domingo, 27 de junho de 2010

Maus usos da filosofia e ignorância científica Parte 5

TEXTO 5:

Este texto faz uma alusão ao princípio antrópico. Recordando:

O Princípio antrópico estabelece que qualquer teoria válida sobre o Universo tem que ser consistente com a existência do ser humano, ou seja, o único universo que podemos ver é o universo que possui vida.

Se existe outro tipo de Universo, nós não podemos existir para vê-lo, tal como Weiberg propusera no post anterior.
O princípio antrópico divide-se em:

1 - Princípio antrópico forte: afirma que, em geral, que o Universo comportou-se de forma a adaptar-se ao Homem.

2 - Princípio antrópico fraco: afirma que o Universo comportou-se de forma a surgir o homem, sem esse pleito pré-definido.

Assim, conforme o Dicionário do Cético, o princípio antrópico é a crença, por parte de alguns físicos, de que seja virtualmente impossível que numerosos fatores no início do Universo, que teriam de ser coordenados de forma a produzir um universo capaz de sustentar formas avançadas de vida, pudessem ser obra do acaso.

Essa crença é tida por alguns como boa evidência de que este Universo foi provavelmente criado por um ser muito poderoso e inteligente (provavelmente chamado Deus).

 

Se a massa do universo e as intensidades das quatro forças básicas (eletromagnetismo, gravidade e forças nucleares forte e fraca) fossem diferentes, ou se não tivessem passado por "ajuste fino" para trabalhar em conjunto da forma que o fazem, o universo, como o conhecemos, não existiria.

 

Um delicado equilíbrio de constantes físicas é "necessário para que o carbono e outros elementos químicos após o lítio, na tabela periódica, sejam produzidos nas estrelas".

Resumindo, é preciso que muitas coisas aconteçam em conjunto para existirmos (as chamadas "coincidências antrópicas"). Aparentemente, alguns físicos acham estranho existirmos justamente no momento da história do Universo em que poderíamos existir.

Conforme fora explorado nos posts 1 e 4, a resposta para tais coincidências denominadas de "ajuste fino" (exploradas no post 1), têm surgido a partir do panorama das cordas, sendo uma preguiça mental atribuir a seres do além as origens do Universo.

Outro ponto deste texto trata da impossibilidade do multiverso, baseada no argumento de John Polkinghorne de que a hipotese de multiversos se trata de pseudociência e conjectura metafísica. A afirmação, segundo informa o texto parece ter sido feita em 1996, quando estava-se engatinhando na teoria das cordas.

 

O texto segue insistindo na ideia da impossibilidade do multiverso, ignorando por completo o que existe de mais novo na física teórica.

 

A questão também foi explorada no post 3. Embora não possamos visualizar diretamente este multiverso, a teoria das cordas, se correta, indiretamente demonstra o panorama para a existencia deste como de outros universos, perfazendo um multiverso.

O texto ainda faz diversas afirmações completamente divergentes do que fora apresentado no post 3. Nem merecem ser discutidas.


Entretanto, travaremos nossa análise no seguinte ponto:

[Contudo, mesmo nessa condição, a hipótese de diversos mundos é comprovadamente inferior à hipótese do Design, porque a hipótese do Design é mais simples. De acordo com a Navalha de Ockham, não deveríamos multiplicar os casos além do necessário para explicar o efeito. Mas é mais simples postular um projetista cósmico para explicar nosso universo que postular a enorme e elaborada ontologia da hipótese de diversos mundos.]

Flagrantemente, o argumento aqui apresentado se trata do profundo desconhecimento no que concerne ao princípio filosófico da Navalha de Ockham.

Aqui neste ponto é interessante que conheçamos os pensamentos de Duns Scot e o de Willian Ockham.


1 - Duns Scot (1270 a 1308 ?):

No Continente Europeu, a escolástica atingira seu ponto maior com a síntese tomista entre as verdades da revelação bíblica e os conceitos da razão aristotélica, no Arquipélago Britãnico, o pensamento seguia um caminho próprio, que parecia buscar seus desejos de afirmação autônoma, em detrimento da universalização propalada pelo pensamento continental romanizado.

Robert Grosseteste (1168 a 1253) aplica a linguagem matemática à explicação dos fenômenos naturais e Roger Bacon (1214 a 1294) defende o primado da experiência, inclusive no campo religioso. Ambos, assim, repelem a abstração e a silogística escolásticas, considerando-as insuficientes para que o homem seja capaz de compreender as coisas.

É dentro destas coordenadas que se situa John Duns Scot, cujos objetivos não eram fundamentalmente filosóficos, mas religiosos.

No pensamento de Duns Scot, a fé, o amor e a ação têm maior importância para a salvação que a ciência. A verdade era encontrada nos textos bíblicos, tal como interpretados pela tradição da igreja, cujas decisões eram isentas de erros.

Duns scot se coloca em posição oposta a Tomás de Aquino no que se refere á relação entre os problemas da fé e da razão. Para Duns Scot, as verdades da fé não podem ser compreendidas e demosntradas pela razão, constituíndo meros credibilia (o que pode ser crido).

Dessa forma, Duns Scot separa radicalmente a teologia da filosofia e não admite que aquela tenha qualquer fundamentação racional, devendo apoiar-se apenas na revelação.

A teologia deve ser entendida como uma disciplina de cunho prático, a fim de fornecer ao cristão normas reguladoras para sua conduta. Assim, a filosofia proclamou sua independência em relação à teologia, deixando de ser sua serva, como acontecera durante toda a Idade Média.

Outro ponto que difere o pensamento de Duns Scot do de Tomás de Aquino encontra-se na teoria da essência. Para Aquino as essências constituem-se em universais que tornam inteligíveis os seres particulares. Desse modo, o conhecimento só poderia dar-se no domínio das essências universais, aquelas formas mediante as quais são determinados todos os seres individuais.

Para Scot, o universal e o individual estão contidos indiferentemente na essência. Isso quer dizer que o real não é pura universalidade, pois esta fragmenta-se nos diferentes indivíduos. Por outro lado, significa também que o real não é pura individualidade, que pode ser comprovado pelas ideias gerais.

Dessa forma, as essências não seriam, portanto, apenas universais, mas também individuais. Tal pensamento revela o conceito de estidade, que afasta da filosofia a preocupação exclusiva com as essências universais e transcendentes e formula o início de uma concepção que atribui estatuto de ciência ao aqui e agora.

Essa legitimação racional do individual e do imediato parece continuar a tradição inglesa, já evidenciada em Roger Bacon, de valorização da experiência, que pode ser interpretada também como formulação, no plano da pura filosofia, da necessidade de fundamentar a justificativa da própria peculiaridade da experiência cultural inglesa, individualizada e contraposta à universalidade cultural e política do Continete Europeu.


2 - Willian Ockham (1284 a 1349?):

Foi discipulo de Duns Scot. Levou ainda mais longe que seu predecessor os elementos de dissolução da escolástica continental. Suas teses foram consideradas demasiado heterodoxas pelas autoridades papais.

A sua oposição pela ortodoxia papal, por um lado , manifestava o próprio conflito político entre o poder temporal dos reis ingleses contra o poder espiritual dos papas. E, por outro lado, exprimia a oposição das tendências empiristas da filosofia inglesa ao racionalismo universalizante do pensamento continental europeu.

Ockham afirmava que: "Assim como Cristo não veio ao mundo a fim de tomar dos homens seus bens e direitos, o vigário de Cristo (o papa), que lhe é inferior e, de modo algum o iguala em poder, não tem autoridade ou poder para privar os outros de seus bens e direitos."

Afirmações como estas e suas implicações fizeram com que Ockham lançasse os fundamentos do laicismo. O resultado disso foi um conflito, por toda sua vida, com as autoridades da Igreja Romana. Tanto que em 1325 foi confinado em um convento franciscano de Avignon, até 1326, esperando o resultado de um processo que condenou seus "heréticos e pestilentos comentários".

O fundamento filosófico da rebeldia de Ockham encontra-se em sua doutrina sobre os universais. A teoria da estidade de Scot dera um passo para a negação da realidade dos universais.

Platão e Aristóteles, apesar de terem posições diferentes sobre a origem das idéias, definiram o campo de nossa experiência cognitiva ao estabelecer que todo conhecimento tem uma parte sensível e outra intelectiva.

Para que algo possa ser conhecido por nós é preciso que seja percebido pelos sentidos, mas isso ainda não é suficiente para dizermos que conhecemos o que a coisa é. É preciso que reconheçamos tal objeto como um objeto de certo tipo e não de outro (para que eu identifique o objeto como cadeira e não como banco, por exemplo).

Para isso, eu preciso de um conceito. Um conceito é uma representação geral e abstrata de algo. Ele é um meio entre o sujeito que conhece e o objeto conhecido. Por meio dele eu me refiro às coisas no mundo e posso comunicar meus conhecimentos para outras pessoas.

O conceito pode ser considerado subjetivamente como ato de conceituar ou classificar os objetos e, objetivamente, como conteúdo do ato, ou seja, o que o conceito significa.

Por seu caráter geral e abstrato, os conceitos são considerados universais, ou seja, um termo que é comum a muitos singulares, sem designar a nenhum deles em particular, da mesma forma que podemos dizer que os indivíduos singulares Maria, João, José pertencem à humanidade (universal).

Há quatro grandes linhas centrais que tratam este tema:

a- O realismo platônico onde gêneros e espécies seriam formas ou ideias, portanto entidades dotadas de uma existência autônoma, pertencente ao mundo das ideias e independentes, tanto das coisas concretas (o cavalo), quanto de nossos pensamentos (o conceito de cavalo);

b - O realismo aristotélico, onde gêneros e espécies existem nas coisas como formas da substância individual e podem ser conhecidos por nós através da abstração, em que destacamos do particular o universal, isto é, percebe-se que o indivíduo é um cavalo.

c - O conceitualismo, de Pedro Abelardo (1079 a 1142), sustenta que os universais são apenas conceitos, ou seja, predicados de sentenças que descrevem o objeto (isto é um cavalo), existindo, portanto, na mente como meio de unir ou relacionar objetos particulares dotados das mesmas características ou qualidades.

d - o nominalismo inaugurado por Roscelino (sec. XII) que afirmava serem os universais apenas palavra, sons emitidos, não havendo nenhuma entidade real que correspondesse a eles.

O nominalismo de Ockham é mais sofisticado e elaborado que o de Roscelino, uma vez que defende um misto entre conceitualismo e nominalismo. Entende o universal como um termo correspondente a um conceito por meio do qual nos referimos a essas qualidades ou características.

Ockham retira dos universais toda e qualquer realidade ontológica, retirando-lhes a realidade objetiva, pois existem apenas no intelecto humano, como algo produzido por ele.

Não há realidade, nem nas coisas individuais, nem mesmo na mente divina. Portanto, os universais são apenas palavras (nominalismo). Como signos servem apenas para designar um conjunto de semelhanças ou identidade de caractéres, abstraídos das coisas individuais pelo intelecto humano.

As consequências do nominalismo foram as seguintes :

a) O nominalismo transformou toda a ciência em conhecimento empírico dos indivíduos, posto que por um lado, só eles constituiríam a verdadeira realidade e, por outro, porque os indivíduos são conhecidos primordialmente no plano da experiência. Para Ockham, o conhecimento conceitual ou abstrativo é confuso e indeterminado, pois apreende apenas os caracteres comuns a vários objetos e deixa escapar o que eles têm de particular e que os distingue dos demais.

b) O nominalismo criou um abismo entre o conhecimento científico (dos seres individuais, concretos, encontrados na natureza) e os domínios do pensamento religioso. A fé não poderia encontrar qualquer apoio na razão, pois os dois campos seriam indiferentes e alheios um ao outro. Desse modo, a teologia não seria uma ciência racional e Deus não teria qualquer interesse para a filosofia. Ciência e religião eram duas vias paralelas, duas "verdades" indepententes.

c) A separação radical proposta por Ockham entre fé e razão, entre teologia e filosofia, situa-se na oposição entre o poder espiritual e o poder temporal, entre o papa e o imperador. Isso é o início da dissolução do espírito medieval, finalizando o universalismo proposto pela escolástica.

