecto indeterminista.

Nossa viagem continua pela Idade Média, onde o determinismo imperou, incentivado pela crença da então incipiente igreja cristã de que tudo acontecia sob o comando do Criador.

No primeiro posto falamos sobre os argumentos ontológico, cosmológico e teleológico, porém vale a pena agora conhecermos as 5 vias que provam a existência de deus, elaboradas por Tomás de Aquino (1224 a 1274).

Tomás de Aquino dirigiu sua obra a Suma Teológica, no sentido de compatibilizar o pensamento grego de Aristóteles ao cristianismo. Entretanto, Aquino contrasta com Anselmo no que se refere ao argumento ontológico, rejeitando-o e criticando-o.

Vejamos as 5 vias da prova da existência de deus em uma articulação entre fé e razão:

A Suma Teológica se divide em três tratados (sendo que o terceiro ficou incompleto), os quais subdividem as questões que analisam nos principais aspectos de seus temas. As questões se subdividem em artigos, onde são examinadas várias posições acerca destes temas. Formula objeções e elabora soluções e respostas pautadas no pensamento aristotélico.

A exploração de nosso tema tem partida na segunda questão do primeiro tratado, cujo tema é "a existência de Deus".

1 - O primeiro artigo parte do problema "se a existência de deus é auto-evidente". Aquino examina as teses em favor desta posição e por fim as refuta.

1.1 - O primeiro argumento consiste em entender o conhecimento auto-evidente como inato, natural ao homem. Assim, o conhecimento de Deus seria natural ao homem e, portanto, auto-evidente. Aquino responde que o conhecimento humano acerca de Deus é um conhecimento natural confuso, o que não equivale a um conhecimento absoluto de que Deus existe.

1.2 - O segundo argumento é uma versão da prova ontológica de Anselmo, sem lhe fazer referência. O argumento centra-se na ideia de que Deus é o ser supremo, aquele maior do que nada pode ser pensado. Quem tem esta definição de Deus no intelecto, deve aceitar a existência real de Deus, pois caso este não existisse, haveria algo maior que ele, já que existir é mais do que não existir, e assim, teriamos uma contradição. Portanto, a existência de deus no intelecto acarreta sua existência na realidade.

Aquino rejeita a passagem do entendimento da definição de deus (existência no intelecto) para sua existência real. Esta definição pode não ser aceitao que torna o argumento circular, uma vez que se pressupõe aquilo que se quer provar e também porque existir no intelecto difere de existir na realidade.

1.3 - O terceiro argumento se refere à existência da verdade auto-evidente, já que é impossível negar a verdade, pois quem a nega supõe que a negação seja verdadeira. O Evangelho proclama que deus é a verdade, portanto a existência de deus é auto-evidente.

Aquino responde que a existência da verdade é, em geral auto-evidente, mas não de uma verdade primeira determinada. Conforme Aristóteles não se póde pensar o oposto do que é auto-evidente, como se pode pensar que Deus não existe: a existência de deus não é auto-evidente.

Assim Aquino conclui que como não conhecemos diretamente a essência de Deus, este não é auto-evidente e, portanto, necessita ser demonstrado por aquilo que conhecemos.

2 - O segundo artigo discute se a existência de deus pode ser demonstrada. De início, Aquino supõe que não pode ser demonstrada e deve ser considerada como auto-evidente. A questão aqui apresentada é um desdobramento do primeiro artigo.

2.1 - O primeiro argumento afirma que a existência de deus não pode ser provada por ser um artigo de fé. Uma demonstração produz conhecimento e deus não é conhecido como tal.

Para aquino, a existência dedeus e de seus atributos enquanto elementos da razão natural, não são artigos de fé, mas pressupostos destes. Assim, a fé pressupõe a razão.

2.2 - O segundo argumento parte da ideia de que Deus é indemonstrável em sua existência, pois sua essência não pode ser conhecida, sendo a essência pressuposto da demonstração. Assim, somente pode-se dizer o que Deus não é.

Aquino responde que em uma demonstração não se supõe um conhecimento da essência, mas parte-se apenas do sentido do nome daquilo cuja existência se deseja demonstrar, sendo o sentido do nome de Deus constituído simplesmente por seus efeitos.

2.3 - O terceiro argumento afirma que só se poderia demonstrar a existência de Deus por seus efeitos. Os efeitos de deus lhes são inferiores, uma vez que são finitos. Todavia, Deus é infinito.

Aquino responde que embora a partir dos efeitos não possamos alcançar um conhecimento perfeito de Deus podemos demonstrar sua existência. Pode-se conhecer o invisível através do visível, porém é preciso demonstrar que a existência de Deus pode ser demonstrada a partir da existência das coisas presentes no mundo criado.

Dessa forma, há dois sentidos de demonstrar:

- propterquid: demonstra-se algo a partir da causa, ou seja, da essência, às suas propriedades, da causa ao efeito, o que equivale a argumentar a partir daquilo que é primeiro em um sentido absoluto, porém isso é impossível à razão humana.

- quia: pode-se demonstrar algo a partir de seus efeitos, ou seja, argumentar a partir daquilo que é primeiro para nós, isto é, do efeito para a causa, o que equivale a um método regressivo.

Assim, Aquino conclui que podemos demonstrar a existência de Deus, embora não o conheçamos em sua essência, mas temos como partida os efeitos que nos são conhecidos.

3 - O terceiro artigo é onde encontramos as cinco vias da demonstração da existência de Deus, que se tratam da argumentação por meio da qual se pode provar que Deus existe.

3.1 - A primeira via: baseia-se no argumento do movimento, cuja inspiração está em Física de Aristóteles. O movimento se caracteriza pela passagem de potência a ato. Somente algo que existe em ato pode fazer com que algo que existe em potência passe a ato. Portanto, tudo que se move é movido por algo imóvel, já que não se pode admitir uma regressão ao infinito. Então entende-se Deus como sendo o primeiro motor.

3.2 - A segunda via parte da noção aristotélica de causa eficiente. nada pode ser causa eficiente de si próprio, pois nesse caso seria anterior a si próprio. Tal como no primeiro argumento, não se pode admitir uma regressão ao infinito no que se refere às causas. Portanto, Deus é a primeira causa eficiente.

3.3 - A terceira via é o argumento cosmológico, cujas bases também são calcadas no pensamento de Aristóteles, na noção de necessidade e contingência. Este argumento visa a explicar a necessidade da existência do Universo(o cosmo). A contingência é constatada na natureza, mas nem todas as coisas podem ser contingentes, senão seria possível que não houvesse nada. Mas aquilo que não existe somente pode começar a existir a partir daquilo que já existe anteriormente. É preciso assim que algo do que existe seja necessário. Logo, Deus é o primeiro ser origem de todas a necessidade.

3.4 - A quarta via tem como ponto de partida a existência de todas as coisas. Todas as coisas têm um predicado ou qualidade em grau maior ou menor, se caracterizam por um termo comparativo. Portanto, há pressuposto um parâmetro máximo. Assim, Deus é o ser perfeito, ou seja, aquele que tem o máximo de perfeição (realização de atributos ou qualidades).

3.5 - A quinta via é o argumento teleológico, que parte da noção de finalidade (telos) ou causa final, em que deve haver um propósito ou finalidade na natureza, caso contrário o Universo não tenderia para o mesmo fim ou resultado. assim, a causa inteligente dessa determinação é Deus.

A partir destes argumentos, Aquino buscou demonstrar a existência de Deus a partir da razão naturalconciliando a revelação (o que trazem as Escrituras) com a teologia natural (a noção de Deus que nós temos).

Esta linha argumentativa revalorizou o espírito do aristotelismo do mundo natural como objeto de conhecimento e assim, funde-se à crença hebraica revelada, referente à criação do mundo, a qual tem as marcas de seu criador.

Tal postura legitimou o ponto de vista teológico relacionado à investigação científica do mundo natural, motivo de curuisidade para o homem medieval, sob influência das obras científicas de Aristóteles e dos árabes como Averrois.

O pensamento de Aquino se denomina TOMISMO, o qual é um ssitema filosófico - teológico que se tornou integrante da doutrina da igreja. Seu princípio basilar reside na ideia de que entre razão e fé, embora haja distinção entre ambas, também ha colaboração. É pela razão que se demonstram algumas verdades da fé (a existência e unicidade de Deus), que se explicam os mistérios da fé por meio de imagens, metáforas e semelhanças e são dadas respostas às objeções dos ateus.

Thomas Hobbes (1588 a 1679) manteve a linha tomista de que todos os eventos eram predeterminados por Deus ou por causas extrínsecas, também por Deus, determinadas. assim, tudo provinha da necessidade (a quarta via de Aquino).

A esse ponto se contrapôs Bramhall, o bispo de Derry ao admitir uma indeterminabilidade nos eventos, o que denominou por contingência (eventos contingentes podem ou não acontecer ou podem acontecer de uma ou de outra forma).

Por meio deste raciocínio, Bramhall salienta que apesar de qualquer evento específico ser determinado por leis físicas, há tantos aspectos circunstânciais envolvidos na situação que levam a resultados indeterminados. Assim, este pensamento distingue a determinabilidade de uma situação quando ela acontece e a indeterminabilidade antes que ela aconteça.

Assim, caso haja o total controle das situações iniciais, em que a plena certeza do comportamento de todos os componentes desta situação, o evento deixara de ser aleatório e passara a ser determinístico.

Mas ao investigarem os céus e a Terra, os cientistas do passado se depararam com alguns problemas, como a obtenção de medidas diferentes ao trabalharem com uma mesma entidade. Era o erro aleatório que sempre aparecia de forma inesperadaem trabalhos que investigavam casos da natureza em busca de fatos sobre fenômenos exatos (distâncias astronômicas e orbitais), a antítese da aleatoriedade.

Tycho Brahe (1546 a 1601), ao final do século XVI, lutou para eliminar estes erros, em busca da exatidão das medidas.

Em 1632, Galileo formulou as seguintes proposições referentes ao erro aleatório:

1 - Os erros são inevitáveis;
2- os erros pequenos são mais prováveis que os grandes;

3- os erros de medição são simétricos, tendento a subestimar como a superestimar;
4- o verdadeiro valor da constante observada está próximo da maior concentração das medições.


Mas é com o trabalho de Newton (1643 a 1627) sobre a gravitação que essa ideia de aleatoriedade sofre grande abalo. Newton descreveu matematicamente como funcionava o campo gravitacional e com isso surge a crença de que tudo na natureza poderia ser formulado por meio da matemática.

Assim, se tudo se adequava a um projeto matemático, então deveria existir um grande projetista, pois o acaso e a aleatoriedade, de acordo com este pensamento, não teriam lugar.

Mas os erros persistiram e a exatidão continuou a estar longe de ser alcançada.

Com isso começa a surgir a noção de estatística como forma de medir esta aleatoriedade. É um trabalho emblemático de Thomas Simpson, em 1756, que demonstra que a probabilidade da média estar errada por um determinado valor é menor que a probabilidade de uma única observação estar errada pelo mesmo valor.

Mas é com daniel Bernoulli, em 1777, que a ideia de aleatoriedade se firma, uma vez que claramente percebeu que erros nas medidas astronômicas eram resultados aleatórios e acrescentou que todo o complexo de observações simplesmente se trata de evento aleatório.

Mas o que isso tudo tem a ver com o texto 4 e a aleatoriedade envolvida na geração e existência de um Universo ou de multiversos?


O que se percebe é que o Texto 4 e toda sua linha argumentativa tem assento na filosofia tomista que perdurou até Newton, uma vez que sua matemática da gravitação intuia a exatidão nas medidas do universo.

Tal ideia está de pleno acordo com a filosofia tomista e, portanto, com os desígnios de um criador o que se traduz em um forte raciocínio antrópico de que nosso Universo é raro com suas condições certas, todas surgidas conjuntamente para tornar a sua exist~encia e a vida possível.

Entretanto, conforme expõe o artigo A Busca pela Vida na Estranheza do Multiverso, publicado na Scientific American - Brasil, ano 8, n. 93, estudos sugerem que alguns outros universos (admitindo-se que eles existam) podem afinal não ser tão inóspitos.

Há valores alternativos para as constantes fundamentais e, portanto, conjuntos alternativos de leis físicas, passiveis de levarem a mundos bem interessantes e à vida. Muda-se um aspecto da natureza e compensa-se tal mudança em outros aspectos.

O ajuste fino consiste em tomar-se uma das constantes do Universo e alterá-la, mantendo-se as demais constantes inalteradas. Roda-se o filme do Universo e vê-se o que acontece, por meio de simulações em computador. Entretanto, não há qualquer razão para que apenas uma das constantes do Universo se altere. O que seria esperado é uma alteração de diversos parãmetros de uma única vez.

O ajuste fino é invocado como uma evidência indireta da existência do multiverso. Teoricamente, embora a hipótese de que o, Universo tenha começado como um minúsculo pedaço de espaço-tempo muito pequeno se sustente por meios de dados astronômicos, a cosmologia ainda não possui um modelo teórico definitivo para a inflação.

Todavia, a teoria sugere que diferentes pedaços de espaço-tempo podem inflar a taxas diferentes entre si e que cada um desses pedaços poderia formar uma pequena bolsa que se tornaria um universo autônomo, caracterizado por suas próprias constantes da natureza.