Dessa forma, a filosofia de Ockham abriu caminho para as inovações renascentistas e consequentemente para a modernidade.

O universal é, assim, a referência de um termo, e não uma entidade, mas, tampouco, é apenas uma palavra, já que existe o correlato mental, o conceito, por meio do qual a referência é feita.

É dessa ideia que surge a navalha de Ockham, proposta na obra Ordinatio. O princípio de Ockham afirma que a explicação para qualquer fenômeno deve assumir apenas as premissas estritamente necessárias a sua explicação e há que se eliminarem todas aquelas que não causariam qualquer diferença aparente nas predicções da hipótese ou teoria. O princípio é frequentemente designado pela expressão latina Lex Parsimoniae (Lei da Parcimónia).

"Não devemos multiplicar a existência dos entes além do necessário. Isso quer dizer que não devemos supor a existência de entidades metafísicas como no realismo platônico, já que estas entidades não só não explicam adequadamente a natureza das coisas particulares, como carecem elas próprias de explicação."

(Parece que Ockham deve ter deixado um recadinho aos fanáticos criacionistas e aos fanáticos inrustidos "proponentes" do DI...).

A navalha de Ockham é, portanto, um princípio de economia segundo o qual nossa ontologia (teoria sobre o real) deve supor apenas a possibilidade de existência do mínimo necessário. Termos e conceitos são suficientes, assim, para das conta do problema dos universais, não havendo necessidade de supor a existência de entidades reais universais, o que é uma defesa da intuição como ponto de partida para o conhecimento do universo.

William de Ockham defende o princípio de que a natureza é por si mesma econômica, pois opta, invariavelmente, pelo caminho mais simples. Por outro lado, ele cogitou que a aplicação muito restrita desse princípio limitaria o poder de Deus (que deveria poder escolher um caminho mais complicado para alguns fenômenos se assim desejasse). No entanto, Ockham defendia que o homem, nas suas teorias, deveria sempre eliminar conceitos supérfluos.

Um outro ponto da navalha de Ockham trata de que caso haja duas explicações para uma mesma questão, a mais complexa tem mais chances de estar errada.

Isso quer dizer que, ao se tentar elaborar uma explicação para alguma coisa deve-se supor o mínimo que precisamos supor. Este raciocínio foi completado por Einstein ao dizer: "Tudo deve ser tornado o mais simples possível, mas não mais simples que isso."

Este princípio foi adotado pelo que viria a ser conhecido como método científico, que é uma ferramenta lógica que permite escolher, entre várias hipóteses a serem verificadas, aquela que contém o menor número de afirmações não demonstradas, o que facilita a verificação da teoria, constituindo assim um dos pilares do reducionismo em ciência.

agora, analisemos a frase proposta para análise no início deste post em comparação ao proposto pela navalha de Ockham:

[Contudo, mesmo nessa condição, a hipótese de diversos mundos é comprovadamente inferior à hipótese do Design, porque a hipótese do Design é mais simples. De acordo com a Navalha de Ockham, não deveríamos multiplicar os casos além do necessário para explicar o efeito. Mas é mais simples postular um projetista cósmico para explicar nosso universo que postular a enorme e elaborada ontologia da hipótese de diversos mundos.]

De início, Ockham afirma que Não devemos multiplicar a existência dos entes além do necessário, ou seja, não devemos supor a existência de entidades metafísicas como no realismo platônico, já que estas entidades não só não explicam adequadamente a natureza das coisas particulares, como carecem elas próprias de explicação.

Portanto, postular um designer já foge àquilo que Ockham propusera, pois cria uma entidade metafísica que não explica absolutamente nada acerca da existência do universo.


Também, o princípio de Ockham não se refere a dizer que devemos nos ater a tudo o que for simples, e escolher uma resposta porque ela é a mais fácil. Mas devemos buscar por esta simplicidade eliminado proposições supérfluas.

Por exemplo:

Caso tratemos de conhecer como funciona um campo gravitacional, entre um planeta e uma lua, as leis de Newton são suficientes para tal.

Todavia, caso queiramos entender por que nas proximidades de objetos massivos ,como buracos negros, o tempo flui mais lentamente, devemos buscar essa resposta na teoria da relatividade geral de Einstein.

Mas, se desejamos entender por que existe a gravidade, devemos nos remeter à mecânica quântica e à teoria das cordas, (como fora explorado no quarto post) mais especificamente, no estudo de grávitons e bósons de Higgs.

Como podemos perceber, é supérfluo eu falar sobre teoria quântica e teoria da relatividade geral se desejo medir a interação gravitácional entre a lua e o planeta, mas não é supérfluo eu falar de ambas quando necessário for (ação da gravidade e curvatura do espaço no horizonte de eventos de um buraco negro).

Não é supérfluo tratar sobre teoria das cordas quando desejo entender fenômenos quânticos que ocorrem no Universo, pois estou tratando de dar uma resposta natural a um fenômeno natural. Mas é demasiado superfluo criar uma entidade sobrenatural para explicar um processo natural.

A hipótese do multiverso é um fenômeno natural e é encontrada como uma resposta quando adentramos ao panorama das cordas. Diferentemente da hipótese do designer que somente é algo metafísico, sem qualquer evidência direta ou indireta de que exista ou de que tenha atuado na natureza.

Ou seja, em resumo, o texto trata a navalha de Ockham como se fosse uma foice nas mãos de um retardado em um campo de trigo, onde o joio não é separado daquele. É um flagrante mau uso, por pura ignorância lógico-filosófica ou por má fé em defesa de uma ideia descabida de um princípio amplamente utilizado nas ciências.

sábado, 26 de junho de 2010

Maus usos da filosofia e ignorância científica Parte 4

Texto 4:

Este texto retoma a ideia de ajuste fino do universo, já devidamente tratada de forma científica em nossa primeira postagem, em resposta ao que propôs o primeiro texto sob análise (Texto 1).

Os argumentos apresentados neste texto insistem em um universo finamente ajustado que possibilite a existência de vida e em sua improbabilidade de existir por mera casualidade.

A argumentação tem seu ponto em um raciocínio proposto por John Leslie, o qual tenta fazer uma analogia entre a possibilidade de existir o Universo e a de um tiro disparado aleatóriamente acertar uma única mosca pousada em uma grande área livre de uma parede. Se o resto da parede, fora da área de nossa mosca, estivesse coberto de moscas o tiro teria boas chances de acertar uma mosca.

Todavia o argumento proposto por Leslie em sua pseudo-analogia com a questão da existência do Universo ou de multiversos, parece excluir estes da análise, relembrando que temos os seguintes tipos de universos:

tipo 1: Tão distante que não podemos ver, porém está em nosso espaço-tempo tido como infinito;

tipo 2. É um universo em bolhas cada qual com seu universo mas vagando pelo espaço, sendo sua estrutura fractal. Os universos do tipo 1 estão aqui contidos;

tipo 3: Está junto com nosso universo, porém em outra dimensão, existindo em número infinito, separados por diferenças quânticas;

tipo 4: universos em membranas ou flutuações quânticas que podem ser regidos por leis bem distintas, ou seja, os 6 números aqui apresentados variarem.

O texto se encerra com o designer sendo a resposta para o argumento proposto por Leslie.

Bem, aqui devemos fazer uma viagem ao passado, voltando a Grécia de Leucipo, em 450 a.C., uma vez que a questão acaso x necessidade remonta aos gregos e ainda, em nossos dias, está sendo debtida.

Leucipo afirmara: "Nada acontece aleatoriamente; tudo acontecepor alguma razão e por necessidade." Tal pensamento era sustentado pela "Escola Atomista", sendo que seus pensadores identificavam o acaso como "causa oculta".

este argumento continuou a ser sustentado por Demócrito (460 - 370 a.C.), o sucessos de Leucipo. Para demócrito, o acaso representava a "ignorância da causa determinante".

Os estóicos também repudiaram a ideia de evento sem causa. Crísipo (280 - 207 a.C. ?) afirmara: "Não existe nada que se possa chamar de ausência de causa ou espontaneidade. Nos chamados pulsos acidentais, inventados por alguns, existem causas ocultasà nossa visão que determinam o impulso numa determinada direção."

Já os epiciristas que a crença na necessidade (que eventos são predeterminados e a consequente eliminação de eventos sem causa) era incompatível com o livre arbítrio. Epicuro (341 - 270 a.C.)aceitava a teoria básica dos atomistas, mas se distanciava deles ao acreditar que um desvio sem causa, espontâneo, dos átomosfazia com que colidisse, e que a incerteza do desvio admitiria o elemento do livre arbítrio.

A filosofia epicurista é bem documentada por Lucrécio (96 a 55 a.C.?) no poema De rerum natura. Para Epicuro e Lucrécio, o acaso abrangia o aspecto indeterminista.

Nossa viagem continua pela Idade Média, onde o determinismo imperou, incentivado pela crença da então incipiente igreja cristã de que tudo acontecia sob o comando do Criador.

No primeiro posto falamos sobre os argumentos ontológico, cosmológico e teleológico, porém vale a pena agora conhecermos as 5 vias que provam a existência de deus, elaboradas por Tomás de Aquino (1224 a 1274).

Tomás de Aquino dirigiu sua obra a Suma Teológica, no sentido de compatibilizar o pensamento grego de Aristóteles ao cristianismo. Entretanto, Aquino contrasta com Anselmo no que se refere ao argumento ontológico, rejeitando-o e criticando-o.

Vejamos as 5 vias da prova da existência de deus em uma articulação entre fé e razão:

A Suma Teológica se divide em três tratados (sendo que o terceiro ficou incompleto), os quais subdividem as questões que analisam nos principais aspectos de seus temas. As questões se subdividem em artigos, onde são examinadas várias posições acerca destes temas. Formula objeções e elabora soluções e respostas pautadas no pensamento aristotélico.

A exploração de nosso tema tem partida na segunda questão do primeiro tratado, cujo tema é "a existência de Deus".

1 - O primeiro artigo parte do problema "se a existência de deus é auto-evidente". Aquino examina as teses em favor desta posição e por fim as refuta.

1.1 - O primeiro argumento consiste em entender o conhecimento auto-evidente como inato, natural ao homem. Assim, o conhecimento de Deus seria natural ao homem e, portanto, auto-evidente. Aquino responde que o conhecimento humano acerca de Deus é um conhecimento natural confuso, o que não equivale a um conhecimento absoluto de que Deus existe.

1.2 - O segundo argumento é uma versão da prova ontológica de Anselmo, sem lhe fazer referência. O argumento centra-se na ideia de que Deus é o ser supremo, aquele maior do que nada pode ser pensado. Quem tem esta definição de Deus no intelecto, deve aceitar a existência real de Deus, pois caso este não existisse, haveria algo maior que ele, já que existir é mais do que não existir, e assim, teriamos uma contradição. Portanto, a existência de deus no intelecto acarreta sua existência na realidade.

Aquino rejeita a passagem do entendimento da definição de deus (existência no intelecto) para sua existência real. Esta definição pode não ser aceitao que torna o argumento circular, uma vez que se pressupõe aquilo que se quer provar e também porque existir no intelecto difere de existir na realidade.