O espaço entre estes universos continuaria em uma expansão tão rápida que seria mesmo maior que a velocidade da luz.

Outra razão para se suspeitar que multiversos existem se refere à constante cosmológica (o nosso L do primeiro post), representante da energia do vácuo. É previsto pela física quântica que mesmo o espaço vazio possui energia e assim, a constante cosmológica seria tão grande que o universo se expandiria tão rapidamente que estruturas como galáxias não se formariam e se fosse pequena, o universo recolapsaria.

Mas, em 1998, descobriu-se o Universo está na realidade se expandindo a uma taxa acelerada devido a uma forma misteriosa de "energia escura", o que implica em uma constante cosmológica positiva e minúscula conforme demonstrara Steven Weinberg, em 1997, o que demonstra ser esta enegia demasiado diluída.

Os testes realizados em simulações aplicados à força nuclear fraca e às massas dos quarks parecem ter falhado ao se provocarem alterações na constante cosmológica. Isso leva a uma impossibilidade de encontrar um universo propício em que a constante cosmológica supere o valor para ela observado. Assim, dentro de um multiverso, a maioria dos universos poderia ter constantes cosmológicas incompatíveis com a formação de qualquer estrutura.

Argumentos teóricos baseados em teoria das cordas (extensão especulativa do Modelo Padrão que tenta descrever todas as forças como vibrações de cordas microscópicas) parecem confirmar tal cenário.

Sugere-se que durante a inflação (teoria proposta por Alan Guth), tanto a constante cosmológica como outros parãmetros poderiam ter assumido virtualmente um intervalo ilimitado de valores diferentes que é o Panorama da Teoria das Cordas (Scientific AmericanBrasil, ano 3, n. 29) .

Segundo a teoria das cordas, as leis da física observadas no mundo dependem da forma em que dimensões adicionais do espaço-tempo encontram-se emaranhadas, formando um pacote minúsculo.

Dessa forma, ao serem apuradas todas as configurações possíveis destas dimensões adicionais, há um panorama onde cada vale corresponde a um conjunto estável de leis.

O universo visível existe dentro de uma região do espaço-tempo associada a um vale deste panorama, o qual produz leis físicas adequadas à evolução da vida. Mas este Universo está em um vale é aleatório, em meio a um conjunto infinito de vales, em um vasto panorama de possibilidades.

Mas porque esta constante é tão pequena, algo em torno de 10 ^- 120? Para isso teremos de adentrar ao mundo da teoria das cordas.


O MUNDO DA TEORIA DAS CORDAS Adaptado de O Panorama da Teoria das Cordas: Scientific American - Brasil, ano 3, n. 29):

Todos sabemos que a teoria da relatividade geral propõe que a gravidade surge da geometria do espaço e tempo que se combinam para formar o espaço-tempo. Assim, o tempo para corpos nas proximidades de outros corpos massivos flui mais lentamente que caso estejam mais distantes.

É a brincadeira do GPS: Se o aparelho estiver na superfície da Terra, seu tempo fluira mais lentamente que se estivesse a 20 km de altura. Considerando-se apenas os efeitos gravitacionais e não a sua velocidade em torno da órbita do planeta, fenômeno este descrito pela teoria da relatividade geral (mais gravidade, mais lentamente flui o tempo) e, caso consideremos sua velocidade a 20 Km de altura, o fenômeno será descrito pela teoria da relatividade restrita e seu templo fluirá mais lentamente (mais velocidade, mais devagar o tempo flui), sempre considerado o observador externo. Isso ai é ao contrario mesmo!!!

Desa forma, considerando-se a questão gravitacional, deve haver alguma explicação geométrica para que tal fenômeno ocorra, bem como para as outras forças da natureza e mesmo no que se refere à existência das partículas elementares.

Theodor Kaluza e Oscar Klein propuseram que enquanto a gravidade reflete a forma das quatro dimensões do espaço-tempo que conhecemos, o eletromagnetismo surge da geometria de uma qunta dimensão, muito pequena para ser enxergada (pelo menos por enquanto).

Dessa forma, conceitos geométricos têm desempenhado impostante papel em tais estudos. Assim, a ideis de Kaluza e Klein foi ampliada como uma das característica da teoria das cordas , até entã a mais promissora unificação da mecânica quântica com a relatividade geral (e aqui) e a física de partículas.

Tanto nas conjecturas de Kaluza Klein quanto na teoria das cordas, as leis da física observáveis são controladas pela forma e pelo tamanho das dimensões microscópicas adicionais.

O eletromagnetismo bem como a gravidade decaem de forma inversamente proporcional ao quadrado da distância de sua fonte, o que seria um indício plausível para especular a respeito da conexão entre ambas as forças. A teoria geométrica da gravidade fornecia esta conexão caso se adicionasse a ela uma quinta dimensão, que estaria enrodilhada em um círculo suficientemente pequeno, porém invisível até ao microscópio mais potente.

A relatividade geral já demonstrara que o espaço é flexível. As três dimensões que vemos hoje estão se expandindo, de forma que não é difícil imaginar uma outra dimensão que ainda continue invisível.

Apesar de não ser diretamente detectável, esta quinta dimensão teria efeitos indiretos muito importantes, os quais poderiam ser observados e, com isso, a relatividade geral passaria a descrever um espaço-tempo pentadimensional. Esta geometria pode ser dividida em três elementos:

1 - a forma das quatro grandes dimensões do espaço-tempo;
2- o ângulo entre a dimensão de pequeno porte e as outras dimensões;
3- a circunferência da dimensão menor.

O espaço-tempo maior comporta-se de acordo com a teoria da relatividade geral quadridimensional comum. Em cada ponto de seu interior, o ângulo e a circunferência apresentam um dado valor, como dois campos permeando o espaço-tempo e assumindo certos valores em cada ponto. O campo de ângulo tem ação parecida com a de um campo eletromagnético de um universo quadridimensional. A circunferência determina as intensidades relativas das forças eletromagnética e gravitacional.

A possibilidade de dimensões adicionais também assumiu um papel cricial na unificação da relatividade geral e da mecânica quântica , por meio da ideia de que partículas são, na verdade, padrões de vibração de pequenos objetos unidimensionais (minúsculos laços ou fios. O tamanho normal de uma corda é próximo ao comprimento de Planck ou 10^-33 cm.

Assim, uma corda tem a aparência de um ponto quando vista sob qualquer escala maior que o comprimento de Planck.

Para que as equações representativas da teoria das cordas sejam matematicamente consistentes, uma corda deve vibrar em 10 dimensões de espaço-tempo, o que implica a existência de seis minúsculas dimensões adicionais.

Ao lado das corda, superfícies denominadas branas, que possuem diversas dimensões podem estar imersas no espaço-tempo. A teoria das cordas ainda contém fluxos ou forças que podem ser representadas por linhas de campo, tal como o que se verifica no eletromagnetismo clássico.

O quadro da teoria das cordas é bem mais complicado que aquele apresentado pela teoria de Kaluza e Klein, mas sua matemática é mais unificada e completa. Mas o tema de ambas é o mesmo: as leis físicas que enxergamos dependem da geometria de dimensões adicionais ocultas.

A solução para as equações da teoria das cordas são muitas, daí haver muitas geometrias possíveis. A teoria de Kaluza e Klein, com sua geometria pentadimensional e a relatividade geral cuja geometria é tetradimensional são casos particulares.

Na teoria das cordas há diversas dimensões adicionais o que resulta em uma série de parâmetros novos. Uma única dimensão somente pode estar enrolada em um círculo. Já, quando há mais de uma dimensão adicional, o conjunto por elas formado se apresentará sob muitas formas ou topologias diferentes, como uma esfera, uma rosca, duas roscas unidas, etc.

Cada laço de uma rosca (a alça) possui um comprimento e uma circunferência, o que gera um enorme conjunto de geometrias possíveis para as dimensões de pequeno porte. Mas os inúmeros conjuntos de soluções não são iguais, sendo que cada configuração possui uma energia potencial para a qual contribuem os fluxos, as branas e a própria curvatura das dimensões enrodilhadas.

A esta energia denomina-se energia de vácuo, por ser a energia do espaço-tempo quando as quatro dimensões grandes estão completamente livres de matéria ou de campos. a geometria das dimensões pequenas tenta se ajustar, a fim de minimizar esta energia, tal como a bola sobre o topo de uma rampa que rola para baixo.

A fim de compreender as consequências dessa minimização, há que se concentrar no tamamnho geral do espaço oculto. Qualquer solução para as equações da teoria das cordas representa uma configuração específica de espaço e tempo e um arranjo distinto das dimensões menores, juntamente com as branas a elas associadas e com as linhas de fluxo.

Por exemplo, para tamanhos muito pequenos, a energia é elevada de modo que a curva formar um pico a esquerda. Depois, esta energia desce e forma três vales cada qual mais baixo que o anterior. Por fim, à direita, após o último vale, a curva desce suavemente tendendo a um valor constante. O ponto mais baixo do vale localizado mais a esquerda, encontra-se acima da energia zero, o central é exatamente zero e o direito se encontra abaixo de zero.

O comportamento do espaço oculto depende de suas condições iniciais, ou seja, do ponto de unde irá se formar sua curva descendente. caso a configuração se inicie à direita do último pico, a curva tenderá ao infinito e o tamanho do espaço oculto aumentará interminavelmente, deixando de ser oculto.

Caso contrário, haverá o equilíbrio em um dos pontos mais baixos dos vales, sendo que o tamanho do espaço oculto se ajusta a fim de minimizar a energia. Mas estes três mínimos se diferenciam por suas energias de vácuo (positiva, nula ou negativa).

Em nosso universo, o tamanho das dimensões ocultas não varia com o tempo. Do contrário, as constantes da natureza também se alterariam. Dessa forma, nosso universo deve estar parado em um mínimo, com energia de vácuo ligeiramente positiva.

Uma vez que há mais de um parâmetro envolvido, segundo Leonard Susskind da Universidade Stanford, devemos imaginar essa curva como uma fatia de uma cadeia de montanhas complexa e multidimensional que se denomina panorama da teoria das cordas.

Os mínimos dessa paisagem multidimensional corrspondem às configurações estáveis do espaço-tempo, denominadas de vácuos estáveis. Este panorama é muito complexo e possui centenas de direções independentes que não devem ser confundidas com as dimensões espaciais do mundo. cada eixo mede não alguma posição no espaço físico, mas algum aspecto da geometria, como tamanho de uma alça ou posição de uma brana.

O cálculo da energia de um estado de vácuo é muito complexo e requer aproximações adequadas, mas progressos estão ocorrendo, como aquele realizado por Shamit Kachru, Renata Kalosh, Andrei Linde, todos da Stanford e sandip Trivedi do Instituto Tata de Pesquisa Fundamental em Mumbai que chegaram a conclusão de que o panorama das cordas realmente tem mínimos nos quais um universo pode ficar preso.

Sobre o número de vácuos não há uma certeza, sedo que há pesquisas que sugerem soluções com até 500 alças, Pode-se enrolar diferentes numeros de linha de fluxo em cada alça, mas há um limite, uma vez que elas tornariam o espaço instável.

Supondo-se que cada alça tenha entre zero e nove linhas de fluxo (10 valores possíveis), haveria 10^500 configurações possíveis. Se cada alça tivesse zero e uma unidade de fluxo (2 valores)haveria 2^500 possibilidades.

Além de afetar a energia de vácuo, cada uma das muitas soliuções gerará diferentes fenômenos no mundo macroscópico, definindo quais tipos de partículas e forças estão presentes, bem como suas massas e intensidades de interação.

Mas para que questões como por que o universo obedece às leis especificas que possui, qual vácuo estável descreve o mundo que vivemos, por que a natureza escolheu este vácuo específico e não outro, muito terá de se progredir no estudo do panorama das cordas.

Caso esteja correta a teoria das cordas, ela representará uma depuração nos diversos estados garantindo a apenas alguns a possibilidade de ser digno de possuir um universo.

Em vez de se reduzir o panorama a um único vácuo, pode-se propor situações diferentes baseadas em duas importantes ideias:

1 - que o mundo não precisa estar preso a uma configuração das pequenas dimensões para sempre, já que um processo quântico raro possibilita que pequenas dimensões pulem de uma configuração para outra;

2 - a relatividade geral que é uma parte da teoria das cordas, implica que o Universo pode crescer tão rapidamente que configurações diferentes coexistam lado a lado, em diferentes subuniversos, cada um suficientemente grande para desconhecer a existência de outros.

Cada vácuo estável é caracterizado por seu número de alças, branas e quanta de fluxo, mas há que se considerar que cada um desses elementos pode ser criado e destruído, de modo que, após períodos de estabilidade, o mundo pode passar a uma configuração diferente. Na estrutura do panorama, o desaparecimento de uma linha de fluxo ou qualquer mudança na topologia, constitui-se em um salto quântico sobre o cume de um pico que termina em um vale mais baixo.

Assim, podem surgir diferentes vácuos. E.g. suponhamos que cada uma das 500 alças comece com 9 unidades de fluxo. Uma a uma estas 4500 unidads decairão em alguma sequência governada pelas previsões probabilísticas da teoria quântica, até que toda energia armazenada nos fluxos seja consumida.