1.3 - O terceiro argumento se refere à existência da verdade auto-evidente, já que é impossível negar a verdade, pois quem a nega supõe que a negação seja verdadeira. O Evangelho proclama que deus é a verdade, portanto a existência de deus é auto-evidente.

Aquino responde que a existência da verdade é, em geral auto-evidente, mas não de uma verdade primeira determinada. Conforme Aristóteles não se póde pensar o oposto do que é auto-evidente, como se pode pensar que Deus não existe: a existência de deus não é auto-evidente.

Assim Aquino conclui que como não conhecemos diretamente a essência de Deus, este não é auto-evidente e, portanto, necessita ser demonstrado por aquilo que conhecemos.

2 - O segundo artigo discute se a existência de deus pode ser demonstrada. De início, Aquino supõe que não pode ser demonstrada e deve ser considerada como auto-evidente. A questão aqui apresentada é um desdobramento do primeiro artigo.

2.1 - O primeiro argumento afirma que a existência de deus não pode ser provada por ser um artigo de fé. Uma demonstração produz conhecimento e deus não é conhecido como tal.

Para aquino, a existência dedeus e de seus atributos enquanto elementos da razão natural, não são artigos de fé, mas pressupostos destes. Assim, a fé pressupõe a razão.

2.2 - O segundo argumento parte da ideia de que Deus é indemonstrável em sua existência, pois sua essência não pode ser conhecida, sendo a essência pressuposto da demonstração. Assim, somente pode-se dizer o que Deus não é.

Aquino responde que em uma demonstração não se supõe um conhecimento da essência, mas parte-se apenas do sentido do nome daquilo cuja existência se deseja demonstrar, sendo o sentido do nome de Deus constituído simplesmente por seus efeitos.

2.3 - O terceiro argumento afirma que só se poderia demonstrar a existência de Deus por seus efeitos. Os efeitos de deus lhes são inferiores, uma vez que são finitos. Todavia, Deus é infinito.

Aquino responde que embora a partir dos efeitos não possamos alcançar um conhecimento perfeito de Deus podemos demonstrar sua existência. Pode-se conhecer o invisível através do visível, porém é preciso demonstrar que a existência de Deus pode ser demonstrada a partir da existência das coisas presentes no mundo criado.

Dessa forma, há dois sentidos de demonstrar:

- propterquid: demonstra-se algo a partir da causa, ou seja, da essência, às suas propriedades, da causa ao efeito, o que equivale a argumentar a partir daquilo que é primeiro em um sentido absoluto, porém isso é impossível à razão humana.

- quia: pode-se demonstrar algo a partir de seus efeitos, ou seja, argumentar a partir daquilo que é primeiro para nós, isto é, do efeito para a causa, o que equivale a um método regressivo.

Assim, Aquino conclui que podemos demonstrar a existência de Deus, embora não o conheçamos em sua essência, mas temos como partida os efeitos que nos são conhecidos.

3 - O terceiro artigo é onde encontramos as cinco vias da demonstração da existência de Deus, que se tratam da argumentação por meio da qual se pode provar que Deus existe.

3.1 - A primeira via: baseia-se no argumento do movimento, cuja inspiração está em Física de Aristóteles. O movimento se caracteriza pela passagem de potência a ato. Somente algo que existe em ato pode fazer com que algo que existe em potência passe a ato. Portanto, tudo que se move é movido por algo imóvel, já que não se pode admitir uma regressão ao infinito. Então entende-se Deus como sendo o primeiro motor.

3.2 - A segunda via parte da noção aristotélica de causa eficiente. nada pode ser causa eficiente de si próprio, pois nesse caso seria anterior a si próprio. Tal como no primeiro argumento, não se pode admitir uma regressão ao infinito no que se refere às causas. Portanto, Deus é a primeira causa eficiente.

3.3 - A terceira via é o argumento cosmológico, cujas bases também são calcadas no pensamento de Aristóteles, na noção de necessidade e contingência. Este argumento visa a explicar a necessidade da existência do Universo(o cosmo). A contingência é constatada na natureza, mas nem todas as coisas podem ser contingentes, senão seria possível que não houvesse nada. Mas aquilo que não existe somente pode começar a existir a partir daquilo que já existe anteriormente. É preciso assim que algo do que existe seja necessário. Logo, Deus é o primeiro ser origem de todas a necessidade.

3.4 - A quarta via tem como ponto de partida a existência de todas as coisas. Todas as coisas têm um predicado ou qualidade em grau maior ou menor, se caracterizam por um termo comparativo. Portanto, há pressuposto um parâmetro máximo. Assim, Deus é o ser perfeito, ou seja, aquele que tem o máximo de perfeição (realização de atributos ou qualidades).

3.5 - A quinta via é o argumento teleológico, que parte da noção de finalidade (telos) ou causa final, em que deve haver um propósito ou finalidade na natureza, caso contrário o Universo não tenderia para o mesmo fim ou resultado. assim, a causa inteligente dessa determinação é Deus.

A partir destes argumentos, Aquino buscou demonstrar a existência de Deus a partir da razão naturalconciliando a revelação (o que trazem as Escrituras) com a teologia natural (a noção de Deus que nós temos).

Esta linha argumentativa revalorizou o espírito do aristotelismo do mundo natural como objeto de conhecimento e assim, funde-se à crença hebraica revelada, referente à criação do mundo, a qual tem as marcas de seu criador.

Tal postura legitimou o ponto de vista teológico relacionado à investigação científica do mundo natural, motivo de curuisidade para o homem medieval, sob influência das obras científicas de Aristóteles e dos árabes como Averrois.

O pensamento de Aquino se denomina TOMISMO, o qual é um ssitema filosófico - teológico que se tornou integrante da doutrina da igreja. Seu princípio basilar reside na ideia de que entre razão e fé, embora haja distinção entre ambas, também ha colaboração. É pela razão que se demonstram algumas verdades da fé (a existência e unicidade de Deus), que se explicam os mistérios da fé por meio de imagens, metáforas e semelhanças e são dadas respostas às objeções dos ateus.

Thomas Hobbes (1588 a 1679) manteve a linha tomista de que todos os eventos eram predeterminados por Deus ou por causas extrínsecas, também por Deus, determinadas. assim, tudo provinha da necessidade (a quarta via de Aquino).

A esse ponto se contrapôs Bramhall, o bispo de Derry ao admitir uma indeterminabilidade nos eventos, o que denominou por contingência (eventos contingentes podem ou não acontecer ou podem acontecer de uma ou de outra forma).

Por meio deste raciocínio, Bramhall salienta que apesar de qualquer evento específico ser determinado por leis físicas, há tantos aspectos circunstânciais envolvidos na situação que levam a resultados indeterminados. Assim, este pensamento distingue a determinabilidade de uma situação quando ela acontece e a indeterminabilidade antes que ela aconteça.

Assim, caso haja o total controle das situações iniciais, em que a plena certeza do comportamento de todos os componentes desta situação, o evento deixara de ser aleatório e passara a ser determinístico.

Mas ao investigarem os céus e a Terra, os cientistas do passado se depararam com alguns problemas, como a obtenção de medidas diferentes ao trabalharem com uma mesma entidade. Era o erro aleatório que sempre aparecia de forma inesperadaem trabalhos que investigavam casos da natureza em busca de fatos sobre fenômenos exatos (distâncias astronômicas e orbitais), a antítese da aleatoriedade.

Tycho Brahe (1546 a 1601), ao final do século XVI, lutou para eliminar estes erros, em busca da exatidão das medidas.

Em 1632, Galileo formulou as seguintes proposições referentes ao erro aleatório:

1 - Os erros são inevitáveis;
2- os erros pequenos são mais prováveis que os grandes;

3- os erros de medição são simétricos, tendento a subestimar como a superestimar;
4- o verdadeiro valor da constante observada está próximo da maior concentração das medições.


Mas é com o trabalho de Newton (1643 a 1627) sobre a gravitação que essa ideia de aleatoriedade sofre grande abalo. Newton descreveu matematicamente como funcionava o campo gravitacional e com isso surge a crença de que tudo na natureza poderia ser formulado por meio da matemática.

Assim, se tudo se adequava a um projeto matemático, então deveria existir um grande projetista, pois o acaso e a aleatoriedade, de acordo com este pensamento, não teriam lugar.

Mas os erros persistiram e a exatidão continuou a estar longe de ser alcançada.

Com isso começa a surgir a noção de estatística como forma de medir esta aleatoriedade. É um trabalho emblemático de Thomas Simpson, em 1756, que demonstra que a probabilidade da média estar errada por um determinado valor é menor que a probabilidade de uma única observação estar errada pelo mesmo valor.

Mas é com daniel Bernoulli, em 1777, que a ideia de aleatoriedade se firma, uma vez que claramente percebeu que erros nas medidas astronômicas eram resultados aleatórios e acrescentou que todo o complexo de observações simplesmente se trata de evento aleatório.

Mas o que isso tudo tem a ver com o texto 4 e a aleatoriedade envolvida na geração e existência de um Universo ou de multiversos?


O que se percebe é que o Texto 4 e toda sua linha argumentativa tem assento na filosofia tomista que perdurou até Newton, uma vez que sua matemática da gravitação intuia a exatidão nas medidas do universo.

Tal ideia está de pleno acordo com a filosofia tomista e, portanto, com os desígnios de um criador o que se traduz em um forte raciocínio antrópico de que nosso Universo é raro com suas condições certas, todas surgidas conjuntamente para tornar a sua exist~encia e a vida possível.

Entretanto, conforme expõe o artigo A Busca pela Vida na Estranheza do Multiverso, publicado na Scientific American - Brasil, ano 8, n. 93, estudos sugerem que alguns outros universos (admitindo-se que eles existam) podem afinal não ser tão inóspitos.

Há valores alternativos para as constantes fundamentais e, portanto, conjuntos alternativos de leis físicas, passiveis de levarem a mundos bem interessantes e à vida. Muda-se um aspecto da natureza e compensa-se tal mudança em outros aspectos.

O ajuste fino consiste em tomar-se uma das constantes do Universo e alterá-la, mantendo-se as demais constantes inalteradas. Roda-se o filme do Universo e vê-se o que acontece, por meio de simulações em computador. Entretanto, não há qualquer razão para que apenas uma das constantes do Universo se altere. O que seria esperado é uma alteração de diversos parãmetros de uma única vez.

O ajuste fino é invocado como uma evidência indireta da existência do multiverso. Teoricamente, embora a hipótese de que o, Universo tenha começado como um minúsculo pedaço de espaço-tempo muito pequeno se sustente por meios de dados astronômicos, a cosmologia ainda não possui um modelo teórico definitivo para a inflação.

Todavia, a teoria sugere que diferentes pedaços de espaço-tempo podem inflar a taxas diferentes entre si e que cada um desses pedaços poderia formar uma pequena bolsa que se tornaria um universo autônomo, caracterizado por suas próprias constantes da natureza.

O espaço entre estes universos continuaria em uma expansão tão rápida que seria mesmo maior que a velocidade da luz.

Outra razão para se suspeitar que multiversos existem se refere à constante cosmológica (o nosso L do primeiro post), representante da energia do vácuo. É previsto pela física quântica que mesmo o espaço vazio possui energia e assim, a constante cosmológica seria tão grande que o universo se expandiria tão rapidamente que estruturas como galáxias não se formariam e se fosse pequena, o universo recolapsaria.

Mas, em 1998, descobriu-se o Universo está na realidade se expandindo a uma taxa acelerada devido a uma forma misteriosa de "energia escura", o que implica em uma constante cosmológica positiva e minúscula conforme demonstrara Steven Weinberg, em 1997, o que demonstra ser esta enegia demasiado diluída.