Começamos em um vale de uma montanha alta, saltando aleatoriamente os cumes adjacentes, visitando 4500 vales, cada vez mais baixos. Há um cenário com algumas variações (uma pequena fração das 10^500 soluções possíveis). Prece que a maior parte dos vácuos jamais chegará a nada.

Todavia, neste exemplo ignoramos o efeito da energia de vácuo na maneira como o Universo evolui. Objetos como galáxia e estrelas tendem a desacelerar um Universo em expansão, até fazer com que ele novamente colapse.

No entanto, a energia de vácuo positiva age como antigravidade, fazendo com que as dimensões que enxergamos cresçam cada vez mais rápido, sendo que tal expansão tem um efeito impórtante e surpreendente quando as dimensões ocultas se afunilam para formar uma nova configuração.

Vale lembrar que em nosso espaço tridimensional (deixando-se o tempo de lado), há um pequeno espaço de seis dimensões. Quando esse pequeno espaço salta para uma nova configuração, isso não ocorre no mesmo instante em toda parte. O tunelamento se dá primeiro em um ponto do Universotridimensional. Uma bolha da nova configuração de baixa energia sofre rápida expansão.

Caso as três dimensões não estivessem se expandindo, essa bolha em crescimento, engoliria todos os pontos do universo. Mas a região antiga também está se expandindo e esta expansão pode facilmente se tornar mais rápida que a da nova bolha.

Assim, ambas as regiões aumentam e a nova jamais obliterará a antiga. Este resultado é possível é a geometria dinâmica de Einstein, sendo que a relatividade geral não é um jogo de soma zero; esticar o tecido espacial permite a criação de novos volumes, tanto para o vácuo antigo, como para o novo. Isso também funcionará quando o nevo vácuo também envelhecer. Este não desaparecerá por completo, mas gerará uma bolha crescente, ocupada por um vácuo com energia ainda mais baixa.

Em razão da configuração original continuar a crescer, haverá um novo decaimento em outro ponto, ocupando outro mínimo próximo ao panorama. O processo continuará infinitas vezes, o que faz com que cada bolha abrigue soluções novas.

Em vez do decaimento de uma única sequência de fluxo, o Universo passa a experimentar todas as sequências possíveis em uma hierarquia de bolhas alojadas ou subuniversos. Tal resultado é bem similar ao cenário de inflação proposto por Alan Guth do MIT, Alexander Vilenkin da Universidade de Tufts e Andrei Linde da Universidade de Stanford.

Desde que o ponto de partida seja o alto das montanhas do panorama, praticamente todos os vales representantes dos mínimos serão visitados, cada um será alcançado infinitas vezes, por todos os caminhos possíveis. A situação somente terminará quando culminar na energia negativa (vale abaixo de zero), onde a geometria que se associa a energia de vácuo negativa não permite a continuação perpétua da expansão e a formação de bolhas.

Em cada bolha de regiões de baixa energia positiva, surgirá um universo quadridimensional (com as três domensões visíveis e o tempo), com suas próprias leis da física, que influenciarão na formação de estrelas, galáxias, síntese de elemetos, na química, na biologia e na possibilidade de haver condições para abrigar formas de vida.

Não vemos as leis de fora de nossa bolha, devido ao espaço estar se expandindo rápido demais para que a luz o ultrapasse. Vemos apenas as leis correspondentes ao nosso vácuo local, pois não conseguimo enxergar muito longe.

Em nosso cenário o que vemos como Big Bang nada mais é que o salto mais recente para uma nova configuração, que certamente em um dia muito distante esta parte do espaço poderá vivenciar outra transição do mesmo tipo.

Esse quadro explica como surgiram todos os diferentes tipos de vácuos estáveis do panoerama das cordas em vários pontos do Universo, formando inúmeros subuniversos. Esse resultado pode sulucionar um dos problemas mais umportantes e antigos da física teórica ligado á energia de vácuo.

Este temo era denominado por Einstein de constante cosmológica, adicionado a sua equação da relatividade geral de modo a torná-la consistente com sua convicção de que o Universo era estático. Esta constante assumira um valor positivo, mas foi abandonada quando Edwin Huble detectou que o Universo se expandia.

Com o advento da teoria do campo quântico, o vácuo se tornou um lugar movimentado, repleto de partículas e campos virtuais surgindo e desaparexcendo, com cada partícula e campo carregando uma energia positiva ou negativa.

Segundo cálculos baseados nessa teoria, tais energias deveriam somar uma tremenda densidade de cerca de 10^94 g/cm^3, ou uma massa de Planck por comprimento de Planck cúbico (Lp). Tal resultado levou o nome de "previsão mais equivocada da física, pois experimentos demosntraram que a energia de vácuo definitivamente não é maior que 10^-120Lp. Isso levou a física teórica a uma crise por 3 décadas.

Qual a origem de tal discrepância?

No ano 2000, combinou-se a riqueza de soluções da teoria das cordas e sua dinâmica cosmológica com um insight proposto por Steven Weiberg da Universidade do Texas, a fim de conseguir tanto uma razão quanto um mecanismo para este fato.

De início, há que se considerar a riqueza das soluções. A energia de vácuo é apenas a elevação vertical de um oponto do panorama, variando de cerca de +Λp nos picos até -Λp até os vales mais profundos abaixo de zero.

Supondo-se que existam 10^500 mínimos, suas elevações estarão aleatoriamente entre estes dois valores. A serem marcadas todas estas elevações em um eixo vertical, o espaçamento médio entre elas será de 10^-500 Λp.

Muitas, ainda que representem uma pequena fração do total, terão, portanto, valores entre zero e 10^-120Λp. Tal resultado explica como surgem valores tão pequenos. Andrei Sakharov sugeriu em 1984 que as geometrias complexas das dimensões ocultas poderiam produzir um espectro para a energia de vácuo que incluísse valores dentro da variação experimental.

Assim, de acordo com o acima descrito, explica-se como a cosmologia povoa a maior parte dos mínimos, gerando um Universo complicado, que contêm bolhas com todos os valores imagináveis de energia de vácuo.

Mas restam as perguntas:

Em que bolha nós estamos?
Por que nossa energia de vácuo estaria tão próxima de zero?

É aqui que o insight de Weinberg entra; certamente há um elemento de sorte, mas muitos locais são tão inóspitos que não é de se estranhar que não vivamos neles. Apenas uma pequena fração dos vácuos estáveis é favorável a vida.

Regiões do Universo com grande energia de vácuo positiva sofrem expansões tão intensas que não permitem que nada se forme.

Devido ao tunelamento quântico ser um processo aleatório, pontos muito distantes do universo decaem através de diferentes sequências de vácuos. Assim, todo o panorama é explorado, sendo que dcada vácuo estável ocorre em diversos pontos do universo. Desse modo, todo o universo é uma espuma de bolhas se expandindo dentro de bolhas, cada qual com suas próprias leis físicas e a parte que é visível de nosso universo é apenas uma pequena região dentro destas bolhas.

O tunelamento quântico surge do princípio da incerteza de Heisemberg. O tunelamento quântico consiste no evento de uma partícula atravessar uma região em que a energia potencial é maior do que a sua energia total - esta barreira é intransponível na mecânica clássica, pois a energia cinética da partícula seria negativa na região.

Já regiões com elevada energia de vácuo negativa rapidamente colapsam. Em ambos os casos não seria possível um universo destes abrigar vida. Vivemos onde podemos viver e, portanto, não devemos nos surpreender se a energia de vácuo em nossa bolha seja minúscula, sem jamais ser zero. A isso denominamos de raciocínio antrópico.

Cerca de 10^380 vácuos se encontram na posição ideal, mas apenas uma miníscula fração deles estará no zero exato. Caso estes vácuos se distribuam aleatoriamente, 90% deles estarão entre 0,1 e 1 * 10^-118 Λp. Portanto, se a imagem do panorama estiver correta, deveria ser observada uma energia de vácuo diferente de zero, provavelmente não muto inferior a 10^-118 Λp.

Estudos com super-novas distantes mostraram que o Universo visível está em em aceleração (sinal da presença de energia de vácuo positiva). O valor desta energia foi estimado, a partir da taxa de aceleração, em 10^-120 Λp, um valor suficientemente pequeno para ter escapado da detecção de outros experimentos, mas suficientemente grande para que a explicação antrópica seja plausível.

Einstein costumava se perguntar se deus teve escolha ao criar o Universo da maneira que ele é ou se as leis cósmicas seriam definidas por algum princípio fundamental. Um cientista só pode esperar que a segunda opção seja a correta. As leis básicas da teoria das cordas, apesar de ainda não completamente conhecidas, aparentam ser completamente fixas e inevitáveis; a matemática não permite escolhas.

Mas, as leis observadas mais diretamente não se tratam de leis básicas, pois dependem das formas das dimensões ocultas e, por isso, as opções são muitas. Os detahes que observamos na natureza não são inevitáveis, mas uma consequência da bolha específica em que vivemos.

Para responder se o panorama das cordas faz outras previsões além do pequeno valor da energia de vácuo, necessita-se de uma compreensão muito maior sobre o espectro de vácuos, sendo que não se localizou ainda um vácuo estável específico que reproduza as leis da física de nosso espaço-tempo quadridimensional.

Importantes conhecimentos físicos ainda terão de ser descobertos a fim de melhor clarearem as equações da teoria das cordas ou implodirem o modelo do panorama de vácuos de corda ou a cascata de bolhas que o povoam.

Mas, do ponto de vista experimental, o fato da energia de vácuo se positiva e difernte de zero parece ser uma conclusão quase inevitável das observações . Porém ha que se considerar que dados cosmológicos nos surpreendam.

É cedo para encerrarem-se as buscas por explicações distintas da aqui apresentada, mas é igualmente tolo ignorar a possibilidade de que surgimos em um dos cantos mais brandos de um Universo.

CONCLUSÃO SOBRE A ANÁLISE E SOBRE O TEXTO APRESENTADO:

Desse modo, claramente podemos perceber que até o momento a questão para um universo existir ou não dentro de determinados parâmetros não se trata de uma questão determinística escolhida por alguma coisa

Esta questão se resume á natureza propriamente dita, no que concerne às leis físicas do universo, dependentes da aleatoriedade de flutuações quânticas que podem ou não gerar as condições para que universos ocorram.

Como praticamente todos os vales representantes dos mínimos serão visitados, cada um será alcançado infinitas vezes, por todos os caminhos possíveis de uma sequência de vácuos existentes na região deste ponto do Universo.

Assim, nada impede que aleatoriamente uma dessas sequências repetidamente visitadas culmine em uma bolha e se faça um universo. O próprio grau de infinidade dessas "visitas a vales" anula o efeito probabilístico ínfimo de ocorrer um Universo capaz de abrigar a vida. Mas é claro que , segundo o que conhecemos, ele deverá estar dentro dos limites de nossa constante cosmológica.

Dessa forma, "chutar" a questão para um designer ou o diabo que seja, apegando-se a uma ideia de tempos medievais, não passa de ignorância referente aos progressos da física, além de estancamento de uma questão muito interessante para o conhecimento humano, que é saber o que é o Universo.

Ciência não se constrói filosofando, mas fazendo-se experimentos sobre hipóteses formuladas decorrentes da observação de um fenômeno. Estas hipóteses experimentadas se converterão em uma teoria que pode ser contra ou a favor das hipóteses formuladas, sem que se leve a posição ideológico-pessoal do cientista, primando-se pela honestidade deste estudioso.

O cientista, diferentemente dos fanáticos religiosos, possui um compromisso com a verdade. Caso minta, cairá em desgraça e perderá seu crédito. Já um fanático caso seja pego em suas falcatruas simplesmente deixará de auferir vantagens a partir de seus fiéi$$$. Ou seja, mexeu com o meu dinheiro mexeu comigo!!!!

sábado, 5 de junho de 2010

Maus usos da filosofia e ignorância científica Parte 3

TEXTO 3:

Na verdade este ponto não se trata de um texto, mas de uma palestra ou um quiz show em que Lane Craig "O senhor Erística" é a principal personagem.

Vejamos os vídeos e breves comentários sobre eles:

Vídeo 1: Aqui Craig analisa o argumento da contingência o qual diz que o Universo e tudo mais tem de ter uma explicação, devido a sua necessidade ou a uma causa externa, e que para o Universo existir tem de haver uma mente pessoal e transcendente.

Ao comparar a causa da existência das coisas Craig faz falsas analogias, pois compara objetos produzidos pelo homem (mente consciente) com coisas que existem na natureza (processo inconsciente) como se deliberadamente fossem a mesma coisa.

A natureza e o Universo, não demandam uma necessidade para existir, por exemplo, qual a necessidade de Eta-Karina existir? Não tenho a menor ideia, mas quem tiver por favor diga.

Sobre os entes matemáticos, estes não existiam na natureza, mas foram criados pelo homem a fim de representá-la em suas propriedades, por meio de modelos que se aproximam em muito da realidade. Daí os axiomas, postulados, teoremas, conforme tratados aqui.

Craig está correto em afirmar que há causas para as coisas existirem, porém extrapola em seu raciocínio ao colocar como a causa uma inteligência suprema, em vez de assumir que explicações científicas racionais suprem perfeitamente boa parte do que ele acha ser inexplicável. Mas por que motivos esta "consciência superior" teria criado o Universo?