Os testes realizados em simulações aplicados à força nuclear fraca e às massas dos quarks parecem ter falhado ao se provocarem alterações na constante cosmológica. Isso leva a uma impossibilidade de encontrar um universo propício em que a constante cosmológica supere o valor para ela observado. Assim, dentro de um multiverso, a maioria dos universos poderia ter constantes cosmológicas incompatíveis com a formação de qualquer estrutura.

Argumentos teóricos baseados em teoria das cordas (extensão especulativa do Modelo Padrão que tenta descrever todas as forças como vibrações de cordas microscópicas) parecem confirmar tal cenário.

Sugere-se que durante a inflação (teoria proposta por Alan Guth), tanto a constante cosmológica como outros parãmetros poderiam ter assumido virtualmente um intervalo ilimitado de valores diferentes que é o Panorama da Teoria das Cordas (Scientific AmericanBrasil, ano 3, n. 29) .

Segundo a teoria das cordas, as leis da física observadas no mundo dependem da forma em que dimensões adicionais do espaço-tempo encontram-se emaranhadas, formando um pacote minúsculo.

Dessa forma, ao serem apuradas todas as configurações possíveis destas dimensões adicionais, há um panorama onde cada vale corresponde a um conjunto estável de leis.

O universo visível existe dentro de uma região do espaço-tempo associada a um vale deste panorama, o qual produz leis físicas adequadas à evolução da vida. Mas este Universo está em um vale é aleatório, em meio a um conjunto infinito de vales, em um vasto panorama de possibilidades.

Mas porque esta constante é tão pequena, algo em torno de 10 ^- 120? Para isso teremos de adentrar ao mundo da teoria das cordas.


O MUNDO DA TEORIA DAS CORDAS Adaptado de O Panorama da Teoria das Cordas: Scientific American - Brasil, ano 3, n. 29):

Todos sabemos que a teoria da relatividade geral propõe que a gravidade surge da geometria do espaço e tempo que se combinam para formar o espaço-tempo. Assim, o tempo para corpos nas proximidades de outros corpos massivos flui mais lentamente que caso estejam mais distantes.

É a brincadeira do GPS: Se o aparelho estiver na superfície da Terra, seu tempo fluira mais lentamente que se estivesse a 20 km de altura. Considerando-se apenas os efeitos gravitacionais e não a sua velocidade em torno da órbita do planeta, fenômeno este descrito pela teoria da relatividade geral (mais gravidade, mais lentamente flui o tempo) e, caso consideremos sua velocidade a 20 Km de altura, o fenômeno será descrito pela teoria da relatividade restrita e seu templo fluirá mais lentamente (mais velocidade, mais devagar o tempo flui), sempre considerado o observador externo. Isso ai é ao contrario mesmo!!!

Desa forma, considerando-se a questão gravitacional, deve haver alguma explicação geométrica para que tal fenômeno ocorra, bem como para as outras forças da natureza e mesmo no que se refere à existência das partículas elementares.

Theodor Kaluza e Oscar Klein propuseram que enquanto a gravidade reflete a forma das quatro dimensões do espaço-tempo que conhecemos, o eletromagnetismo surge da geometria de uma qunta dimensão, muito pequena para ser enxergada (pelo menos por enquanto).

Dessa forma, conceitos geométricos têm desempenhado impostante papel em tais estudos. Assim, a ideis de Kaluza e Klein foi ampliada como uma das característica da teoria das cordas , até entã a mais promissora unificação da mecânica quântica com a relatividade geral (e aqui) e a física de partículas.

Tanto nas conjecturas de Kaluza Klein quanto na teoria das cordas, as leis da física observáveis são controladas pela forma e pelo tamanho das dimensões microscópicas adicionais.

O eletromagnetismo bem como a gravidade decaem de forma inversamente proporcional ao quadrado da distância de sua fonte, o que seria um indício plausível para especular a respeito da conexão entre ambas as forças. A teoria geométrica da gravidade fornecia esta conexão caso se adicionasse a ela uma quinta dimensão, que estaria enrodilhada em um círculo suficientemente pequeno, porém invisível até ao microscópio mais potente.

A relatividade geral já demonstrara que o espaço é flexível. As três dimensões que vemos hoje estão se expandindo, de forma que não é difícil imaginar uma outra dimensão que ainda continue invisível.

Apesar de não ser diretamente detectável, esta quinta dimensão teria efeitos indiretos muito importantes, os quais poderiam ser observados e, com isso, a relatividade geral passaria a descrever um espaço-tempo pentadimensional. Esta geometria pode ser dividida em três elementos:

1 - a forma das quatro grandes dimensões do espaço-tempo;
2- o ângulo entre a dimensão de pequeno porte e as outras dimensões;
3- a circunferência da dimensão menor.

O espaço-tempo maior comporta-se de acordo com a teoria da relatividade geral quadridimensional comum. Em cada ponto de seu interior, o ângulo e a circunferência apresentam um dado valor, como dois campos permeando o espaço-tempo e assumindo certos valores em cada ponto. O campo de ângulo tem ação parecida com a de um campo eletromagnético de um universo quadridimensional. A circunferência determina as intensidades relativas das forças eletromagnética e gravitacional.

A possibilidade de dimensões adicionais também assumiu um papel cricial na unificação da relatividade geral e da mecânica quântica , por meio da ideia de que partículas são, na verdade, padrões de vibração de pequenos objetos unidimensionais (minúsculos laços ou fios. O tamanho normal de uma corda é próximo ao comprimento de Planck ou 10^-33 cm.

Assim, uma corda tem a aparência de um ponto quando vista sob qualquer escala maior que o comprimento de Planck.

Para que as equações representativas da teoria das cordas sejam matematicamente consistentes, uma corda deve vibrar em 10 dimensões de espaço-tempo, o que implica a existência de seis minúsculas dimensões adicionais.

Ao lado das corda, superfícies denominadas branas, que possuem diversas dimensões podem estar imersas no espaço-tempo. A teoria das cordas ainda contém fluxos ou forças que podem ser representadas por linhas de campo, tal como o que se verifica no eletromagnetismo clássico.

O quadro da teoria das cordas é bem mais complicado que aquele apresentado pela teoria de Kaluza e Klein, mas sua matemática é mais unificada e completa. Mas o tema de ambas é o mesmo: as leis físicas que enxergamos dependem da geometria de dimensões adicionais ocultas.

A solução para as equações da teoria das cordas são muitas, daí haver muitas geometrias possíveis. A teoria de Kaluza e Klein, com sua geometria pentadimensional e a relatividade geral cuja geometria é tetradimensional são casos particulares.

Na teoria das cordas há diversas dimensões adicionais o que resulta em uma série de parâmetros novos. Uma única dimensão somente pode estar enrolada em um círculo. Já, quando há mais de uma dimensão adicional, o conjunto por elas formado se apresentará sob muitas formas ou topologias diferentes, como uma esfera, uma rosca, duas roscas unidas, etc.

Cada laço de uma rosca (a alça) possui um comprimento e uma circunferência, o que gera um enorme conjunto de geometrias possíveis para as dimensões de pequeno porte. Mas os inúmeros conjuntos de soluções não são iguais, sendo que cada configuração possui uma energia potencial para a qual contribuem os fluxos, as branas e a própria curvatura das dimensões enrodilhadas.

A esta energia denomina-se energia de vácuo, por ser a energia do espaço-tempo quando as quatro dimensões grandes estão completamente livres de matéria ou de campos. a geometria das dimensões pequenas tenta se ajustar, a fim de minimizar esta energia, tal como a bola sobre o topo de uma rampa que rola para baixo.

A fim de compreender as consequências dessa minimização, há que se concentrar no tamamnho geral do espaço oculto. Qualquer solução para as equações da teoria das cordas representa uma configuração específica de espaço e tempo e um arranjo distinto das dimensões menores, juntamente com as branas a elas associadas e com as linhas de fluxo.

Por exemplo, para tamanhos muito pequenos, a energia é elevada de modo que a curva formar um pico a esquerda. Depois, esta energia desce e forma três vales cada qual mais baixo que o anterior. Por fim, à direita, após o último vale, a curva desce suavemente tendendo a um valor constante. O ponto mais baixo do vale localizado mais a esquerda, encontra-se acima da energia zero, o central é exatamente zero e o direito se encontra abaixo de zero.

O comportamento do espaço oculto depende de suas condições iniciais, ou seja, do ponto de unde irá se formar sua curva descendente. caso a configuração se inicie à direita do último pico, a curva tenderá ao infinito e o tamanho do espaço oculto aumentará interminavelmente, deixando de ser oculto.

Caso contrário, haverá o equilíbrio em um dos pontos mais baixos dos vales, sendo que o tamanho do espaço oculto se ajusta a fim de minimizar a energia. Mas estes três mínimos se diferenciam por suas energias de vácuo (positiva, nula ou negativa).

Em nosso universo, o tamanho das dimensões ocultas não varia com o tempo. Do contrário, as constantes da natureza também se alterariam. Dessa forma, nosso universo deve estar parado em um mínimo, com energia de vácuo ligeiramente positiva.

Uma vez que há mais de um parâmetro envolvido, segundo Leonard Susskind da Universidade Stanford, devemos imaginar essa curva como uma fatia de uma cadeia de montanhas complexa e multidimensional que se denomina panorama da teoria das cordas.

Os mínimos dessa paisagem multidimensional corrspondem às configurações estáveis do espaço-tempo, denominadas de vácuos estáveis. Este panorama é muito complexo e possui centenas de direções independentes que não devem ser confundidas com as dimensões espaciais do mundo. cada eixo mede não alguma posição no espaço físico, mas algum aspecto da geometria, como tamanho de uma alça ou posição de uma brana.

O cálculo da energia de um estado de vácuo é muito complexo e requer aproximações adequadas, mas progressos estão ocorrendo, como aquele realizado por Shamit Kachru, Renata Kalosh, Andrei Linde, todos da Stanford e sandip Trivedi do Instituto Tata de Pesquisa Fundamental em Mumbai que chegaram a conclusão de que o panorama das cordas realmente tem mínimos nos quais um universo pode ficar preso.

Sobre o número de vácuos não há uma certeza, sedo que há pesquisas que sugerem soluções com até 500 alças, Pode-se enrolar diferentes numeros de linha de fluxo em cada alça, mas há um limite, uma vez que elas tornariam o espaço instável.

Supondo-se que cada alça tenha entre zero e nove linhas de fluxo (10 valores possíveis), haveria 10^500 configurações possíveis. Se cada alça tivesse zero e uma unidade de fluxo (2 valores)haveria 2^500 possibilidades.

Além de afetar a energia de vácuo, cada uma das muitas soliuções gerará diferentes fenômenos no mundo macroscópico, definindo quais tipos de partículas e forças estão presentes, bem como suas massas e intensidades de interação.

Mas para que questões como por que o universo obedece às leis especificas que possui, qual vácuo estável descreve o mundo que vivemos, por que a natureza escolheu este vácuo específico e não outro, muito terá de se progredir no estudo do panorama das cordas.

Caso esteja correta a teoria das cordas, ela representará uma depuração nos diversos estados garantindo a apenas alguns a possibilidade de ser digno de possuir um universo.

Em vez de se reduzir o panorama a um único vácuo, pode-se propor situações diferentes baseadas em duas importantes ideias:

1 - que o mundo não precisa estar preso a uma configuração das pequenas dimensões para sempre, já que um processo quântico raro possibilita que pequenas dimensões pulem de uma configuração para outra;

2 - a relatividade geral que é uma parte da teoria das cordas, implica que o Universo pode crescer tão rapidamente que configurações diferentes coexistam lado a lado, em diferentes subuniversos, cada um suficientemente grande para desconhecer a existência de outros.

Cada vácuo estável é caracterizado por seu número de alças, branas e quanta de fluxo, mas há que se considerar que cada um desses elementos pode ser criado e destruído, de modo que, após períodos de estabilidade, o mundo pode passar a uma configuração diferente. Na estrutura do panorama, o desaparecimento de uma linha de fluxo ou qualquer mudança na topologia, constitui-se em um salto quântico sobre o cume de um pico que termina em um vale mais baixo.

Assim, podem surgir diferentes vácuos. E.g. suponhamos que cada uma das 500 alças comece com 9 unidades de fluxo. Uma a uma estas 4500 unidads decairão em alguma sequência governada pelas previsões probabilísticas da teoria quântica, até que toda energia armazenada nos fluxos seja consumida.

Começamos em um vale de uma montanha alta, saltando aleatoriamente os cumes adjacentes, visitando 4500 vales, cada vez mais baixos. Há um cenário com algumas variações (uma pequena fração das 10^500 soluções possíveis). Prece que a maior parte dos vácuos jamais chegará a nada.

Todavia, neste exemplo ignoramos o efeito da energia de vácuo na maneira como o Universo evolui. Objetos como galáxia e estrelas tendem a desacelerar um Universo em expansão, até fazer com que ele novamente colapse.

No entanto, a energia de vácuo positiva age como antigravidade, fazendo com que as dimensões que enxergamos cresçam cada vez mais rápido, sendo que tal expansão tem um efeito impórtante e surpreendente quando as dimensões ocultas se afunilam para formar uma nova configuração.

Vale lembrar que em nosso espaço tridimensional (deixando-se o tempo de lado), há um pequeno espaço de seis dimensões. Quando esse pequeno espaço salta para uma nova configuração, isso não ocorre no mesmo instante em toda parte. O tunelamento se dá primeiro em um ponto do Universotridimensional. Uma bolha da nova configuração de baixa energia sofre rápida expansão.

Caso as três dimensões não estivessem se expandindo, essa bolha em crescimento, engoliria todos os pontos do universo. Mas a região antiga também está se expandindo e esta expansão pode facilmente se tornar mais rápida que a da nova bolha.

Assim, ambas as regiões aumentam e a nova jamais obliterará a antiga. Este resultado é possível é a geometria dinâmica de Einstein, sendo que a relatividade geral não é um jogo de soma zero; esticar o tecido espacial permite a criação de novos volumes, tanto para o vácuo antigo, como para o novo. Isso também funcionará quando o nevo vácuo também envelhecer. Este não desaparecerá por completo, mas gerará uma bolha crescente, ocupada por um vácuo com energia ainda mais baixa.

Em razão da configuração original continuar a crescer, haverá um novo decaimento em outro ponto, ocupando outro mínimo próximo ao panorama. O processo continuará infinitas vezes, o que faz com que cada bolha abrigue soluções novas.

Em vez do decaimento de uma única sequência de fluxo, o Universo passa a experimentar todas as sequências possíveis em uma hierarquia de bolhas alojadas ou subuniversos. Tal resultado é bem similar ao cenário de inflação proposto por Alan Guth do MIT, Alexander Vilenkin da Universidade de Tufts e Andrei Linde da Universidade de Stanford.

Desde que o ponto de partida seja o alto das montanhas do panorama, praticamente todos os vales representantes dos mínimos serão visitados, cada um será alcançado infinitas vezes, por todos os caminhos possíveis. A situação somente terminará quando culminar na energia negativa (vale abaixo de zero), onde a geometria que se associa a energia de vácuo negativa não permite a continuação perpétua da expansão e a formação de bolhas.

Em cada bolha de regiões de baixa energia positiva, surgirá um universo quadridimensional (com as três domensões visíveis e o tempo), com suas próprias leis da física, que influenciarão na formação de estrelas, galáxias, síntese de elemetos, na química, na biologia e na possibilidade de haver condições para abrigar formas de vida.

Não vemos as leis de fora de nossa bolha, devido ao espaço estar se expandindo rápido demais para que a luz o ultrapasse. Vemos apenas as leis correspondentes ao nosso vácuo local, pois não conseguimo enxergar muito longe.

Em nosso cenário o que vemos como Big Bang nada mais é que o salto mais recente para uma nova configuração, que certamente em um dia muito distante esta parte do espaço poderá vivenciar outra transição do mesmo tipo.

Esse quadro explica como surgiram todos os diferentes tipos de vácuos estáveis do panoerama das cordas em vários pontos do Universo, formando inúmeros subuniversos. Esse resultado pode sulucionar um dos problemas mais umportantes e antigos da física teórica ligado á energia de vácuo.

Este temo era denominado por Einstein de constante cosmológica, adicionado a sua equação da relatividade geral de modo a torná-la consistente com sua convicção de que o Universo era estático. Esta constante assumira um valor positivo, mas foi abandonada quando Edwin Huble detectou que o Universo se expandia.

Com o advento da teoria do campo quântico, o vácuo se tornou um lugar movimentado, repleto de partículas e campos virtuais surgindo e desaparexcendo, com cada partícula e campo carregando uma energia positiva ou negativa.

Segundo cálculos baseados nessa teoria, tais energias deveriam somar uma tremenda densidade de cerca de 10^94 g/cm^3, ou uma massa de Planck por comprimento de Planck cúbico (Lp). Tal resultado levou o nome de "previsão mais equivocada da física, pois experimentos demosntraram que a energia de vácuo definitivamente não é maior que 10^-120Lp. Isso levou a física teórica a uma crise por 3 décadas.

Qual a origem de tal discrepância?

No ano 2000, combinou-se a riqueza de soluções da teoria das cordas e sua dinâmica cosmológica com um insight proposto por Steven Weiberg da Universidade do Texas, a fim de conseguir tanto uma razão quanto um mecanismo para este fato.

De início, há que se considerar a riqueza das soluções. A energia de vácuo é apenas a elevação vertical de um oponto do panorama, variando de cerca de +Λp nos picos até -Λp até os vales mais profundos abaixo de zero.

Supondo-se que existam 10^500 mínimos, suas elevações estarão aleatoriamente entre estes dois valores. A serem marcadas todas estas elevações em um eixo vertical, o espaçamento médio entre elas será de 10^-500 Λp.

Muitas, ainda que representem uma pequena fração do total, terão, portanto, valores entre zero e 10^-120Λp. Tal resultado explica como surgem valores tão pequenos. Andrei Sakharov sugeriu em 1984 que as geometrias complexas das dimensões ocultas poderiam produzir um espectro para a energia de vácuo que incluísse valores dentro da variação experimental.

Assim, de acordo com o acima descrito, explica-se como a cosmologia povoa a maior parte dos mínimos, gerando um Universo complicado, que contêm bolhas com todos os valores imagináveis de energia de vácuo.

Mas restam as perguntas:

Em que bolha nós estamos?
Por que nossa energia de vácuo estaria tão próxima de zero?

É aqui que o insight de Weinberg entra; certamente há um elemento de sorte, mas muitos locais são tão inóspitos que não é de se estranhar que não vivamos neles. Apenas uma pequena fração dos vácuos estáveis é favorável a vida.

Regiões do Universo com grande energia de vácuo positiva sofrem expansões tão intensas que não permitem que nada se forme.

Devido ao tunelamento quântico ser um processo aleatório, pontos muito distantes do universo decaem através de diferentes sequências de vácuos. Assim, todo o panorama é explorado, sendo que dcada vácuo estável ocorre em diversos pontos do universo. Desse modo, todo o universo é uma espuma de bolhas se expandindo dentro de bolhas, cada qual com suas próprias leis físicas e a parte que é visível de nosso universo é apenas uma pequena região dentro destas bolhas.

O tunelamento quântico surge do princípio da incerteza de Heisemberg. O tunelamento quântico consiste no evento de uma partícula atravessar uma região em que a energia potencial é maior do que a sua energia total - esta barreira é intransponível na mecânica clássica, pois a energia cinética da partícula seria negativa na região.

Já regiões com elevada energia de vácuo negativa rapidamente colapsam. Em ambos os casos não seria possível um universo destes abrigar vida. Vivemos onde podemos viver e, portanto, não devemos nos surpreender se a energia de vácuo em nossa bolha seja minúscula, sem jamais ser zero. A isso denominamos de raciocínio antrópico.

Cerca de 10^380 vácuos se encontram na posição ideal, mas apenas uma miníscula fração deles estará no zero exato. Caso estes vácuos se distribuam aleatoriamente, 90% deles estarão entre 0,1 e 1 * 10^-118 Λp. Portanto, se a imagem do panorama estiver correta, deveria ser observada uma energia de vácuo diferente de zero, provavelmente não muto inferior a 10^-118 Λp.

Estudos com super-novas distantes mostraram que o Universo visível está em em aceleração (sinal da presença de energia de vácuo positiva). O valor desta energia foi estimado, a partir da taxa de aceleração, em 10^-120 Λp, um valor suficientemente pequeno para ter escapado da detecção de outros experimentos, mas suficientemente grande para que a explicação antrópica seja plausível.

Einstein costumava se perguntar se deus teve escolha ao criar o Universo da maneira que ele é ou se as leis cósmicas seriam definidas por algum princípio fundamental. Um cientista só pode esperar que a segunda opção seja a correta. As leis básicas da teoria das cordas, apesar de ainda não completamente conhecidas, aparentam ser completamente fixas e inevitáveis; a matemática não permite escolhas.

Mas, as leis observadas mais diretamente não se tratam de leis básicas, pois dependem das formas das dimensões ocultas e, por isso, as opções são muitas. Os detahes que observamos na natureza não são inevitáveis, mas uma consequência da bolha específica em que vivemos.

Para responder se o panorama das cordas faz outras previsões além do pequeno valor da energia de vácuo, necessita-se de uma compreensão muito maior sobre o espectro de vácuos, sendo que não se localizou ainda um vácuo estável específico que reproduza as leis da física de nosso espaço-tempo quadridimensional.

Importantes conhecimentos físicos ainda terão de ser descobertos a fim de melhor clarearem as equações da teoria das cordas ou implodirem o modelo do panorama de vácuos de corda ou a cascata de bolhas que o povoam.

Mas, do ponto de vista experimental, o fato da energia de vácuo se positiva e difernte de zero parece ser uma conclusão quase inevitável das observações . Porém ha que se considerar que dados cosmológicos nos surpreendam.

É cedo para encerrarem-se as buscas por explicações distintas da aqui apresentada, mas é igualmente tolo ignorar a possibilidade de que surgimos em um dos cantos mais brandos de um Universo.

CONCLUSÃO SOBRE A ANÁLISE E SOBRE O TEXTO APRESENTADO:

Desse modo, claramente podemos perceber que até o momento a questão para um universo existir ou não dentro de determinados parâmetros não se trata de uma questão determinística escolhida por alguma coisa

Esta questão se resume á natureza propriamente dita, no que concerne às leis físicas do universo, dependentes da aleatoriedade de flutuações quânticas que podem ou não gerar as condições para que universos ocorram.

Como praticamente todos os vales representantes dos mínimos serão visitados, cada um será alcançado infinitas vezes, por todos os caminhos possíveis de uma sequência de vácuos existentes na região deste ponto do Universo.

Assim, nada impede que aleatoriamente uma dessas sequências repetidamente visitadas culmine em uma bolha e se faça um universo. O próprio grau de infinidade dessas "visitas a vales" anula o efeito probabilístico ínfimo de ocorrer um Universo capaz de abrigar a vida. Mas é claro que , segundo o que conhecemos, ele deverá estar dentro dos limites de nossa constante cosmológica.

Dessa forma, "chutar" a questão para um designer ou o diabo que seja, apegando-se a uma ideia de tempos medievais, não passa de ignorância referente aos progressos da física, além de estancamento de uma questão muito interessante para o conhecimento humano, que é saber o que é o Universo.