Video 2: Neste ponto Craig analisa o argumento cosmológico. Este argumento é dado por:

(1) Tudo o que existe tem uma causa. (premissa 1)

(2) O Universo existe. (premissa 2)

(3) Portanto, o Universo tem uma causa para a sua existência. (conclusão inferida pelas premissas 1 e 2)

Até aqui, o argumento possui premissas verdadeiras, é logicamente válido e é sólido, pois leva a uma conclusão verdadeira.

Mas vemos ver a sequência deste argumento:

(4) Se o Universo tem uma causa para a sua existência, essa causa é Deus.
Deus aqui surge do nada. Qual é a evidência concreta que atesta ser deus uma causa para o universo?

(5) Logo, Deus existe.
Esta conclusão perde o objeto pela conclusão 2 não ser categoricamente verdadeira e não ter nada que a apóie em termos evidenciais. Tampouco a afirmativa de que deus é a causa do universo guarda relação com as premissas anteriormente expostas.

Vejamos a segunda parte deste raciocínio reestruturada:

Deus existe e é a causa primeira para tudo. (1)

Há uma causa primeira para a existência do universo. (2)

Assim, deus é a causa primeira para o Universo. (C)

No argumento, a premissa (1) é no mínimo duvidosa, não podendo ser tratada como verdadeira pois nada a evidencia.

A premissa (2) é evidenciável, portanto verdadeira.

O raciocínio é logicamente válido pois (1) e (2) inferem (C), há a distribuição do termo médio (causa primeira) de forma correta.

Mas não é sólido, pois (C) não pode ser encarada como uma conclusão verdadeira e pelo fato da premissa (1) ser no mínimo duvidosa.

Como todos já sabemos que a lógica não tem compromisso com a verdade, mas apenas com as estruturas de raciocínio. A lógica apenas preserva a verdade, ou seja, se há premissas verdadeiras e se é aplicada uma forma válida de argumento, obter-se-á uma conclusão verdadeira. Assim, o argumento acima não pode ser tomado como verdadeiro, mas apenas logicamente válido.

Quanto ao conteúdo do vídeo, na terceira premissa do argumento (o Universo tem uma causa), deliberadamente, Craig estabelece esta causa como sendo novamente a inteligência superior como sendo as razões para esta causa.

Ao expor que a teoria da Relatividade geral se aplicada ao universo como um todo demarca um início, Craig omite ou desconhece que a teoria quântica não leva a um início do universo como o começo de tudo, mas à existência de vários universos de 4 tipos, sendo que estes surgem e desaparecem em um ciclo infinito.

A teoria da gravitação quântica pretende unificar a teoria quântica (que descreve a força nuclear forte, a fraca e a eletromagnética, para o micro-mundo) com a teoria da relatividade geral (que descreve a gravidade em estruturas de larga escala), ao tratar a gravidade como uma partícula.

A teoria das cordas previu a existência do graviton (sempre atrativos), a suposta partícula responsável pela transmissão da força gravitacional em modelos de teorias quânticas de campo.

A hipótese é que a força gravitacional é similarmente transmitida por esta partícula elementar, ainda não descoberta, ao invés de descrita em termos de curvatura espaço-tempo como a relatividade geral. No limite clássico, ambas as abordagens fornecem resultados idênticos, e compatíveis com a lei de gravitação de Newton (Feynman, R. P.. Feynman lectures on gravitation; Zee, A.. Quantum Field Theory in a Nutshell; Randall, Lisa. Warped Passages: Unraveling the Universe's Hidden Dimensions).

Dessa forma, flutuações quânticas dentre estas 4 forças podem ser a resposta para a origem do Universo ou de infinitos universos antes e após este e contemporâneos deste.

Certamente, para um Universo em particular, somente podemos falar te espaço-tempo, a partir do momento que uma singularidade se dissocia e irrompe em um processo inflacionário (teoria proposta por Alan Guth) criando um novo Universo.

Segundo a teoria, a inflação foi produzida por uma densidade de energia do vácuo negativa ou uma espécie de força gravitacional repulsiva.

é uma energia de fundo existente no espaço inclusive na ausência de todo tipo de matéria. A energia do vácuo tem uma origem puramente quantica.

A energia do vácuo teria também importantes consequências cosmológicas estando relacionada com o período inicial de expansão inflacionária e com a aparente aceleração atual da expansão do Universo. Esta expansão pode ser modelada com uma constante cosmológica não nula. Consequentemente todo o universo observável poderia ter-se originado numa pequena região.

E, é nesta pequena região que podemos falar que houve uma flutuação quântica do vácuo que tenha gerado este Universo.

Segundo o Efeito Casimir
, proposto em 1948, pelos físicos holandêses Hendrik Brugt Gerhard Casimir (1909-2000) e Dirk Polder (1919-2001) do Philips Research Laboratories, há a existência de uma força (energia) no vácuo, devido a suas flutuações quânticas. Essa força foi primeiro medida por Marcus Spaarnay, também da Philips, em 1958, mas mais precisamente em 1997 (Physical Review Letters, 78, 5), por Steve K. Lamoreaux, do Los Alamos National Laboratory, e por Umar Mohideen, da University of California em Riverside, e seu colaborador Anushree Roy (1998, Physical Review Letters, 81, 4549).

Ver aqui.

Assim, a argumentação de Craig em torno do argumento cosmológico se esvai, pois cientificamente começamos a ter respostas para muitos de seus questionamentos, que excluem a ideia da inteligência ou consciência suprema, a qual demandaria muito mais explicações ou se fecharia em um ponto estanque característico do dogmatismo religioso.

O argumento cosmológico pode ser válido, em termos lógicos, porém não há solidez, pois suas premissas e sua conclusão podem ser falsas ou no mínimo duvidosas.

É aqui que os argumentos de Craig caem por terra. Eles apenas se revestem de uma aparência de veracidade pela lógica, mas no fundo não passam de irreais, pois a lógica não guarda qq correspondência com a realidade. É isso que religiosos não entendem e, portanto, tomam todo o jogo retórico de Craig como se fosse algo que merecesse crédito.

veja aqui as noções de lógica.

Vídeo 3: Neste ponto, Craig analisa o argumento teleológico. Este argumento apresenta duas variantes teleológicas na premissa 1 (necessidade física ou o design) e uma terceira premissa que seria o acaso.

Deliberadamente o argumento exclui a necessidade física e o acaso, o que demonstra estar a premissa do design (a conclusão esperada) implicitamente escondida na premissa 2.

Portanto o argumento é uma falácia da dispersão, construída em um misto entre falso dilema (necessidade física/design e acaso) com um argumento da ignorância (o qual estabelece o designe como resposta).

A explicação para desconstrur este argumento se encontra no ponto em que discorremos sobre a afinação do Universo (aqui).

Analisando-se as falas de Craig, ele deliberadamente estabelece que o Universo foi construído para ter vida inteligente, como se conhecesse profundamente a geração de universos e as propriedades para haver vida neste universo. Entretanto craig onite o fato do Universo ser uma lugar mortal.

Se o fim do Universo fosse a vida, as estrelas não morreriam, não haveria explosões de raios gama, não haveria planetas infernais, infernos gelados e planetas alternados entre extremo calor e extremo frio devido a órbitas super excêntricas e, tampouco, as "ilhas de calmaria" seriam tão escassas.

Assim, o acaso pode ter existido na flutuação quântica do vácuo (possível choque entre duas ou mais branas ou o inchaço e rompimento de um brana), mas a partir daí, pode ser que haja propriedades para que os universos se formem.

Sobre a vida e sua origem, acredita-se em uma origem química. Mas, todos sabemos que em química o acaso depende choques moleculares. Mas há aqueles choques mais propícios de acontecerem e, portanto, mais prováveis devido a propriedades periódicas e aperiódicas dos elementos. Assim, poderiam ter surgido pequenas moléculas associadas em hipercíclos (teoria proposta por Manfred Eigen) que colhiam matéria do meio para se alimentarem, crescerem e se reproduzirem e, portanto, evoluírem (ver aqui).

Portanto, para questões ligadas à vida, o acaso reside em como se comportará o nosso planeta e o que acontecerá com ele; qual será a próxima erupção, o próximo terremoto, o próximo asteróide, que mudança climática irá ocorrer, dentre outras causas naturais, a fim de que os seres se adaptem e evoluam.

Mas estabelecer probabilidades, partindo-se de um hiperciclo para se chegar a um elefante, é algo errôneo, uma vez que não se trata de um projeto o que estamos discutindo, ou seja, a vida nãop planejou que um elefante existisse (não se pode estabelecer para um fenômeno natural uma finalidade, pois não se trata de um fenômeno consciente). O elefante passou a existir por circunstâncias relacionadas aos problemas que nosso planeta enfrentou, o que determinou os caminhos a serem tomaos pela evolução das espécies.

Ao comentar o acaso, Craig parece demonstrar conhecer tudo sobre o Universo, as origens da vida e a evolução das espécies uma vez que é capaz de falar sobre probabilidades de eventos e excluir deliberadamente o acaso, numa forte alusão ao princípio antrópico fraco.

Craig estabelece que a noção de multiversos seja mera postulação metafísica, como forma de excluir o design, o que é falso. Em sentido aristotélico, a metafísica é algo intocável, que só existe no mundo das idéias.

Obviamente ninguém até o momento sequer viu um universo paralelo, e tampouco sabemos se de fato existem, embora a física quântica leve a estes resultados. Ver aqui e aqui.

Todavia deliberadamente como resposta estabelecer um designer como solução do problema da existência do Universo, não responde absolutamente nada, seja em termos filosóficos ou científicos.

Video 4: Neste ponto Craig explana o argumento moral para a existência de deus. O argumento se resume em:

premissa 1 - Se deus não existe, valores e obrigações objetivas morais não existem;

premissa 2 - Valores e obrigações objetivas morais existem;

conclusão - deus existe


O argumento em si é também falacioso, pois como o próprio Craig diz, embora sendo contrário a esta ideia, de fato os julgamentos morais estão de acordo com a sociedade ou a cultura em que o sujeito vive.

Mas atenção!!! Isso não quer dizer que podemos fazer o que bem entendermos e alegarmos "em nossa cultura ou em nossa sociedade é assim". Para tal temos de nos remeter à noção de sistemas, ou seja, determinadas condutas serão postas de acordo com os três modais deônticos: o obrigatório, o permitido e o proibido.

Mas é claro que se estou vivendo sob um sistema que difere daquele em que cresci, terei de me submeter aos seus modais deônticos, a fim de que não crie problemas que possam prejudicar outros indivíduos e a mim mesmo, o que poderia gerar o conflito e ,os consequentes problemas sociais.

Por exemplo, se nasci em uma sociedade indígena sul americana que não usa roupas, não significa que poderei andar nu em uma sociedade islâmica. É obrigatório que eu me vista segundo um padrão de mínimo aceitável para aquela sociedade.

Caso eu venha de uma sociedade cujo costume é a poligamia, é proibido que aqui no Brasil eu contraia mais de um matrimônio.

Caso eu professe o cristianismo, é permitido que eu o faça no Japão, que é uma sociedade budista e xintoísta.

É por meio destes três modais deônticos que os valores morais ganham um sentido a fim de que em determinada sociedade, os indivíduos convivam uns com os outros, pois do contrário as sociedades entrariam em colápso, o que poderia levar a espécie humana à extinção, fosse em seus primórdios como hoje em dia.

Mas qual a base destes modais deônticos? É necessário criar um padrão de respeito recíproco ao qual todos os indivíduos devem submeter-se, para que o bem comum possa ser garantido. Aqui reside a ética, já em suas fronteiras com a moral. Entende-se, desse modo, que a ética se assenta no conceito sociobiológico de altruísmo, o princípio moral que leva um agente a buscar o bem de outros em vez de defender apenas seus interesses particulares.

Peter Singer, em The Expandede Circle, acredita ser possível explicar a origem da ética a partir do altruísmo.
Singer encontra em Darwin uma melhor explicação da origem da ética (o ramo da filosofia que busca estudar e indicar o melhor modo de viver no cotidiano e na sociedade), pois ele distingue diferentes tipos de altruísmo:

o altruísmo natural de parentesco, voltado à defesa dos interesses de membros da própria espécie;

o altruísmo recíproco, voltado à defesa dos interesses de outros indivíduos não pertencentes à própria linhagem genética, mas capazes de retribuição;

o altruísmo tribal, voltado à defesa dos interesses do próprio grupo.

É por meio destas formas de altruísmo que Henry Sidgwick descreve o desenvolvimento moral humano (fundamentado na obediência a normas, tabus, costumes ou mandamentos culturais, hierárquicos ou religiosos recebidos).

A ética pode encontrar-se com a moral pois a suporta, na medida em que não existem costumes ou hábitos sociais completamente separados de uma ética individual. Da ética individual se passa a um valor social, e deste, quando devidamente enraizado numa sociedade, se passa à lei.

Assim, pode-se afirmar, seguindo este raciocínio, que não existe lei sem uma ética que lhe sirva de alicerce. Mas o que define uma lei ? É a partir da combinatória dos três modais deônticos que se dá a dinâmica operacional do direito e este direito positivado nas sociedades modernas implica o controle do que é ou não lícito, por meio de um sistema jurídico, onde estão as leis.

O altruísmo que é a base para a construção das sociedades humanas é estudado pela sociobiologia.

A sociobiologia é um ramo da biologia que tem estudado o comportamento social dos animais, sendo que ela propõe que tais comportamentos também se verificam nos seres humanos. O termo foi popularizado pelo biólogo Eduard Osborne Wilson, em seu livro Sociobiologia: a nova síntese.

De acordo com esta teoria, o cérebro humano, ao longo de sua evolução, desde nossos ancestrais, sofreu pressões seletivas que o adaptaram a determinadas circunstãncias, sendo uma delas a vida em grupo.

Um organismo geneticamente propenso ao altruísmo, por exemplo, poderia ter ganhos maiores se o ambiente fosse propício a isso, conforme demonstrou o biólogo Robert Trivers. Assim, sentimentos como a compaixão seriam influenciados por fatores genéticos, e portanto deveriam ser estudados com base na biologia.

Entretanto, para a sociobiologia, nenhuma ação humana pode ser considerada genuinamente altruísta.

Para ser ético é preciso que o agente moral seja capaz de fazer uso do intelecto, do pensamento, da razão.

Embora as emoções estejam na base da moralidade, elas se originam-se nas experiências do bom e do ruim, particulares ao indivíduo. Assim, não podem servir de medida objetiva para definir o que se faz de bom ou de ruim a outros seres vivos, especialmente quando esses não privam do mesmo habitat natural, social e emocional do agente moral.

Ao usar a razão, algo que o altruísmo ético (querer o bem dos outros, ainda que disso não tiremos proveito algum) exige, o agente moral pode ser obrigado a contrariar suas intuições morais.

Intuitivamente, seguindo a descrição sociobiológica de nossa natureza, buscamos apenas proteger os interesses dos seres que se parecem conosco. Esta ética tribal animalesca não se presta para reger interações em mundos urbanos compostos por seres absolutamente não identificados uns com os outros.

Ao agir eticamente busca-se o bem-próprio de quem sofre a ação, ainda que este ou esta não se pareça em nada conosco, nem faça parte de nosso grupo, nem possa nos retribuir o ato. O bem desse outro representa para nós o valor a ser preservado.

Os fatos de sua aparência singular, embora não representem valor algum para nós, podem dar-nos algum esclarecimento sobre as condições do paciente moral. Mas fatos não nos levam à ação. Os valores, pelo contrário, são as legítimas motivações para o agir moral. Em suma, nossos genes não escolhem nossas premissas éticas. Nós o fazemos usando nossa razão. Nenhum fato genético mostra direção alguma para nossos atos.

Embora seres humanos também sejam objeto de estudo pela Sociobiologia, eles apresentam um fator que os torna diferentes da maioria dos animais sociais: a cultura.

A cultura é capaz de promover transformações na forma como os humanos interagem com seu ambiente, independente de sua herança genética. Logo, para os sociobiólogos, o comportamento é fenótipo, ou seja, é um produto dos genes com o ambiente.

Mas, predisposições genéticas podem ser influenciadas pelo ambiente, o que pode acarretar o aparecimento de organismos com características comportamentais geneticamente predispostas, sem se esperar chegar ao 100 por cento.

Um tipo de comportamento humano em relação ao qual existe uma forte predisposição genética pode ser considerado como parte da natureza humana. A natureza humana não é vista como algo que force os indivíduos a comportar-se de certa maneira, mas como algo que torna os indivíduos mais inclinados a agir de uma determinada maneira do que noutra.

Entretanto, o conceito de natureza humana é visto com reservas pelos cientistas sociais, sendo que atribuir-lhe um caráter científico é um tanto arriscado. A grande diversidade de sociedades humanas e suas diferenças culturais contradizem a argumentação de uma natureza humana geneticamente determinada e moldada para a seleção natural.

Mas isso não afasta o ser humano da natureza, colocando a cultura como realidade desvinculada das coisas naturais, sem levar suas dimensões biológico-evolucionárias que nitidamente são compartilhadas pelos primatas superiores.

Portanto não são apenas os homens que possuem capacidade de simbolizar. Primatas superiores também o fazem. Mas humanos conseguem fazê-lo de forma muito mais complexa e é isso que leva às diferenças culturais, sendo que hábitos e práticas sociais estão em consonância com a sobrevivência das populações. Porém as diferenças de costumes não se explicam pela necessidade de subsistir, pois o meio ambiente influencia sem determinar.

O costume é o nome dado a qualquer regra social resultante de uma prática reiterada de forma generalizada e prolongada, o que resulta numa certa convicção de obrigatoriedade, de acordo com cada sociedade e cultura específica. O costume se perfaz por duas vias integradas:

Repetição constante e uniforme de uma prática social - o uso - obediência a uma conduta por parte de uma coletividade;

Convicção de que prática social reiterada, constante e uniforme é necessária e obrigatória - psicológico.

A reiteração do uso forma o costume, que, na lição de Vicente Ráo, vem a ser a regra de conduta criada espontaneamente pela consciência comum do povo, que a observa por modo constante e uniforme, e sob a convicção de corresponder a uma necessidade jurídica.

Embora o meio não determine nossos costumes, estes têm esteio também nos três modais deônticos, cuja base estána moral que se assenta na ética a qual se constrói pelo altruísmo sob suas três vertentes.

Assim, a necessidade do altruísmo da ética e da moral humanas, não se trata em meramente subsistir, mas conviver, crescer e progredir, conceitos estes que diferem da consciência animal que busca apenas sobreviver.

Dessa forma, a moral é a chave para o progresso de uma sociedade, no momento em que os indivíduos se vêm obrigados a agir dentro de certos padrões que, enraizados na sociedade, que se tornam, de início um costume. Posteriormente estes costumes convertem-se em regras de Direito e, por fim, normas positivadas ao que denominamos de leis.

Portanto, afirmar com base no argumento moral que a existência de deus é necessária para a moralidade, é algo muito temerário, uma vez que o argumento se assenta na premissa de que existem valores e obrigações morais objetivos, o que é falso, conforme a variedade social em cultural em que o ser humano vive.

Em toda sua exposição, Craig não citou sequer um exemplo de valor moral e obrigação objetivos. Entendemos o que é errado, intolerante e detestável.

Por exemplo, enviar jovens para a travessarem um campo minado para estes morrerem e permitir que tropas avancem em uma ofensiva, nos parece abarcar todos estes conceitos, negativos, mas isso ocorreu na Guerra entre Irã e Iraque. Porém, famílias iranianas vêem estes jovens como mártires.

Fazer genocídios de tribos indígenas matando-se mulheres e crianças e escravizar índios e negros, também nos parece tudo de ruim, mas aconteceu aqui nas Américas, sendo que tudo era visto com normalidade.

Portanto, nossa moral não depende da existência de deus mas de nosso desenvolvimento moral humano, calcado na ética (cuja matriz é o altruísmo), na medida em que não existem costumes ou hábitos sociais completamente separados de uma ética individual, a qual passa a um valor social, (orientado pelos três modais deônticos) e, quando devidamente enraizado numa sociedade, torna-se uma lei.

Ética e moral não nos obrigama seguir condutas, pois a máxima sanção que poderemos ter é de cunho social, mas a lei nos obriga a segur determinadas condutas, pois do contrário teremos sanções penais que podem atingir nossa liberdade e patrimoniais que poderão avançar sobre nossos bens.

Ler: aqui, aqui, aqui , aqui , aqui e aqui


Vídeo 5: Neste ponto Craig trata do argumento da ressurreição. De início Craig se restringe apenas aos monoteísmos judaico, cristão e islâmico.

Todavia ele considera deliberadamente que deus se revelou na pessoa de Jesus, pois este afirmou ser o filho de deus (SIC). Porém, tais afirmativas foram corroboradas pela ressurreição.

Craig se baseia no Novo Testamento, mencionando historiadores experts nesta área. Entretanto, não há menções históricas sobre estes fatos exceto na bíblia. Uma questão se refere ao Testimonium Flavianum, escrito por Flavio Josefo em Antiguidades Judaicas, o qual menciona ter existido Jesus.

Segundo historiadores isso é falso, pois Flavio Josefo teria dito que Jesus era o Cristo e, portanto teria negado sua fé de judeu, o que não se tem conhecimento.

Mas Craig baseia sua argumentação no livro de N.T. Wright, o qual dá sua "opinião profissional" de que a tumba vazia e as aparições pós morte de Jesus são tão bem atestadas que chegam a se comparar com eventos como a queda de Jerusalém e aos Césares.

Craig também aposta na sinceridade das pessoas que escreveram os textos antigos que mencionavam Jesus e afirma serem estes fonte de vasta informação , conferindo a Jesus o título de pessoa mais popular da antiguidade.

Porém, não é o que se verifica historicamente, exceto se analisarmos a bíblia em si.

Entretanto, a fim de concluir que o deus cristão é o verdadeiro, Craig se baseia no argumento da tumba vazia,e das aparições de Jesus, assumindo deliberadamente serem estas premissas c verdadeiras.

Esta premissa leva a hipótese de que Jesus foi ressussitado ser a explicação para o fato da tumba vazia, e das aparições, sem considerar qualquer outra hipótese, como por exemplo o furto do corpo, imaginação das pessoas ou mesmo a hipótese de Jesus ter escapado com vida de seu martírio.

Como consequencia, Craig estabelece que isso foi a revelação de deus na pessoa de Jesus e, portanto o deus verdadeiro é o cristão.

Vemos que em sí o argumento é uma falácia, pois a conclusão já se encontra embutida em suas premissas.

Vídeo 6:Neste ponto Craig trata do problema do mal. Craig começa dizendo que realmente o problema do mal, quando analisado sob a óticas das emoções, causa muitas dúvidas sobre a existência ou mesmo sobre o caráter de deus.

Mas ao se analisar a questão sob a ótica filosófica, é impossível estabelecer um parâmetro para se afirmar que deus é improvável ou que ele não existe. Entretanto, filosofica, científica ou emocionalmente, também é impossível afirmar-se qualquer coisa que ateste a existência deste ser.

Craig se pauta em um argumento que ele diz ser lógico (SIC) em que deus e o mal são incompatíveis e que se um existe o outro não pode existir. Todavia não há contradições entre deus ser "onitudo" e o mal existir.

Craig assenta esta premissa no livre arbítrio, ou seja, as criaturas capazes de raciocinar podem escolher entre bem e mal. Na visão de Craig, se deus criasse então um mundo sem o mal, removeria a capacidade das pessoas conhecerem o bem moral. Assim, para Craig um mundo sem mal seria imperfeito, pois eliminaria a possibilidade de se conhecer o bem moral (como se em um mundo perfeito fosse necessário se ter domínio do que é bom).

Ainda, Craig aventa que a onipotência não significa que deus possa fazer o que bem entender. Mas onipotência, segundo o dicionário Houaiss, significa a capacidade de um ser poder fazer tudo. Portanto deus não é onipotente segundo o que Craig diz.

No que se refere sobre a onibenevolência de deus para um mundo onde não haja o mal, Craig aventa a hipótese de que deve haver muitas vezes o mal para que um bem maior sobrevenha. Mas para que haveria a necessidade de um bem maior em um mundo perfeito onde todos fossem felizes?

Craig prova a compatibilidade entre a existência do mal e de deus no argumento de que deus não poderia criar um mundo que tivesse mais bem que o mundo real mas com menos mal, uma vez que ele tem razões morais para que o mal exista. Por meio deste argumento Craig considera a questão do mal solucionada.

Mas se deus se atrela a questões morais para que o mal exista, então ele não possui onipotência e, tampouco, possui onibenevolência, mas nenhuma destas características se opõe a sua existência ou inexistência. Este foi o erro de Hitchens, que não deveria jamais ter questionado a existência de deus, mas apenas suas características.

A conclusão para estas análises, é a de que Craig cria uma aura de que argumentos filosóficos assumam a característica de reais, o que confunde a platéia leiga. Pelo menos por enquanto, não podemos provar a existência ou não dos deuses, do mundo dos espíritos, ou da veracidade desta ou daquela religião.

Em suma, o compromisso de Craig não é com a verdade, mas em apenas vencer debates por meio de argumentos erísticos que beiram ao ridículo. Caso Hitchens seguisse os conselhos de Craig, em estudar mais a temática da argumentação e a filosofia em si, poderia pegar suas falácias no pulo e evitaria ele próprio em cair nesta classe de argumentos.

Nem ateus e nem crentes estão corretos em suas premissas e conclusões, pois como asseverou Kant, é impossível provar que deus exista, porém isso não implica afirmar que ele não exista.


quinta-feira, 3 de junho de 2010

Maus usos da filosofia e ignorância científica Parte 2

TEXTO 2:

O segundo texto vai na linha do primeiro. Em virtude da contestação de um leitor, a explicação agora ganha o auxílio de nada mais que J. P. Moreland e William Lane Craig, este denominado de "senhor erística" (técnica empregada com o objetivo de vencer uma discussão e não necessariamente de descobrir a verdade sobre determinada questão).