Ciência não se constrói filosofando, mas fazendo-se experimentos sobre hipóteses formuladas decorrentes da observação de um fenômeno. Estas hipóteses experimentadas se converterão em uma teoria que pode ser contra ou a favor das hipóteses formuladas, sem que se leve a posição ideológico-pessoal do cientista, primando-se pela honestidade deste estudioso.

O cientista, diferentemente dos fanáticos religiosos, possui um compromisso com a verdade. Caso minta, cairá em desgraça e perderá seu crédito. Já um fanático caso seja pego em suas falcatruas simplesmente deixará de auferir vantagens a partir de seus fiéi$$$. Ou seja, mexeu com o meu dinheiro mexeu comigo!!!!

sábado, 5 de junho de 2010

Maus usos da filosofia e ignorância científica Parte 3

TEXTO 3:

Na verdade este ponto não se trata de um texto, mas de uma palestra ou um quiz show em que Lane Craig "O senhor Erística" é a principal personagem.

Vejamos os vídeos e breves comentários sobre eles:

Vídeo 1: Aqui Craig analisa o argumento da contingência o qual diz que o Universo e tudo mais tem de ter uma explicação, devido a sua necessidade ou a uma causa externa, e que para o Universo existir tem de haver uma mente pessoal e transcendente.

Ao comparar a causa da existência das coisas Craig faz falsas analogias, pois compara objetos produzidos pelo homem (mente consciente) com coisas que existem na natureza (processo inconsciente) como se deliberadamente fossem a mesma coisa.

A natureza e o Universo, não demandam uma necessidade para existir, por exemplo, qual a necessidade de Eta-Karina existir? Não tenho a menor ideia, mas quem tiver por favor diga.

Sobre os entes matemáticos, estes não existiam na natureza, mas foram criados pelo homem a fim de representá-la em suas propriedades, por meio de modelos que se aproximam em muito da realidade. Daí os axiomas, postulados, teoremas, conforme tratados aqui.

Craig está correto em afirmar que há causas para as coisas existirem, porém extrapola em seu raciocínio ao colocar como a causa uma inteligência suprema, em vez de assumir que explicações científicas racionais suprem perfeitamente boa parte do que ele acha ser inexplicável. Mas por que motivos esta "consciência superior" teria criado o Universo?

Video 2: Neste ponto Craig analisa o argumento cosmológico. Este argumento é dado por:

(1) Tudo o que existe tem uma causa. (premissa 1)

(2) O Universo existe. (premissa 2)

(3) Portanto, o Universo tem uma causa para a sua existência. (conclusão inferida pelas premissas 1 e 2)

Até aqui, o argumento possui premissas verdadeiras, é logicamente válido e é sólido, pois leva a uma conclusão verdadeira.

Mas vemos ver a sequência deste argumento:

(4) Se o Universo tem uma causa para a sua existência, essa causa é Deus.
Deus aqui surge do nada. Qual é a evidência concreta que atesta ser deus uma causa para o universo?

(5) Logo, Deus existe.
Esta conclusão perde o objeto pela conclusão 2 não ser categoricamente verdadeira e não ter nada que a apóie em termos evidenciais. Tampouco a afirmativa de que deus é a causa do universo guarda relação com as premissas anteriormente expostas.

Vejamos a segunda parte deste raciocínio reestruturada:

Deus existe e é a causa primeira para tudo. (1)

Há uma causa primeira para a existência do universo. (2)

Assim, deus é a causa primeira para o Universo. (C)

No argumento, a premissa (1) é no mínimo duvidosa, não podendo ser tratada como verdadeira pois nada a evidencia.

A premissa (2) é evidenciável, portanto verdadeira.

O raciocínio é logicamente válido pois (1) e (2) inferem (C), há a distribuição do termo médio (causa primeira) de forma correta.

Mas não é sólido, pois (C) não pode ser encarada como uma conclusão verdadeira e pelo fato da premissa (1) ser no mínimo duvidosa.

Como todos já sabemos que a lógica não tem compromisso com a verdade, mas apenas com as estruturas de raciocínio. A lógica apenas preserva a verdade, ou seja, se há premissas verdadeiras e se é aplicada uma forma válida de argumento, obter-se-á uma conclusão verdadeira. Assim, o argumento acima não pode ser tomado como verdadeiro, mas apenas logicamente válido.

Quanto ao conteúdo do vídeo, na terceira premissa do argumento (o Universo tem uma causa), deliberadamente, Craig estabelece esta causa como sendo novamente a inteligência superior como sendo as razões para esta causa.

Ao expor que a teoria da Relatividade geral se aplicada ao universo como um todo demarca um início, Craig omite ou desconhece que a teoria quântica não leva a um início do universo como o começo de tudo, mas à existência de vários universos de 4 tipos, sendo que estes surgem e desaparecem em um ciclo infinito.

A teoria da gravitação quântica pretende unificar a teoria quântica (que descreve a força nuclear forte, a fraca e a eletromagnética, para o micro-mundo) com a teoria da relatividade geral (que descreve a gravidade em estruturas de larga escala), ao tratar a gravidade como uma partícula.

A teoria das cordas previu a existência do graviton (sempre atrativos), a suposta partícula responsável pela transmissão da força gravitacional em modelos de teorias quânticas de campo.

A hipótese é que a força gravitacional é similarmente transmitida por esta partícula elementar, ainda não descoberta, ao invés de descrita em termos de curvatura espaço-tempo como a relatividade geral. No limite clássico, ambas as abordagens fornecem resultados idênticos, e compatíveis com a lei de gravitação de Newton (Feynman, R. P.. Feynman lectures on gravitation; Zee, A.. Quantum Field Theory in a Nutshell; Randall, Lisa. Warped Passages: Unraveling the Universe's Hidden Dimensions).

Dessa forma, flutuações quânticas dentre estas 4 forças podem ser a resposta para a origem do Universo ou de infinitos universos antes e após este e contemporâneos deste.

Certamente, para um Universo em particular, somente podemos falar te espaço-tempo, a partir do momento que uma singularidade se dissocia e irrompe em um processo inflacionário (teoria proposta por Alan Guth) criando um novo Universo.

Segundo a teoria, a inflação foi produzida por uma densidade de energia do vácuo negativa ou uma espécie de força gravitacional repulsiva.

é uma energia de fundo existente no espaço inclusive na ausência de todo tipo de matéria. A energia do vácuo tem uma origem puramente quantica.

A energia do vácuo teria também importantes consequências cosmológicas estando relacionada com o período inicial de expansão inflacionária e com a aparente aceleração atual da expansão do Universo. Esta expansão pode ser modelada com uma constante cosmológica não nula. Consequentemente todo o universo observável poderia ter-se originado numa pequena região.

E, é nesta pequena região que podemos falar que houve uma flutuação quântica do vácuo que tenha gerado este Universo.

Segundo o Efeito Casimir
, proposto em 1948, pelos físicos holandêses Hendrik Brugt Gerhard Casimir (1909-2000) e Dirk Polder (1919-2001) do Philips Research Laboratories, há a existência de uma força (energia) no vácuo, devido a suas flutuações quânticas. Essa força foi primeiro medida por Marcus Spaarnay, também da Philips, em 1958, mas mais precisamente em 1997 (Physical Review Letters, 78, 5), por Steve K. Lamoreaux, do Los Alamos National Laboratory, e por Umar Mohideen, da University of California em Riverside, e seu colaborador Anushree Roy (1998, Physical Review Letters, 81, 4549).

Ver aqui.

Assim, a argumentação de Craig em torno do argumento cosmológico se esvai, pois cientificamente começamos a ter respostas para muitos de seus questionamentos, que excluem a ideia da inteligência ou consciência suprema, a qual demandaria muito mais explicações ou se fecharia em um ponto estanque característico do dogmatismo religioso.

O argumento cosmológico pode ser válido, em termos lógicos, porém não há solidez, pois suas premissas e sua conclusão podem ser falsas ou no mínimo duvidosas.

É aqui que os argumentos de Craig caem por terra. Eles apenas se revestem de uma aparência de veracidade pela lógica, mas no fundo não passam de irreais, pois a lógica não guarda qq correspondência com a realidade. É isso que religiosos não entendem e, portanto, tomam todo o jogo retórico de Craig como se fosse algo que merecesse crédito.

veja aqui as noções de lógica.

Vídeo 3: Neste ponto, Craig analisa o argumento teleológico. Este argumento apresenta duas variantes teleológicas na premissa 1 (necessidade física ou o design) e uma terceira premissa que seria o acaso.

Deliberadamente o argumento exclui a necessidade física e o acaso, o que demonstra estar a premissa do design (a conclusão esperada) implicitamente escondida na premissa 2.

Portanto o argumento é uma falácia da dispersão, construída em um misto entre falso dilema (necessidade física/design e acaso) com um argumento da ignorância (o qual estabelece o designe como resposta).

A explicação para desconstrur este argumento se encontra no ponto em que discorremos sobre a afinação do Universo (aqui).

Analisando-se as falas de Craig, ele deliberadamente estabelece que o Universo foi construído para ter vida inteligente, como se conhecesse profundamente a geração de universos e as propriedades para haver vida neste universo. Entretanto craig onite o fato do Universo ser uma lugar mortal.

Se o fim do Universo fosse a vida, as estrelas não morreriam, não haveria explosões de raios gama, não haveria planetas infernais, infernos gelados e planetas alternados entre extremo calor e extremo frio devido a órbitas super excêntricas e, tampouco, as "ilhas de calmaria" seriam tão escassas.

Assim, o acaso pode ter existido na flutuação quântica do vácuo (possível choque entre duas ou mais branas ou o inchaço e rompimento de um brana), mas a partir daí, pode ser que haja propriedades para que os universos se formem.

Sobre a vida e sua origem, acredita-se em uma origem química. Mas, todos sabemos que em química o acaso depende choques moleculares. Mas há aqueles choques mais propícios de acontecerem e, portanto, mais prováveis devido a propriedades periódicas e aperiódicas dos elementos. Assim, poderiam ter surgido pequenas moléculas associadas em hipercíclos (teoria proposta por Manfred Eigen) que colhiam matéria do meio para se alimentarem, crescerem e se reproduzirem e, portanto, evoluírem (ver aqui).

Portanto, para questões ligadas à vida, o acaso reside em como se comportará o nosso planeta e o que acontecerá com ele; qual será a próxima erupção, o próximo terremoto, o próximo asteróide, que mudança climática irá ocorrer, dentre outras causas naturais, a fim de que os seres se adaptem e evoluam.

Mas estabelecer probabilidades, partindo-se de um hiperciclo para se chegar a um elefante, é algo errôneo, uma vez que não se trata de um projeto o que estamos discutindo, ou seja, a vida nãop planejou que um elefante existisse (não se pode estabelecer para um fenômeno natural uma finalidade, pois não se trata de um fenômeno consciente). O elefante passou a existir por circunstâncias relacionadas aos problemas que nosso planeta enfrentou, o que determinou os caminhos a serem tomaos pela evolução das espécies.

Ao comentar o acaso, Craig parece demonstrar conhecer tudo sobre o Universo, as origens da vida e a evolução das espécies uma vez que é capaz de falar sobre probabilidades de eventos e excluir deliberadamente o acaso, numa forte alusão ao princípio antrópico fraco.

Craig estabelece que a noção de multiversos seja mera postulação metafísica, como forma de excluir o design, o que é falso. Em sentido aristotélico, a metafísica é algo intocável, que só existe no mundo das idéias.

Obviamente ninguém até o momento sequer viu um universo paralelo, e tampouco sabemos se de fato existem, embora a física quântica leve a estes resultados. Ver aqui e aqui.