Não sei qual dos dois escreveu o texto, mas me parece bem ao gosto de Lane Craig, uma vez que implicitamente se vale das probabilidade para criar o ofuscamento da realidade.
O texto já começa com bobagem, ao tocar no tema da matéria e da antimatéria primordiais, conforme segue:

"Se a matéria e a antimatéria primordiais tivessem proporções diferentes, se o universo tivesse se expandido um pouco mais lentamente, sem que a entropia do universo fosse magistralmente maior, qualquer desses e de outros ajustes teria impedido a existência do “universo com vida”, embora tudo pareça perfeitamente possível no aspecto físico."
Ora, matéria e antimatéria no universo primordial tinham quantidades diferentes, pois se assim não fosse teriamos um mar de energia apenas.


Uma brevíssima história do universo:
No início, a 10^-11 segundos após o início do universo, quarks e antiquarks existiam em taxas iguas e se aniqulavam em radiação e devido às altas temperaturas se recriavam por meio desta radiação, para novamente se aniquilarem.

Com a expansão, o Universo começou a esfriar. Com este resfriamento, reduziu-se a possiblidade de criação de pares quark/antiquark e mais números de quarks que de antiquarks passaram a existir. Isso se verifica pois hoje temos mais quarks que antiquarks e prótons e nêutros são feitos de quarks.

A 10^-10 segundos, começam a se formar as partículas responsáveis pela força nuclear fraca. Os bósons são as partículas que transmitem a força nuclear fraca (que propicia a fissão de núcleos) e estes são muito pesados. A força nuclear fraca é a que propicia a cisão das partículas, e é responsável pelo decaimento beta (emissão de um elétron ou de um pósitron).

O seu ganho de massa se deve a um processo denominado quebra espontânea de simetria que ocorre em uma escala definida de energia. Acima desta escala, os bósons não possuem massa, assim como os fótonse glúons. abaixo desta escala os bósons são grandes e pesados e a força nuclear fraca passa a agir em distâncias da ordem de 10^-18 m.

Em 10^-4 s, os quarks e os glúons se uniram confinando-se nos mésons (méson pi) e nos bárions (próyons e nêutrons). A esta coesão denominamos de força nuclear forte.

Em 1 s, nêutrons e prótons cambiavam-se uns nos outros devido a emissão e absorção de neutrinos. Com o resfriamento do universo, este processo diminuiu e foram deixados 7 prótons para um nêutron. Isso ocorreu devido ao nêutron decair em próton, em um elétron e um elétron antineutrino. Mas os prótons não decaem em nada.

Com a expansão do universo e seu resfriamento, a conversão de prótons em nêutrons se reduziu, mas os nêutrons continuaram a decair em prótons. Para o hidrogênio é necessário apenas um próton e para o hélio são necessários 2 prótons e 2 nêutrons. Esta é a "razão de existir" mais hidrogênio que qualquer coisa no Universo.

A 100 s, com a expansão e o resfriamento, prótons e nêutrons puderam então mantêrem-se coesos formando núcleos atômicos de elementos leves (hidrogênio, hélio e lítio). A este processo se denomina nucleossíntese. Com isso pode-se perceber reduções da entropia local devido a queda de temperatura que permitiu a aproximação entre prótons e nêutrons.

Após 10 mil anos, mais e mais matéria passa a ser criada a partir da radiação de alta energia. Esta matéria formada determinou como o Universo se expandiria.

Em 500 mil anos, com o resfriamento do universo, os elétrons puderam ser capturados pelos núcleos e assim, formaram-se os átomos, e as primeiras moléculas, mas ainda de elementos leves.

No intervalo de 1 bilhão de anos, com os átomos formados, as forças gravitacionais começaram a se tornar importantes. O gás hidrogênio coalesceu e colapsou, dando início à fusão nuclear, criando as primeiras estrelas.

Em um intervalo de 2 a 13 bilhões de anos, os elementos pesados começaram a ser cozidos no interior das estrelas e, com a morte destas, eram ejetados no espaço.
O assunto sobre estas forças será mais profundamente tratado em postagem específica.

Isso propiciou a formação de sistemas planetários que passaram a circundar estrelas de segunda ou de terceira ordem. Na periferia destes sistemas se formaram os gigantes gasosos e mais interiormente os planetas rochosos, os quais se estiverem em uma "zona goldilocks" podem dar origem a vida.

Assim, como vimos na postagem anterior, para este universo, os 6 números estudados se ajustaram para dar condições para a vida complexa, mas não que isto possuísse um propósito determinado por alguma inteligência superior.

No que concerne à teoria das cordas, as 11 dimensões foram matematicamente determinadas e não meramente postuladas, como parece ser a mensagem deixada no artigo. Este número de dimensões poderia ser um novo número nas constantes de nosso universo, sendo quatro delas desenroladas (3 espaciais e uma temporal) e 7 outras dimensões espaciais enroladas no comprimento de Planck, o que permitiria a estabilidade de nossas cordas para formarem as partículas fundamentais, cada qual vibrando conforme sua energia.

A teoria dos multiversos não toma os 6 números estudados anteriormente como se devessem ser fixos e mesmo as dimensões do universo no que consiste a sua formação. Apenas conhecemos este universo e os numeros para este universo se ajustam conforme vimos.

Não necessariamente há uma necessidade física de que as coisas sejam assim, como não há um desígnio para tal.

O que temos são flutuações quânticas que ao acaso podem geram muitos tipos de universo. Alguns com durações efêmeras, outros longas e outros que mesmo propiciem vida simples ou complexa.

Quanto á questão da entropia (de novo não!!!) se partirmos de que o Universo tenha tido sua origem numa singularidade, as regras que hoje a ele se aplicam, não se aplicariam à singularidade, exatamente como ocorre com o buraco negro. Assim, somente é interessante falar-se em entropia após o big bang, sendo que neste, as 4 forças se separaram e, com o resfriamento do universo, as partículas elementares se formaram, cada qual vibrando com sua energia específica.

Mais adiante, passou a haver a possiblidade da nucleossíntese destas partículas elementares em prótons, nêutros e finalmente átomos, moléculas, matéria, estrélas primordiais e, mais futuramente estrelas de segunda ordem e sistemas planetários que deram condições para haver vida.

Assim, tanto a necessidade física como o designer, nada mais são que variantes do argumento teleológico.

Nos resta assim o acaso como a via para a existência do universo e de tudo o que nele há.

Abaixo segue uma sequência acerca do universo como o conhecemos:

Basta clicar next para ver o filminho.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Maus usos da filosofia e ignorância científica Parte 1

INTRODUÇÃO:

Em minhas andanças pela internet, mais uma vez me deparei com um rol de tolices e mau uso, má compreensão e ignorância completa no que se refere a conceitos filosóficos e conhecimentos acerca do universo.

O rol de tolices surgiu a partir dos seguntes textos:

texto 1:

texto 2:

texto 3:

texto 4:

texto 5:

texto 6:

Analisemos cada um deles em 6 partes.


TEXTO 1:


De início, há que entender-se o que significa o argumento teleológico.
A origem deste argumento remonta a Platão, que afirmava ser a explicação para qualquer fenômeno físico teleológica. Platão distingue as causas necessárias e causas suficientes das coisas, que ele identifica, respectivamente, como a causa material e a causa teleológica.

Os materiais que compõem um corpo são condições necessárias para seu movimento e ação de uma determinada maneira Todavia, os materiais não podem ser condições suficientes para seu movimento e ação, que seriam determinados pelas finalidades impostas pelo demiurgo (Deus-artesão, hoje mais conhecido pelo vulgo de "designer").

Após o concílio de Niceia (sec. IV d.C.), o cristianismo finalmente estruturou-se. como religião. Logo, a explicação por causas finais passou a ser considerada a única explicação conveniente para os mistérios divinos.

A filosofia clássica, devido ao pensamento medieval, ganhou feições teológicas sendo que houvea cristianização de Platão ( Agostinho de Hipona - 354 a 430 d.C.) e, posteriormente, a de Aristóteles (Tomas de Aquino - 1.225 a 1.254 d.C.).

Este movimento de inserção da filosofia clássica no pensamento medieval é o que hoje se conhece por Escolástica, que procurava compreender a revelação divina mediante o uso dos conceitos herdados daquele período anterior.

Quanto ao argumento teleológico à época da Idade Média, baseava-se na quinta via no que se refere às provas existencia de deus, elaboradas por Tomás de Aquino em suas cinco vias da demonstração da existência de deus.

Propriamente, ao partir da noção de finalidade ou causa final, ele diz que o universo exibe desígnio e propósito, ou seja, tudo parece agir segundo um plano. Caso contrário, o Universo não tenderia para o mesmo fim ou resultado. Assim, a denominação de teleológico para tal argumento ocorre em razão de que explicações teleológicas sempre consideram um objetivo ou propósito de algo para explicá-lo.
Todavia, com o surgimento das ciências modernas, este argumento perdeu força, uma vez que tanto nas ciências físicas, como nas ciências biológicas, os fenômenos naturais são explicados por causas também naturais além de descartarem a noção de propósito àqueles fenômenos não conscientes.

Por exemplo, o fato de um crocodilo caçar um gnu tem como propósito aquele animal se alimentar, uma vez que sentiu fome e teve de saciar esta necessidade. Isto sem dúvida é um fenômeno consciente.

Mas, qual o propósito de que o crocodilo ou o gnu existam? Não poderíam ser coisas diferentes se a evolução tomasse outros rumos na história da vida?

Ora, animais se adaptam a determinados nichos quando estes se encontram vagos. Foi o que aconteceu com os mamíferos da mega-fauna. Os "bons empregos" que eram ocupados pelos dinossauros ficaram vagos após a extinção KT e isso permitiu que os mamíferos e aves florescessem e se desenvolvessem. Mas qual o propósito disso tudo?

Outra forma que se tinha de pensar era o argumento cosmológico ( ou a terceira via dos argumentos que provam a existência de deus) que significa que a simples existência do Universo significava que alguém o tinha criado. Este argumento se baseia na ideia aristotélica de necessidade e contingência, visando explicar a necessidade da existência do universo (o cosmo).

Segundo este argumento, constata-se a contingência na natureza, mas nem todas as coisas podem ser contingentes (terem uma causalidade direta para os fenômenos naturais) , senão seria possível que não houvesse nada. Mas aquilo que existe somente poderia começar a existir a partir de algo que já existe antes. É preciso assim que algo do que existe seja necessário. Portanto, deus é a origem de toda a necessidade.

Este argumento tem como ponto fraco o fato de que se o cosmo é tão maravilhoso que sua existência precisa de algo mais maravilhoso ainda para explicá-la, então, como explicar este algo mais maravilhoso ainda?

Caso abordemos a questão de modo científico, para cada explicação deve haver outra explicação e assim por diante, o que é o caráter zetético das ciências.

Porém, a questão pode chegar a um ponto estanque, dogmatizando-se ao partir de uma petição de princípio. A resposta para tal, está no argumento ontológico (aquele que se aplica a qualquer discussão sobre a natureza do ser), cuja autoria é de Anselmo de Cantuária (1.033 - 1.109).

Neste argumento reside a ideia de que o maior e mais perfeito ser possível, o qual é imaginado possuir todos os atributos desejáveis, exceto o da existência, não seria o maior e mais perfeito possível, pois um ser que existe é maior e mais perfeito que um que não existe. Portanto, o maior e mais perfeito ser tem de existir. Assim, do conceito de deus como ser perfeito e que deriva sua existência.

A passagem que este argumento faz do campo lógico semântico para a definição de deus é que lhe caracteriza como ontológico, pois com esta passagem, não se pode evitar a existência deste ser.

Já na visão de Tomás de Aquino, sendo este argumento denominado como segunda via das provas sobre a existência de deus, este é o ser supremo maior que qualquer coisa que possa ser pensada. Esta definição de deus assim entendida está no intelécto e pórtanto deve ser esta ideia aceita, pois caso se deus não existisse haveria algo maior que ele, já que existir é mais que não existir, o que gera uma contradição. Portanto, a existência de deus no intelécto, acarreta sua existência.

Este argumento foi contestado por Kant (1.724 - 1.804), com base em que todas estas provas apoiam-se no princípio da causalidade, pois procuram mostrar que deus é a causa do universo. Todavia, o princípio da causalidade somente vale para a experiência sensível, o que invalidaria as provas sobre a existência de deus.

Segundo a doutrina de Kant, nunca poderemos saber ao certo se existe qualquer coisa da qual nosso aparelho corporal não nos dá apreensão. Isso descartaria o conhecimento da existência de deus e das almas imortais. Frise-se aqui que esta forma de pensar não descarta a existência de deus, mas o que ela descarta é o conhecimento para abrir espaço à fé.

Dessa forma, não está sob discussão a existência ou não de deus, mas apenas que sua existência não pode ser provada. Assim, nas palavras de Kant:

O conceito de um ser supremo é uma ideia útil sob muitos aspecto. Mas justamente por ser uma ideia, é incapaz por si só, de ampliar o nosso conhecimento acerca do que existe.

Logo, simples ideias não enriquecem o homem de conhecimento, como um mercador não se enriquece de dinheiro se para melhorar sua própria condição, acrescentasse alguns zeros em seu livro caixa.

Mas, é durante a idade moderna que passa a haver uma mudança nesta forma de pensar, uma vez que o antropomorfismo (pensamento que atribui caractéres humanos a deus) da teleologia não justificava supor qualquer finalidade imposta ao Universo.