Todavia deliberadamente como resposta estabelecer um designer como solução do problema da existência do Universo, não responde absolutamente nada, seja em termos filosóficos ou científicos.

Video 4: Neste ponto Craig explana o argumento moral para a existência de deus. O argumento se resume em:

premissa 1 - Se deus não existe, valores e obrigações objetivas morais não existem;

premissa 2 - Valores e obrigações objetivas morais existem;

conclusão - deus existe


O argumento em si é também falacioso, pois como o próprio Craig diz, embora sendo contrário a esta ideia, de fato os julgamentos morais estão de acordo com a sociedade ou a cultura em que o sujeito vive.

Mas atenção!!! Isso não quer dizer que podemos fazer o que bem entendermos e alegarmos "em nossa cultura ou em nossa sociedade é assim". Para tal temos de nos remeter à noção de sistemas, ou seja, determinadas condutas serão postas de acordo com os três modais deônticos: o obrigatório, o permitido e o proibido.

Mas é claro que se estou vivendo sob um sistema que difere daquele em que cresci, terei de me submeter aos seus modais deônticos, a fim de que não crie problemas que possam prejudicar outros indivíduos e a mim mesmo, o que poderia gerar o conflito e ,os consequentes problemas sociais.

Por exemplo, se nasci em uma sociedade indígena sul americana que não usa roupas, não significa que poderei andar nu em uma sociedade islâmica. É obrigatório que eu me vista segundo um padrão de mínimo aceitável para aquela sociedade.

Caso eu venha de uma sociedade cujo costume é a poligamia, é proibido que aqui no Brasil eu contraia mais de um matrimônio.

Caso eu professe o cristianismo, é permitido que eu o faça no Japão, que é uma sociedade budista e xintoísta.

É por meio destes três modais deônticos que os valores morais ganham um sentido a fim de que em determinada sociedade, os indivíduos convivam uns com os outros, pois do contrário as sociedades entrariam em colápso, o que poderia levar a espécie humana à extinção, fosse em seus primórdios como hoje em dia.

Mas qual a base destes modais deônticos? É necessário criar um padrão de respeito recíproco ao qual todos os indivíduos devem submeter-se, para que o bem comum possa ser garantido. Aqui reside a ética, já em suas fronteiras com a moral. Entende-se, desse modo, que a ética se assenta no conceito sociobiológico de altruísmo, o princípio moral que leva um agente a buscar o bem de outros em vez de defender apenas seus interesses particulares.

Peter Singer, em The Expandede Circle, acredita ser possível explicar a origem da ética a partir do altruísmo.
Singer encontra em Darwin uma melhor explicação da origem da ética (o ramo da filosofia que busca estudar e indicar o melhor modo de viver no cotidiano e na sociedade), pois ele distingue diferentes tipos de altruísmo:

o altruísmo natural de parentesco, voltado à defesa dos interesses de membros da própria espécie;

o altruísmo recíproco, voltado à defesa dos interesses de outros indivíduos não pertencentes à própria linhagem genética, mas capazes de retribuição;

o altruísmo tribal, voltado à defesa dos interesses do próprio grupo.

É por meio destas formas de altruísmo que Henry Sidgwick descreve o desenvolvimento moral humano (fundamentado na obediência a normas, tabus, costumes ou mandamentos culturais, hierárquicos ou religiosos recebidos).

A ética pode encontrar-se com a moral pois a suporta, na medida em que não existem costumes ou hábitos sociais completamente separados de uma ética individual. Da ética individual se passa a um valor social, e deste, quando devidamente enraizado numa sociedade, se passa à lei.

Assim, pode-se afirmar, seguindo este raciocínio, que não existe lei sem uma ética que lhe sirva de alicerce. Mas o que define uma lei ? É a partir da combinatória dos três modais deônticos que se dá a dinâmica operacional do direito e este direito positivado nas sociedades modernas implica o controle do que é ou não lícito, por meio de um sistema jurídico, onde estão as leis.

O altruísmo que é a base para a construção das sociedades humanas é estudado pela sociobiologia.

A sociobiologia é um ramo da biologia que tem estudado o comportamento social dos animais, sendo que ela propõe que tais comportamentos também se verificam nos seres humanos. O termo foi popularizado pelo biólogo Eduard Osborne Wilson, em seu livro Sociobiologia: a nova síntese.

De acordo com esta teoria, o cérebro humano, ao longo de sua evolução, desde nossos ancestrais, sofreu pressões seletivas que o adaptaram a determinadas circunstãncias, sendo uma delas a vida em grupo.

Um organismo geneticamente propenso ao altruísmo, por exemplo, poderia ter ganhos maiores se o ambiente fosse propício a isso, conforme demonstrou o biólogo Robert Trivers. Assim, sentimentos como a compaixão seriam influenciados por fatores genéticos, e portanto deveriam ser estudados com base na biologia.

Entretanto, para a sociobiologia, nenhuma ação humana pode ser considerada genuinamente altruísta.

Para ser ético é preciso que o agente moral seja capaz de fazer uso do intelecto, do pensamento, da razão.

Embora as emoções estejam na base da moralidade, elas se originam-se nas experiências do bom e do ruim, particulares ao indivíduo. Assim, não podem servir de medida objetiva para definir o que se faz de bom ou de ruim a outros seres vivos, especialmente quando esses não privam do mesmo habitat natural, social e emocional do agente moral.

Ao usar a razão, algo que o altruísmo ético (querer o bem dos outros, ainda que disso não tiremos proveito algum) exige, o agente moral pode ser obrigado a contrariar suas intuições morais.

Intuitivamente, seguindo a descrição sociobiológica de nossa natureza, buscamos apenas proteger os interesses dos seres que se parecem conosco. Esta ética tribal animalesca não se presta para reger interações em mundos urbanos compostos por seres absolutamente não identificados uns com os outros.

Ao agir eticamente busca-se o bem-próprio de quem sofre a ação, ainda que este ou esta não se pareça em nada conosco, nem faça parte de nosso grupo, nem possa nos retribuir o ato. O bem desse outro representa para nós o valor a ser preservado.

Os fatos de sua aparência singular, embora não representem valor algum para nós, podem dar-nos algum esclarecimento sobre as condições do paciente moral. Mas fatos não nos levam à ação. Os valores, pelo contrário, são as legítimas motivações para o agir moral. Em suma, nossos genes não escolhem nossas premissas éticas. Nós o fazemos usando nossa razão. Nenhum fato genético mostra direção alguma para nossos atos.

Embora seres humanos também sejam objeto de estudo pela Sociobiologia, eles apresentam um fator que os torna diferentes da maioria dos animais sociais: a cultura.

A cultura é capaz de promover transformações na forma como os humanos interagem com seu ambiente, independente de sua herança genética. Logo, para os sociobiólogos, o comportamento é fenótipo, ou seja, é um produto dos genes com o ambiente.

Mas, predisposições genéticas podem ser influenciadas pelo ambiente, o que pode acarretar o aparecimento de organismos com características comportamentais geneticamente predispostas, sem se esperar chegar ao 100 por cento.

Um tipo de comportamento humano em relação ao qual existe uma forte predisposição genética pode ser considerado como parte da natureza humana. A natureza humana não é vista como algo que force os indivíduos a comportar-se de certa maneira, mas como algo que torna os indivíduos mais inclinados a agir de uma determinada maneira do que noutra.

Entretanto, o conceito de natureza humana é visto com reservas pelos cientistas sociais, sendo que atribuir-lhe um caráter científico é um tanto arriscado. A grande diversidade de sociedades humanas e suas diferenças culturais contradizem a argumentação de uma natureza humana geneticamente determinada e moldada para a seleção natural.

Mas isso não afasta o ser humano da natureza, colocando a cultura como realidade desvinculada das coisas naturais, sem levar suas dimensões biológico-evolucionárias que nitidamente são compartilhadas pelos primatas superiores.

Portanto não são apenas os homens que possuem capacidade de simbolizar. Primatas superiores também o fazem. Mas humanos conseguem fazê-lo de forma muito mais complexa e é isso que leva às diferenças culturais, sendo que hábitos e práticas sociais estão em consonância com a sobrevivência das populações. Porém as diferenças de costumes não se explicam pela necessidade de subsistir, pois o meio ambiente influencia sem determinar.

O costume é o nome dado a qualquer regra social resultante de uma prática reiterada de forma generalizada e prolongada, o que resulta numa certa convicção de obrigatoriedade, de acordo com cada sociedade e cultura específica. O costume se perfaz por duas vias integradas:

Repetição constante e uniforme de uma prática social - o uso - obediência a uma conduta por parte de uma coletividade;

Convicção de que prática social reiterada, constante e uniforme é necessária e obrigatória - psicológico.

A reiteração do uso forma o costume, que, na lição de Vicente Ráo, vem a ser a regra de conduta criada espontaneamente pela consciência comum do povo, que a observa por modo constante e uniforme, e sob a convicção de corresponder a uma necessidade jurídica.

Embora o meio não determine nossos costumes, estes têm esteio também nos três modais deônticos, cuja base estána moral que se assenta na ética a qual se constrói pelo altruísmo sob suas três vertentes.

Assim, a necessidade do altruísmo da ética e da moral humanas, não se trata em meramente subsistir, mas conviver, crescer e progredir, conceitos estes que diferem da consciência animal que busca apenas sobreviver.

Dessa forma, a moral é a chave para o progresso de uma sociedade, no momento em que os indivíduos se vêm obrigados a agir dentro de certos padrões que, enraizados na sociedade, que se tornam, de início um costume. Posteriormente estes costumes convertem-se em regras de Direito e, por fim, normas positivadas ao que denominamos de leis.

Portanto, afirmar com base no argumento moral que a existência de deus é necessária para a moralidade, é algo muito temerário, uma vez que o argumento se assenta na premissa de que existem valores e obrigações morais objetivos, o que é falso, conforme a variedade social em cultural em que o ser humano vive.

Em toda sua exposição, Craig não citou sequer um exemplo de valor moral e obrigação objetivos. Entendemos o que é errado, intolerante e detestável.

Por exemplo, enviar jovens para a travessarem um campo minado para estes morrerem e permitir que tropas avancem em uma ofensiva, nos parece abarcar todos estes conceitos, negativos, mas isso ocorreu na Guerra entre Irã e Iraque. Porém, famílias iranianas vêem estes jovens como mártires.

Fazer genocídios de tribos indígenas matando-se mulheres e crianças e escravizar índios e negros, também nos parece tudo de ruim, mas aconteceu aqui nas Américas, sendo que tudo era visto com normalidade.

Portanto, nossa moral não depende da existência de deus mas de nosso desenvolvimento moral humano, calcado na ética (cuja matriz é o altruísmo), na medida em que não existem costumes ou hábitos sociais completamente separados de uma ética individual, a qual passa a um valor social, (orientado pelos três modais deônticos) e, quando devidamente enraizado numa sociedade, torna-se uma lei.

Ética e moral não nos obrigama seguir condutas, pois a máxima sanção que poderemos ter é de cunho social, mas a lei nos obriga a segur determinadas condutas, pois do contrário teremos sanções penais que podem atingir nossa liberdade e patrimoniais que poderão avançar sobre nossos bens.

Ler: aqui, aqui, aqui , aqui , aqui e aqui


Vídeo 5: Neste ponto Craig trata do argumento da ressurreição. De início Craig se restringe apenas aos monoteísmos judaico, cristão e islâmico.

Todavia ele considera deliberadamente que deus se revelou na pessoa de Jesus, pois este afirmou ser o filho de deus (SIC). Porém, tais afirmativas foram corroboradas pela ressurreição.