Assim, surge o mecanicismo (teoria filosófica determinista a qual defende serem todos os fenômenos explicáveis pela causalidade mecânica ou por analogia a esta) e o deísmo (postura filosófico-religiosa que admite a existência de um deus criador, porém considera a razão como uma via capaz de assegurar da existência de deus, além de desconsiderar, para tal fim, a prática de uma religião denominacional).

Ambos tentaram explicar o mundo pelas causas eficientes com o propósito de descobrir as causas finais que teriam sido arquitetadas por deus sob a metáfora do mundo como um relógio e de deus como o relojoeiro. Futuramente Willian Paley (1.743 a 1.805 d.C.) se apossou desta metáfora, em Natural Theology, e criou as bases para o design inteligente - DI.

O nascimento da ciência moderna relaciona-se ao estudo das causas eficientes (coisa que pode levar outra coisa a existir) dos fenômenos e um crescente abandono da idéia de causa final (antropomórfica). Em suma, a explicação dos fenômenos deixou de ser feita pela teleologia e, em seu lugar, buscou-se explicar os fenômenos como emergentes (processo de formação de sistemas complexos ou padrões a partir de uma multiplicidade de interações simples).

O argumento teleológico também prega uma ordem no universo. Porém, como hoje conhecemos pelas investigações astronômicas, o Universo não é um lugar tão tranquilo assim.

Pelo contrário, é uma zona mortal com asteróides, cometas, super-novas, explosões de raios gama, pulsares, magnetares, quasares, buracos negros, choques intergalácticos, planetas infernais ou mundos gelados, nebulosas ricas em ácido cianídrico, vulcões, violentos movimentos de marés em luas e planetas e, possivelmente outros universos.

Também, não faz qualquer sentido falar-se na soma de todos estes fatores como tendo um propósito.

Entendido o argumento teleológico, podemos partir para uma análise do texto.

O texto se inicia por uma analogia probabilística, supondo que uma condição tida como especial para um indivíduo corrobore, por indução (do particular para o geral) um ajuste fino do Universo, quanto a sua aptidão para a vida.

O argumento teleológico do ajuste fino, apresentado no texto, se perfaz segundo a seguinte estrutura:

1- O ajuste fino do universo se deve à necessidade física, ao acaso ou ao desígnio.
2- Ele não é devido à necessidade física e nem ao acaso
3- Portanto, ele se deve ao desígnio.


A primeira premissa já começa errada, uma vez que não há qualquer "ajuste fino" no Universo, sendo suas "zonas de relativa calmaria", se é isso que podemos dizer, os locais que dão condições a existirem formas de vida como as que conhecemos, tomando-se como um exemplo concreto o nosso Sistema Solar, e mais particularmente a Terra. Tais "zonas de relativa calmaria" apresentam-se raríssimas pelo Universo.

Digo relativa calmaria porque vez ou outra são perturbadas por objetos como cometas e asteróides, que, algumas vezes já causaram sérios danos ao nosso planeta.
Assim, por não haver ajuste fino, indutor de um propósito para um fenômeno meramente natural, as três premissas impostas caem por terra.

A segunda premissa já apresenta a resposta de sua conclusão implícita, pois simples e deliberadamente descarta a necessidade física e o acaso, sem qualquer evidência científica que ateste sua veracidade ou falsidade.

Quanto à conclusão, esta já está respondida na premissa 2 implicitamente. Portanto, o raciocínio é inválido, ou seja é uma falácia lógica.


A tentadora afinação do Universo:
Parece tentadora a proposta de um designer para o que apresentarei a seguir. Sairemos da filosofia e adentraremos a cosmologia a fim de entendermos que o universo é regido por apenas seis números "escolhidos a dedo".
Dois deles se relacionam às forças básicas, dois fixam o tamanho e a textura geral de nosso Universo (se ele continuará a se expandir ou se colapsará) e os outros dois fixam as propriedades do próprio espaço.

Fisicamente, podemos definir seis números para o Universo, conforme seguem:

1 - N = é a relação entre as forças elétricas que mantêm nossos átomos coesos dividida pela força da gravidade que atua entre eles; A intensidade relativa destas forças é da ordem de 10 ^ 36.

A gravidade é uma força surpreendentemente fraca se comparada com outras que afetam os átomos, sendo seus efeitos mais sentidos nas coisas grandes que nas pequenas.

A gravidade sempre opera como uma força de atração. Se esta gravidade não fosse tão fraca, nada ocorreria com átomos e moléculas, porém, os objetos não necessitariam ser tão grandes a fim de que a gravidade competisse com as demais forças.

Haveria necessidade de menos átomos para que as estrelas se formassem, os planetas teríam menor massa, mantendo ou não órbitas estáveis e a vida seria bem diferente... muito mais lenta e forte.

Galáxias se formariam mais rapidamente, e seriam menores; havería maior número de colisões entre estrelas, o que poderia inviabilizar sistemas planetários estáveis. As estrelas se consumiríam mais rapidamente e a vida correria riscos de não ter tempo para se desenvolver em formas mais complexas.

Mas e uma gravidade mais fraca? neste ponto, poderia haver a formação de estruturas melhor elaboradas e de maior duração. mas isso teria implicações quanto à formação do universo, o que será visto mais adiante.

2 - e = eficiência nuclear: as forças nucleares são cruciais para manter prótons e nêutros nos núcleos atômicos. Estes núcleos são produzidos nas estrelas, sendo que a natureza os faz em 92 variedades, conforme a Tabéla Periódica. Este número é 0,007.

Há elementos além do Urânio denominados de transurânicos, cujos núcleos são mais instáveis e podem sofre fissão nuclear, sendo o plutônio uma exceção, pois tem meia vida de milhares de anos.

Se esta força fosse mais fraca, o hidrogênio seria um combustível menos eficiente e as estrelas não viveriam tanto. Todavia, isso não seria crucial. Entretanto, isso afetaria a síntese de outros elementos a partir do hidrogênio das estrelas, como a formação do hélio a partir do deutério (um próton e um nêutron). Próton e nêutron do deutério seriam difíceis de se manterem coesos, o que daria um caráter instável ao deutério. O hélio não se formaria e haveria um universo de hidrogênio.

As estrelas se formariam, esfriariam e morreriam, sem explodirem em super-novas que espalham seus destroços pelo universo e propiciam a formação de outras estrelas e sistemas solares.

Mas se esta força fosse mais forte do que é, o hidrogênio não teria sobrevivido ao big bang. Isso teria propiciado que dois prótons se unissem, o que não levaria a formação do hidrogênio e, assim, as estrelas não se formariam.

Foi deste conceito que Fred Hoyle cunhou o termo "afinação", a partir da síntese de carbono e oxigênio nas estrelas.

Portanto, forças nucleares mais fracas reduziriam o número de elementos estáveis da Tabela Periódica e vice-versa.

Para a vida, uma biosfera de carbono como a nossa, não poderia existir e, devido às moléculas especiais para a vida não poderem existir, pois o carbono , como ele é, é um elemento muito especial.


3 - o = razão entre densidade real e densidade crítica: este valor se relaciona ao destino do Universo e está em torno de 0,04. Na verdade, o que há é uma competição entre a gravidade e a energia de expansão. Para que a gravidade vença a luta e o universo colapse, depende da quantidade de matéria que exerce a atração gravitacional, ou seja, se a densidade de matéria exceder um valor crítico bem definido, que corresponde a cinco átomos por metro cúbico.

Entretanto, a densidade real para o universo conhecido é de 0,2 átomo por metro cúbico, o que implica uma expansão cósmica.

Mas vamos com calma!!! Há coisas no Universo que não vemos, mas elas estão lá, como a matéria escura. Não sabemos o que ela é mas sabemos que exerce gravidade e funciona como uma estrutura para as galáxias fixarem sua matéria. Esta matéria escura não emite luz ou qualquer outra forma de radiação.

O movimento do universo é que demonstra haver algo invisível exercendo uma attração gravitacional entre os corpos celestes. São movimentos rápidos demais para serem equilibrados apenas pela gravidade.

Assim, o destino do universo depende do valor que a razão ora apresentada assumir. se o=1 o universo se estenderá até um frio extremo.



 Se "o" estiver entre [-1 e 1] o universo colapsará em um "big crunch" e se  "o"  for maior que 1 ele se expandirá até rasgar-se.




4 - L = a constante cosmológica de Einstein: é o número que Einstein encontrou quando de da aplicação de sua teoria da relatividade geral ao Universo. Acreditava-se que o universo fosse estático, mas Einstein descobriu que se assim o fosse, o Universo começaria a se contrair, o que impossibilitava este ideal de Universo estático. É um número muito pequeno, sem representação.

De acordo com o modelo padrão da cosmologia, o Lambda-CDM model, a constante cosmológica medida é da ordem de 10 ^- 35 s ^-2 ou 10 ^- 47 GeV4, ou 10 ^-29 g/m^3 ou em torno de 10 ^-120 na unidade reduzida de Planck.

Logo, havia a necessidade de uma força para contrabalalçar a gravidade e assim, surge a constante cosmológica, a qual designa uma repulsão cósmica. Mas Huble descobriu que galáxias distantes se afastavam de nós.

Einstein considerou este número seu maior erro, mas hoje sabemos que seu valor não pode ser zero, porém é tão pequeno que somente pode competir com a gravidade diluída do espaço intergaláctico. Este número parece controlar e descrever a força mais fraca e mais misteriosa da natureza, ou seja, a expansão do Universo e o seu destino.

Se o valor de L fosse maior, as consequências seriam catastróficas, pois a gravidade seria facilmente dominada, bem mais cedo, durante os estágios de maior densidade. Não haveria galáxias, nem estrelas, planetas ou vida.

Se L fosse igual a zero, as galáxias continuaríam a se afastar, porém sua velocidade diminuiria pouco a pouco, sem nunca chegar a zero. Mas se L for maior que zero, a velocidade de expansão do universo se acelerará, sendo que todas as galáxias desapareceriam de nossa vista e sua velocidade tenderia à velocidade da luz.

A esta força de repulsão cósmica denominamos de energia escura e parece se relacionar com o vácuo do universo, sendo que este espaço vazio pode ser um agitado emaranhado de cordas, com estruturas em dimensões adicionais, conforme preconiza a teoria das super cordas.

Para compreender mais este assunto, consultar os links aqui e aqui.

5 - Q = é a relação entre a intensidade de ligação das estruturas do cosmo (estrelas, galáxiase aglomerados), ou seja, quanta energia seria suficiente para destruí-las e dispersá-las e a sua energia de repouso (E=mc^2): é um número pequeno que demonstra ser a gravidade realmnete muito fraca para os aglomerados e galáxias. Este número também dá mostras de que podemos considerar nosso universo como homogêneo, sendo que suas "ondulações" foram definidas muito cedo, antes dos aglomerados e galáxias.
O número Q ( da ordem de 10^-5) é crucial para se determinar a textura estrutural do Universo. Ele representa a amplitude das ondulações.

É na radiação de fundo de microondas (o brilho do big bang) que está o segredo do Universo referente ao fim de sua "idade das trevas" e a formação das proto-galáxias. A temperatura das microondas parece conservar os registros das flutuações do universo no que se refere a regiões mais e menos densas, as quais se transformariam, respectivamente em galáxias ou vazios.

Se as microondas acarretassem um Universo primordial mais uniforme que uma parte em 100 mil na temperatura de radiação de fundo, isso exigiria uma força adicional além da gravidade que pudesse aumentar os contrastes de densidade ainda mais rapidamente para os aglomerados e galáxias.

Com isso, pode-se afirmar que a gravidade, desde o começo do Universo, moldou as estruturas cósmicas e aumentou os contrastes de temperatura. Sem dúvida, isto foi pré-requisito, para após 10 bilhões de anos, dar condições para a vida, seja ela aqui na Terra (por enquanto o único lugar que conhecemos com uma exuberante biosfera) seja em qualquer outro ponto deste universo.

Assim, a partir de o, L e Q, é que se tem o ponto de partida de um universo em expansão, já definidos quando do universo primordial.

Se Q fosse menor do que é e os demais números se mantivessem inalterados, os agregados na matéria escura levariam mais tempo para se desenvolvere, sendo menores e mais dispersos. a formação estelar seria mais lenta e ineficiente e o material processado seria expulso da galáxia em vez de ser reciclado em novas estrelas e possíveis sistemas planetários. O gás poderia jamais se condensar em estruturas gravitacionalmente ligadas e o Universo seria um lugar escuro, mesmo com a mistura inicial de átomos, matéria escura e radiação existente neste universo.

Mas, se Q fosse maior que o apresentado, havendo ondulações de grande amplitide,o Universo seria um lugar turbulento. Regiões maiores que as galáxias se condensariam muito mais cedo que nossa história demonstra. Estas regiões não se fragmentariam em estrelas, mas em buracos negros gigantescos.

O gás seria tão quente que emitiria raios X e raios gama. Caso as galáxias se formassem, seríam muito mais coesas e as estrelas teriam movimentos instáveis para manterem sistemas planetários. Eis a razão de não haverem sistemas solares (pelo menos até então) próximos ao centro de nossa galáxia.

Q é algo crucial para a vida.

6 - D = número de dimensões espaciais em nosso mundo: este número vale 3. Em mundos com três dimensões, as forças gravitacional e elétrica obedecem a lei de inverso da quadrado da distância.

Três dimensões são cruciais para a vida, uma vez que em um mundo com duas dimensões as estruturas complexas não se formariam, como por exemplo, as moléculas da vida, uma vez que o carbono faz ligações tetraédricas.

O universo 3D, o que significa estarmos em uma tri-brana, nos permite movimentos para onde desejarmos (para frente, para trás, para direita, para a esquerda, para cima e para baixo).

Embora o espaço e o tempo estejam ligados, sendo a taxa que o tempo passa elástica, ou seja dependente de como o relógio que o mede se move e da existência de uma grande massa em suas proximidades, as ideias de Einstein mantêm a distinção entreo que está lá fora no espaço e o que está no passado ou no futuro.

Não há assimetria nas leis básicas que regem o micromundo, ocorrendo transformações irreversíveis em nosso mundo, independentemente da indiferença das leis fundamentais em relação ao passado e ao futuro.

A microestrutura do espaço tem po ainda não é conhecida, mas sabemos que ele não pode ser partido em pedaços arbitrariamente pequenos. Estes detalhes somente podem ser investigados por radiações com pequenos comprimentos de onda, sendo o seu limite o quantum básico de energia, medido pela constante de Planck.

Podemos investigar detalhes cada vez menores usando quanta cada vez mais energéticos associados a comprimentos de onda cada vez menores, mas há um limite. Este limite surge quando os quanta necessários são concentrações extremas de energia os quais colapsam em buracos negros, o que acontece no comprimento de Planck ( da ordem de 10^-19 vezes menor que um próton).

A energia destes quanta é a da massa de repouso de 10^19 prótons, sendo que a luz demora 10^-43 segundos para atravessar esta distância, que é o tempo de Planck , ou seja, o menor tempo possível de ser medido.

Portanto, mesmo o espaço e o tempo se sujeitam aos efeitos quânticos. Mas, como a gravidade é muito fraca, estes efeitos surgem em uma escala muito menor que nos átomos comuns, em que as forças controladoras são elétricas (consequências de N).

Assim, o comprimento de Planck, por enquanto é o nosso limite. Ir além dele significaria que teríamos de criar partículas com energias de um milhão de bilhões de vezes maiores que as que conseguimos produzir em laboratórios.

É obvio que efeitos quânticos podem ser desprezados para efeitos do Universo em seu atual estado, bem como a gravidade pode ser desprezada no mundo quântico. Mas, quando de seu início, estas vibrações quânticas poderiam balançar o universo, sendo a gravidade importante para um único quantum. Isso acontece no tempo de Planck, ou seja, a 10^-43 segundos da existência do Universo.

É de suma importância para a compreensão dos primeiros instantes após o big bang e para entendermos o que ocorre com o espaço tempo nas vizinhanças de um buraco negro que haja uma unificação entre a teoria quântica e a teoria gravitacional.

É aqui que o universo se torna caótico, sendo que o espaço tempo se apresenta como uma espuma sem seta do tempo bem definida, pode assumir uma estrutura em treliça, ser costurado como uma cota de malha, sendo que tempo e espaço podem se tornar semelhantes e em certo sentido não haver começo de tempo.

Flutuações podem dar origem a novos domínios os quais evoluem como universos separados dos seguintes tipos:

tipo 1: Tão distante que não podemos ver, porém está em nosso espaço-tempo tido como infinito;
tipo 2. É um universo em bolhas cada qual com seu universo mas vagando pelo espaço, sendo sua estrutura fractal. Os universos do tipo 1 estão aqui contidos;
tipo 3: Está junto com nosso universo, porém em outra dimensão, existindo em número infinito, separados por diferenças quânticas;
tipo 4: universos em membranas ou flutuações quânticas que podem ser regidos por leis bem distintas, ou seja, os 6 números aqui apresentados variarem.


Estes tipos de universo será melhor explicados em futura postagem, uma vez que o assunto é muito complexo e foge ao escopo deste tema.

A abordagem até então existente é a teoria das super-cordas, a qual propõe a unificação de todas as forças as três do micro mundo (nuclear forte, nuclear fraca e eletromagnética), além de considerar partículas elementares e a gravidade como item essencial.

Esta teoria trata as entidades fundamentais do universo não como pontos mas como aneis entrelaçados de conrdas, sendo as partículas nucleares diferentes formas de vibração destas cordas e sua escala é da orde do comprimento de Planck. Estas cordas vibram em um espaço com dez dimensões, sendo que seis estão embrulhadas no comprimento de Planck e quatro delas estão expandidas (as três espaciais e o tempo).

A partir de 1995, a teoria ganhou novo impulso, pois percebeu-se que as dimensões adicionais podem se enrolar em apenas 5 classes de espaço hexadimensional, podendo em um nível matemático mais profundo serem estruturas separadas, mas relacionadas e encravadas em um espaço de 11 dimensões.

O conceito de cordas também foi ampliado para incluir superfícies bidimensionais, as membranas. Um espaço com dez dimensões pode incluir bibranas, tribranas, tetrabranas e assim por diante. Mas a barreira para tal é que ainda não podemos observar estes fenômenos, sendo que nos resta aceitarmos o que a matemática nos demonstra.

A teoria das supercordas une a teoria da relatividade à física quântica, pois a teoria geral de Einstein interpreta a gravidade como uma curvatura em um espaço-tempo tetradimensional, o que a embute inevitavelmente na teoria das super-cordas, fazendo naturalmente surgir a conexão entre a gravidade e o princípio quântico.

A partir da exposição acima, ainda resta a pergunta: "O que é a afinação?"

Em nosso universo uma intrincada complexidade se desenvolveu a partir de leis simples com a aparente afinação de nossos seis números.

Uma afirmação do tipo tacanha seria que não poderíamos existir se estes seis números não se ajustassem de maneira especial.

Isso leva a argumentos como o do filósofo John Leslie apresentado no texto sob análise, no que concerne ao de enxergar a probabilidade ínfima acontecer ocorrer de fato como algo especial, sob intencionalidade. Porém, a placa especial do carro ou qualquer outra placa teriam a mesma chance de ocorrer. Mas aos nossos olhos se parece algo especial.

Tal como se eu jogar na mega-sena os números 1, 2, 3, 4, 5 e 6 ou 23, 15, 37, 44, 48 e 5. Aparentemente a primeira sequência aos nossos olhos parece a mais improvável, mas não é. Ambas possuem a chance de ocorrer dada por ( p = 1/C60,6). Assim, o argumento de John Leslie não faz sentido.

Mas, há uma diferença: Quanto a questão da mega-sena, as probabilidades são conhecidas, uma vez que conheço o fenômeno que as rege (o sorteio). Mas e para o Universo? Como tratar a questão probabilística se não conhecemos (pelo menos ainda) o fenômeno ou os fenômenos que o originaram? Não seriam os 6 números acima propriedades para que o Universo ou Universos se formem? E caso estes dados se alterem e provoquem uma nova "afinação"; não poderia haver um Universo igual ou ligeiramente diferente deste?

A resposta é: NÃO SABEMOS. Ainda estamos engatinhando no que se refere a muitas formas de conhecimento, os quais são frequentemente contestados pelso fundamentalistas como se a causa para tudo fosse deus, designer dentre outros nomes para seres supremos.

Logo, o argumento de Leslie se esteia naquele proferido por Paley de que há um criador que formulou o universo com a intensão de nos criar, o que se trata do princípio antrópico fraco. O princípio antrópico forte afirma, em geral, que o Universo comportou-se de forma a adaptar-se ao Homem. O fraco diz que o Universo comportou-se de forma a surgir o homem, sem esse pleito pré-definido.

John Polknghorne defende uma variante do argumento de Paley, defendendo que o Universo é um lugar especial e precisamente afinado para a vida, porque é a criação de um "criador" que deseja que ele seja assim (!?).

Mas deixando de lado as perspectivas providenciais, resta-nos aquela em que nosso big bang pode não ter sido o único e que universos distintos podem ter surgido ou surgem, sob o domínio de leis distintas e definidos por números diferentes dos do nosso Universo.

Isso não parece ser uma hipótese econômica que passasse pela "navalha de Ockham" (a ser analisada mais adiante), mas deduz-se a partir de teorias que sugerem nosso universo como apenas um átomo selecionado a partir de um multiverso infinito.

Para estes multiversos, suas leis básicas são mais tolerantes, pois propiciam que eles evoluam de formas diferentes, sob números diferentes daqueles cruciais para a formação do nosso Universo. Estes universos podem mesmo apresentar números de dimensões diferentes do nosso (quantas das 9 dimensões iniciais se tornaram compactas e quantas se desenrolaram).

Pode haver uma microfísica distinta em espaçõs tridimensionais com "L" representado por diferentes valoresque dependerá do espaço hexadimensional no qual as demais dimensões se enrolam. pode haver valores diferentes para "o" e "Q" oque afetaria seu ciclo de duração e que tipo de estrutura se formaria nele.

Pode ser que "L" e "e" estivessem fora de seus intervalos e assim a química e a formação de galáxias, estrelas e planetas não ocorresse. Pode ainda ser que N seja ou maior ou menor que 10^36 e influa no tempo de duração das estrelas ou mesmo em sua formação.

Portanto, para que haja um "Universo interessante", tem de haver um grande número de átomos, uma longa extensão temporral, ter ocorrido uma inflação com "L" da ordem de 120 vezes ao que é hoje, o que dá três soluções para o enigma do decaimento de "L":

1 - a microestrutura do espaço, que talvez envolva um conjunto de minúsculos buracos negros interligados, como uma espuma, se ajuste para que este decaimento ocorra;

2 - o decaimento seria graduale rastreia a densidade da amtéria comum, o que não seria coincidência o vácuo ter agora o mesmo "peso" que a matéria comum na formação de "o", de modo que este seja da ordem de 0,3, mas o vácuo ainda tenha energia para produzir os 0,7 restantes para levar a densidade geral até o valor crítico requerido para um universo chato;

3 - pode-se imaginar que "L" neutralize a gravidade em uma densidade particular, conforme o universo estático de Einstein. assim, à medida que o Universo se expande, o material comum fica mais difuso e a densidade cai para valores abaixo de certo limite. Portanto, a repulsão passa a ganhar da gravidade. Para o multiverso, "L" varia entre muitos valores possíveis, sendo determinado por como as dimensões se enrolam. Nos demais universos "L" apresenta um valor maior que o do nosso Universo. Entretanto podemos fazer parte do subconjunto de universos propícios a formar galáxias e que possibilite a vida complexa.

Assim, se as leis básicas determinassem de maneira única que nenhum outro tipo de Universo fosse matematicamente consistente com estas leis, teríamos de aceitar a "afinação" como fato puro e simples ou como obra divina. Por outro lado, as teorias apontam para um multiverso cuja evolução é marcada por repetidos big bangs, o que permite a diversidade nos universos individuais.

Portanto, seja filosófica como cientificamente, o argumento do designer não é adequado a qualquer especulação acerca do universo.

Primeiro pelas premissas com as quais o raciocínio é apresentado serem falaciosas, pois a resposta da conclusão já se encontra implícita nas premissas.

Segundo porque o designer simplesmente não explica nada acerca da formação do universo nem de qualquer coisa.

Terceiro porque sua presença exige um propósito, uma vez que todos os fenômenos naturais passam a ser fenômenos, conscientes conforme os desígnios de uma inteligência superior.

Quarto, porque fugir da explicação sobre a pessoa do designer em si, é o mesmo que fugir da pergunta "quem" fez os artefatos encontrados pelos nossos astronautas, "de onde" este ser veio, "o que" veio fazer aqui, "por que" veio aqui, "como" veio até aqui, conforme dado pela analogia feita pelo texto, ou seja, dizer "foi o designer" não responde nada. Trata-se de um argumento da ignorância do tipo: "É porque é e ponto."

Quinto, porque a idéia que o Universo é desenhado é algo subjetivo, sendo que as diferentes observações no mundo natural podem produzir diversas teorias sobre sua existência e desenvolvimento. As evidências para o designer são calcadas em analogias com os propósitos humanos. Todavia estes requerem ordem, o que não ocorre no universo, o qual é governado pelo caos. Desse modo, a ideia do designer se esvai, também por analogia.

Sexto, porque a ideia de um designer não dispensa explicações naturais acerca de um processo natural. Simplesmente acrescenta mais uma hipótese à explicação, sendo tal hipótese plenamente dispensável.

Sétimo porque a hipótese de um designer elimina o caráter zetético da ciência e lhe confere um aspecto dogmático em que se parte de uma petição de princípio ( foi o designer) para se traçar uma explanação acerca de um fenômeno natural qualquer.

Oitavo: abandonando-se a ideia de multiverso como propõe o texto, como poderia existir um designer antes da formação do universo? Então este designer seria nada mais que um deus ou algo parecido, uma vez que seria atemporal, adimensional e não estaria em lugar algum, portanto não existiria.

Assim, podemos claramente perceber que o designer, projetista cósmico, arquiteto do mundo, demiurgo, etc, nada mais é que um eufemismo para a palavrinha deus. Ou seja, o DI nada mais é que um criacionismo requentado, em que o designer é assim chamado a fim de dar uma maqueada em seu conteúdo religioso e assim seus proponentes terem a pretensão de elevá-lo ao caráter de ciência.