Craig se baseia no Novo Testamento, mencionando historiadores experts nesta área. Entretanto, não há menções históricas sobre estes fatos exceto na bíblia. Uma questão se refere ao Testimonium Flavianum, escrito por Flavio Josefo em Antiguidades Judaicas, o qual menciona ter existido Jesus.

Segundo historiadores isso é falso, pois Flavio Josefo teria dito que Jesus era o Cristo e, portanto teria negado sua fé de judeu, o que não se tem conhecimento.

Mas Craig baseia sua argumentação no livro de N.T. Wright, o qual dá sua "opinião profissional" de que a tumba vazia e as aparições pós morte de Jesus são tão bem atestadas que chegam a se comparar com eventos como a queda de Jerusalém e aos Césares.

Craig também aposta na sinceridade das pessoas que escreveram os textos antigos que mencionavam Jesus e afirma serem estes fonte de vasta informação , conferindo a Jesus o título de pessoa mais popular da antiguidade.

Porém, não é o que se verifica historicamente, exceto se analisarmos a bíblia em si.

Entretanto, a fim de concluir que o deus cristão é o verdadeiro, Craig se baseia no argumento da tumba vazia,e das aparições de Jesus, assumindo deliberadamente serem estas premissas c verdadeiras.

Esta premissa leva a hipótese de que Jesus foi ressussitado ser a explicação para o fato da tumba vazia, e das aparições, sem considerar qualquer outra hipótese, como por exemplo o furto do corpo, imaginação das pessoas ou mesmo a hipótese de Jesus ter escapado com vida de seu martírio.

Como consequencia, Craig estabelece que isso foi a revelação de deus na pessoa de Jesus e, portanto o deus verdadeiro é o cristão.

Vemos que em sí o argumento é uma falácia, pois a conclusão já se encontra embutida em suas premissas.

Vídeo 6:Neste ponto Craig trata do problema do mal. Craig começa dizendo que realmente o problema do mal, quando analisado sob a óticas das emoções, causa muitas dúvidas sobre a existência ou mesmo sobre o caráter de deus.

Mas ao se analisar a questão sob a ótica filosófica, é impossível estabelecer um parâmetro para se afirmar que deus é improvável ou que ele não existe. Entretanto, filosofica, científica ou emocionalmente, também é impossível afirmar-se qualquer coisa que ateste a existência deste ser.

Craig se pauta em um argumento que ele diz ser lógico (SIC) em que deus e o mal são incompatíveis e que se um existe o outro não pode existir. Todavia não há contradições entre deus ser "onitudo" e o mal existir.

Craig assenta esta premissa no livre arbítrio, ou seja, as criaturas capazes de raciocinar podem escolher entre bem e mal. Na visão de Craig, se deus criasse então um mundo sem o mal, removeria a capacidade das pessoas conhecerem o bem moral. Assim, para Craig um mundo sem mal seria imperfeito, pois eliminaria a possibilidade de se conhecer o bem moral (como se em um mundo perfeito fosse necessário se ter domínio do que é bom).

Ainda, Craig aventa que a onipotência não significa que deus possa fazer o que bem entender. Mas onipotência, segundo o dicionário Houaiss, significa a capacidade de um ser poder fazer tudo. Portanto deus não é onipotente segundo o que Craig diz.

No que se refere sobre a onibenevolência de deus para um mundo onde não haja o mal, Craig aventa a hipótese de que deve haver muitas vezes o mal para que um bem maior sobrevenha. Mas para que haveria a necessidade de um bem maior em um mundo perfeito onde todos fossem felizes?

Craig prova a compatibilidade entre a existência do mal e de deus no argumento de que deus não poderia criar um mundo que tivesse mais bem que o mundo real mas com menos mal, uma vez que ele tem razões morais para que o mal exista. Por meio deste argumento Craig considera a questão do mal solucionada.

Mas se deus se atrela a questões morais para que o mal exista, então ele não possui onipotência e, tampouco, possui onibenevolência, mas nenhuma destas características se opõe a sua existência ou inexistência. Este foi o erro de Hitchens, que não deveria jamais ter questionado a existência de deus, mas apenas suas características.

A conclusão para estas análises, é a de que Craig cria uma aura de que argumentos filosóficos assumam a característica de reais, o que confunde a platéia leiga. Pelo menos por enquanto, não podemos provar a existência ou não dos deuses, do mundo dos espíritos, ou da veracidade desta ou daquela religião.

Em suma, o compromisso de Craig não é com a verdade, mas em apenas vencer debates por meio de argumentos erísticos que beiram ao ridículo. Caso Hitchens seguisse os conselhos de Craig, em estudar mais a temática da argumentação e a filosofia em si, poderia pegar suas falácias no pulo e evitaria ele próprio em cair nesta classe de argumentos.

Nem ateus e nem crentes estão corretos em suas premissas e conclusões, pois como asseverou Kant, é impossível provar que deus exista, porém isso não implica afirmar que ele não exista.


quinta-feira, 3 de junho de 2010

Maus usos da filosofia e ignorância científica Parte 2

TEXTO 2:

O segundo texto vai na linha do primeiro. Em virtude da contestação de um leitor, a explicação agora ganha o auxílio de nada mais que J. P. Moreland e William Lane Craig, este denominado de "senhor erística" (técnica empregada com o objetivo de vencer uma discussão e não necessariamente de descobrir a verdade sobre determinada questão).

Não sei qual dos dois escreveu o texto, mas me parece bem ao gosto de Lane Craig, uma vez que implicitamente se vale das probabilidade para criar o ofuscamento da realidade.
O texto já começa com bobagem, ao tocar no tema da matéria e da antimatéria primordiais, conforme segue:

"Se a matéria e a antimatéria primordiais tivessem proporções diferentes, se o universo tivesse se expandido um pouco mais lentamente, sem que a entropia do universo fosse magistralmente maior, qualquer desses e de outros ajustes teria impedido a existência do “universo com vida”, embora tudo pareça perfeitamente possível no aspecto físico."
Ora, matéria e antimatéria no universo primordial tinham quantidades diferentes, pois se assim não fosse teriamos um mar de energia apenas.


Uma brevíssima história do universo:
No início, a 10^-11 segundos após o início do universo, quarks e antiquarks existiam em taxas iguas e se aniqulavam em radiação e devido às altas temperaturas se recriavam por meio desta radiação, para novamente se aniquilarem.

Com a expansão, o Universo começou a esfriar. Com este resfriamento, reduziu-se a possiblidade de criação de pares quark/antiquark e mais números de quarks que de antiquarks passaram a existir. Isso se verifica pois hoje temos mais quarks que antiquarks e prótons e nêutros são feitos de quarks.

A 10^-10 segundos, começam a se formar as partículas responsáveis pela força nuclear fraca. Os bósons são as partículas que transmitem a força nuclear fraca (que propicia a fissão de núcleos) e estes são muito pesados. A força nuclear fraca é a que propicia a cisão das partículas, e é responsável pelo decaimento beta (emissão de um elétron ou de um pósitron).

O seu ganho de massa se deve a um processo denominado quebra espontânea de simetria que ocorre em uma escala definida de energia. Acima desta escala, os bósons não possuem massa, assim como os fótonse glúons. abaixo desta escala os bósons são grandes e pesados e a força nuclear fraca passa a agir em distâncias da ordem de 10^-18 m.

Em 10^-4 s, os quarks e os glúons se uniram confinando-se nos mésons (méson pi) e nos bárions (próyons e nêutrons). A esta coesão denominamos de força nuclear forte.

Em 1 s, nêutrons e prótons cambiavam-se uns nos outros devido a emissão e absorção de neutrinos. Com o resfriamento do universo, este processo diminuiu e foram deixados 7 prótons para um nêutron. Isso ocorreu devido ao nêutron decair em próton, em um elétron e um elétron antineutrino. Mas os prótons não decaem em nada.

Com a expansão do universo e seu resfriamento, a conversão de prótons em nêutrons se reduziu, mas os nêutrons continuaram a decair em prótons. Para o hidrogênio é necessário apenas um próton e para o hélio são necessários 2 prótons e 2 nêutrons. Esta é a "razão de existir" mais hidrogênio que qualquer coisa no Universo.

A 100 s, com a expansão e o resfriamento, prótons e nêutrons puderam então mantêrem-se coesos formando núcleos atômicos de elementos leves (hidrogênio, hélio e lítio). A este processo se denomina nucleossíntese. Com isso pode-se perceber reduções da entropia local devido a queda de temperatura que permitiu a aproximação entre prótons e nêutrons.

Após 10 mil anos, mais e mais matéria passa a ser criada a partir da radiação de alta energia. Esta matéria formada determinou como o Universo se expandiria.

Em 500 mil anos, com o resfriamento do universo, os elétrons puderam ser capturados pelos núcleos e assim, formaram-se os átomos, e as primeiras moléculas, mas ainda de elementos leves.

No intervalo de 1 bilhão de anos, com os átomos formados, as forças gravitacionais começaram a se tornar importantes. O gás hidrogênio coalesceu e colapsou, dando início à fusão nuclear, criando as primeiras estrelas.

Em um intervalo de 2 a 13 bilhões de anos, os elementos pesados começaram a ser cozidos no interior das estrelas e, com a morte destas, eram ejetados no espaço.
O assunto sobre estas forças será mais profundamente tratado em postagem específica.

Isso propiciou a formação de sistemas planetários que passaram a circundar estrelas de segunda ou de terceira ordem. Na periferia destes sistemas se formaram os gigantes gasosos e mais interiormente os planetas rochosos, os quais se estiverem em uma "zona goldilocks" podem dar origem a vida.

Assim, como vimos na postagem anterior, para este universo, os 6 números estudados se ajustaram para dar condições para a vida complexa, mas não que isto possuísse um propósito determinado por alguma inteligência superior.

No que concerne à teoria das cordas, as 11 dimensões foram matematicamente determinadas e não meramente postuladas, como parece ser a mensagem deixada no artigo. Este número de dimensões poderia ser um novo número nas constantes de nosso universo, sendo quatro delas desenroladas (3 espaciais e uma temporal) e 7 outras dimensões espaciais enroladas no comprimento de Planck, o que permitiria a estabilidade de nossas cordas para formarem as partículas fundamentais, cada qual vibrando conforme sua energia.

A teoria dos multiversos não toma os 6 números estudados anteriormente como se devessem ser fixos e mesmo as dimensões do universo no que consiste a sua formação. Apenas conhecemos este universo e os numeros para este universo se ajustam conforme vimos.

Não necessariamente há uma necessidade física de que as coisas sejam assim, como não há um desígnio para tal.

O que temos são flutuações quânticas que ao acaso podem geram muitos tipos de universo. Alguns com durações efêmeras, outros longas e outros que mesmo propiciem vida simples ou complexa.

Quanto á questão da entropia (de novo não!!!) se partirmos de que o Universo tenha tido sua origem numa singularidade, as regras que hoje a ele se aplicam, não se aplicariam à singularidade, exatamente como ocorre com o buraco negro. Assim, somente é interessante falar-se em entropia após o big bang, sendo que neste, as 4 forças se separaram e, com o resfriamento do universo, as partículas elementares se formaram, cada qual vibrando com sua energia específica.

Mais adiante, passou a haver a possiblidade da nucleossíntese destas partículas elementares em prótons, nêutros e finalmente átomos, moléculas, matéria, estrélas primordiais e, mais futuramente estrelas de segunda ordem e sistemas planetários que deram condições para haver vida.

Assim, tanto a necessidade física como o designer, nada mais são que variantes do argumento teleológico.

Nos resta assim o acaso como a via para a existência do universo e de tudo o que nele há.

Abaixo segue uma sequência acerca do universo como o conhecemos:

Basta clicar next para ver o filminho.